sábado, 14 de março de 2009

CARLOS GOMES

Estava pesquisando partituras de compositores paraenses do inicio do século XX na Biblioteca do Museu da UFPA, quando encontrei este ensaio escrito por Ulysses Nobre e anexo a uma das partituras. Acho de bom tom reproduzi-lo aqui no informativo pela honra e pela glória da memória do nosso barítono-cronista.

Antonio Carlos Gomes nasceu em Campinas, a 11 de junho de 1836. com 9 anos de idade já fazia parte da banda dirigida por seu pai José Gomes, de quem recebeu as primeiras lições de música, chegando a tocar todos os instrumentos. Numa das excursões que aqueles músicos fizeram à capital da província, Carlos Gomes, instado pelos estudantes, compôs o “Hino Acadêmico” que obteve grande sucesso. Encorajado pelos mesmos estudantes, empreendeu a fuga para o Rio, onde conseguiu, por intermédio do Imperador D. Pedro II, matricular-se no Conservatório, dirigido nessa época por Francisco Manuel da Silva, o autor do Hino Nacional.
Terminado o seu curso, compôs a primeira ópera “A Noite do Castelo”, levada à cena em 1861, no antigo Teatro Lírico, com extraordinário sucesso. Logo depois cantava-se no mesmo teatro, sua segunda ópera “Joana de Flandres” que lhe valeu uma viagem de aperfeiçoamento à Itália, por conta do Imperador.
Na Itália compôs primeiramente algumas operetas, como “Se sa minga” (Não se sabe) e “Nella Luna” (1867).
A revelação, porém, de seu grandioso gênio foi com “Il Guarani”, cantada no Teatro Scala de Milão no dia 19 de Março de 1870. O sucesso foi tão grande que o próprio Verdi exclamou: “Questo giòvane comincia da dove finisco io” (êste rapaz começa por onde eu acabo). Aida neste mesmo ano foi esta ópera representada no Teatro Lírico do Rio de Janeiro.
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O homem de letras que foi Guerra Junqueiro, o qual altissimamente engrandeceu o seu nobre e varonil Portugal, assim define a arte: “A arte é uma revelação harmônica de Deus: é o som divinizado, a linha divinizada, a cor divinizada.”
Por ventura terá sido também uma “revelação harmônica” de Deus o talento fulgurante de Carlos Gomes, na sua luminosa trajetória, engrandecendo o nosso opulento Brasil nas cinco partes do Mundo? Da sua inspiração única, na concordância da “revelação harmônica” de que nos fala o mago da poesia lusitana, surgiram partituras empolgantes, partituras que, na época, deixaram o traço genial de sua música, ora meiga, ora concitada, como nas páginas estreladas das seguintes óperas: Guarany em 1870, Fosca em 1873, Salvator Rosa em 1877, Hino do Centenário da Independência da América do Norte em 1876, Maria Tudor em 1879, o Escravo em 1889, Condor em 1891.
Em 1882, fé-lo conhecido da platéia paraense o saudoso maestro Gama Malcher, convidando-o para assistir à encenação da extraordinaria ópera-baile Salvator Rosa.
Desde 1880, era ansiosamente esperado em Belém do Pará, como prova a colossal recepção que teve, recepção até então inédita na Capital guajarina. À população sentia-se ufana em receber tão ilustre patrício. Belém orgulhava-se de hospedar o maior gênio musical das duas Américas.
O sucesso da “premiére” da grandiosa ópera-baile Salvator Rosa decorreu sob uma torrente de frenéticas aclamações: Carlos Gomes compareceu ao palco dezoito vezes! Um delírio singular na época.
O excelso operista radicou-se em terra paraense, tornando-se um ídolo: onde quer que parasse, todos o saudavam. Ele retribuía, acenado com as suas bonitas e brancas mãos! Creio mesmo que, em outro Estado do Brasil, não conquistara tantíssimas e carinhosas simpatias – era o gênio que se impunha ao orgulho de sua nacionalidade ainda infantel.
Em 1895, voltou ao Pará para apresentar a sua obra prima – a Fosca; e, como era de esperar-se, obteve grande e brilhante êxito. Mas o público pendia mais para o “Guarany”, talvez pelo motivo acentuadamente brasileiro, que emprestava à apresentação da partitura uma dualidade agradabilíssima aos olhos e aos órgãos auditivos.
O seu autor lograra o domínio sobre a população de Belém, suscitando o mais sadio entusiasmo às platéias quando surgia com a sua extraordinária figura inconfundível de homem elegante sem afetação. Tudo nele tinha o timbre da simplicidade inata nos privilegiados e abençoados de Deus.
Com o caminhar dos tempos, não escapou ao determinismo da adversidade: viu-se em dificuldades financeiras em Milão e assaltado pelos indícios do mel insidioso que mais tarde iria vitimá-lo.
Recorreu em vão ao seu Estado natal. Todavia o Pará, que nessa ocasião tinha à frente do governo o notável estadista, verdadeiro espírito de esteta DR. Lauro Sodré, proporcionou-lhe carinhosa atenção até os últimos dias de sua gloriosa existência.
Regressando da Itália, assumira a direção do Conservatório de Música de Belém, situado á rua João Diogo, em cujo prédio, nos dias atuais, se acha instalado o “Auditorium” da Sociedade Artística Internacional, entidade de grande valia na divulgação dos ritimos de tradição clássica, incumbência da qual se vai desobrigando sob o sincero e crescente aplauso dos “diletanti” da música de seleção e, ao mesmo tempo, engrandecendo o renome artístico da culta metrópole amazônica.
O estado de saúde do “testa de leone” ia se agravando, não obstante os abnegados e múltiplos cuidados dos médicos.
O quadro intitulado “Os últimos momentos de Carlos Gomes”, obra do celebre pintor italiano De Angelis, a quem devemos os painéis existentes na abobada da sala de espetáculos do Teatro da Paz, estampa, com flagrante verdade, a desvelada assistência dispensada ao autor do “Guarany” pelas personagens que, na época feliz, lideravam a vida política e social do Pará, sob a orientação da mentalidade sem par do inesquecível paraense Dr. Lauro Sodré e com a coadjuvação de Antonio Lemos, o vulto Maximo na obra de aformoseamento da Belém de outrora.
A téla do notabilíssimo De Angelis evoca, de maneira impressionante, os traços fisionômicos das figuras que, no momento, visitaram o enfermo. São estas as pessoas que o pincel fidelíssimo de De Angelis plasmará em tão empolgante documento histórico: Dr. Lauro Sodré, governador do Estado; Drs. Numa Pinto, Miguel Pernambuco, Paes do Carvalho, médicos assistentes; Dr. Gentil de Morais Bittencourt, vice-governador do Estado; D. Antonio Leite Chermont, João de Deus do Rego, Capitão Tenente Serra Pinto, General Cláudio do Amaral Savaget, Coronel Augusto de Vasconcelos Drumond, Dr. Pedro Leite Chermont, Ernesto Chermont, Ernesto Dias, Clemente Ferreira, Coronel Gama Costa, Raul Franco e Licínio Silva.
No dia 16 de setembro de 1896, Carlos Gomes entregava a Deus sua alma branca de artista de escól, em meio à consternação de tôda a coletiva de Belém.
Os seus funerais se realizaram numa atmosfera de amargor indescritível. Sòmente que os viu, poderá descrever com nitidez o que foi a piedosa e comovente romaria. Era êsse vulto insubstituível, inanimado, que o povo, num ritus de dôr, acompanhava sob amargo e profundo silencio, rumo ao Cemitério da Soledade, em Belém. Grande orquestra executou então a protofonia do “Guarany”, sob a regência de Roberto de Barros.
Eis, em síntese o trabalho que irá comentar a página musical de Teófilo de Magalhães, o estudioso e abnegado cultor da arte divinizada dos sons, homenageando o atual Prefeito de Belém, Dr. Lopo de Alvarez de Castro.

Ulysses Nobre

Belém do Pará, 22 de novembro de 1951.

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