quarta-feira, 11 de março de 2009

CRÔNICAS HISTÓRICAS

Esta secção é dedicada às crônicas publicadas nos jornais belenenses e que já possuem um caráter histórico pela sua datação e importância na descrição da vida intelectual da nossa cidade. Inicio com a repetição de um artigo do intelectual paraense Rocha Moreira, que descreveu o ambiente do Teatro Éden no processo final de sua reforma em 1917. o artigo foi publicado em 26 de janeiro daquele ano, estando contido em minha monografia de especialização O Vôo da Fênix: Música nos Teatros de Belém (Colônia, Império, República). Observem a minuciosa descrição do Éden por Rocha Moreira.

“A fachada do edificio é sumptuosa e bella, dotada de portas e potaes, parte de ferro parte de madeira, com fundo de vidro, artisticamente collocado.
Por entre as janelas da frente sobressaem duas majestosas saccadas, primor de architectura, donde se descortina a praça com seu jardim, coretos e avenidas.
Possue um lindo passeio de mosaico, em torno, de duas cores, sendo a illuminação da fachada feita por custosos candelabros com abatjours provisórios: toda a illuminação, é provisória, visto não terem chegado a tempo as lampadas e candelabros encommendados na America.
O Salão térreo, das refeições, é um primor, sem rival no Brasil, dando-nos a illusão de estarmos a bordo, no salão principesco de um transatlantico de luxo.
As paredes são de fundo granat, com filetes de ouro; o tecto é uma maravilha de manufactura, todo de madeiras embutidas, sobresahindo o amarello setim e o pau roxo, dispostos com symetria e arte; o soalho é de mosaico italiano e o mobiliário, sumptuoso e elegante, confeccionado pelos industriaes Freitas Dias e Cª., desta capital.
Possue o salão do restaurante dois magníficos balcões: o de escriptorio e o do buffet, construídos de angelim, com soberbas pedras de mármore, sendo o escriptorio dotado de uma grade de metal amarello que o põe em destaque.
No intervallo das entradas foram collocados artísticos cabides, com espelhos, obra de luxo, que dão ao recinto um deslumbrante aspecto. Na parede, ao correr do balcão do buffet, repousa um lavatorio de porcelana, automático, com apparelho tríplice, especie de piscina fradesca, que o descuidado visitante pode deixar aberto sem receio que a agua transborde.
Um paravento de pau santo, roxo e amarello setim, com vitraes escuros, veda o interior do restaurante, onde tem accesso os garçons, dando mais vida ao alegre conjunto.
O buffet é todo de azulejo inglez, branco, com pinturas bizarras; todas as portas são obras de talha de aprimorado gosto, confeccionadas com três qualidades de madeira e possuindo dobradiças de custoso metal amarello.
Ao fundo, lado direito da entrada, foi levantado um lindo coreto de madeira inteiriça, verdadeira obra-prima, inanufactura riquissima, estylo romano, digno de estudo e apreciação, destinado á orchestra, vendo-se ao centro uma chapa de metal com o nome da firma constructora – Manoel Pedro & Cª.
Embaixo do coreto está a charutaria, artisticamente trabalhada, com incrustações de varias madeiras paraenses e balcão de mármore branco.
O buffet possue frigorífico de mármore e madeiras de lei, tanques profusos para lavagens de louças e armações de madeira com espelhos.
A cosinha não pode ser mais bem cuidada: as paredes e o tecto são de azulejo branco, inglez, e o chão de mosaico paraense. É doptada de um magnífico fogão de ferro, obra portugueza, das officinas do industrial Joaquim Peixoto Alves, do Porto. Ornamentam-n’a prateleiras de mármore e um frigorífico para conservação de peixes, viandas e fructas.
Possue ainda o restaurante gabinetes separados, para refeições, bellamente ornamentados.
A entrada para a pensão é pela rua Caetano Rufino, estando os quartos dos hospedes, nos altos, luxuosamente mobiliados e ricamente assoalhados. Um corredor de 30 metros de comprimento dá accesso para a janela dos fundos, donde se descortina o Guajará, offerecendo á vista um original e pittoresco panorama, especialmente á noite, ao fulgor da illuminação publica.
Rica escadaria com colunas art-nouveau, construída de madeiras de lei da nossa flora, da ingresso para os salões, precedidos pela sala de espera.
Ha tres salões: o azul, de recepção, o róseo e o salmon. São illuminados feericamente por lampadas brancas e róseas, sendo as paredes pintadas a óleo, com bellos desenhos cambiantes.
A mobilia dos salões é toda de pau marfim, obra de luxo da fabrica Freitas Dias.
Num elegante terrasse, mezas symetricamente dispostas convidam os visitantes ao descanço, vendo-se de um lado um botequim e buffet de outro, corredores, ao longo dos quaes estão collocados sanitários de luxo, banheiros de mosaico e azulejo, toilletes para homens e senhoras, á noite illuminados por lampadas de cor.
Todo o chão da terrasse é de cimento comprimido.
Uma bem montada banheira acha-se installada nos altos, ás ordens dos hospedes e habitues da casa.
Os salões já foram cedidos pela empresa para a sede do High-Life, associação recreativa mundana, onde pontificam a alta bohemia e o demimonde elegante de Belém.
Os sanitários quer do restaurante, quer dos altos, foram montadas com hygiene, asseio e conforto.
As madeiras empregadas foram todas nacionaes, destacando-se: o Angelim, o pau marfim, o roxo, o amarello setim, o frei-jorge, o acapú e o muirapiranga.
O Éden é illuminado por 7.200 velas, profusamentes dispostas em lampadas electricas de original effeito.
Possue usina própria, com motor de Meitss e dynamo de Grann.
Trabalhou na installação da luz, o Sr. Benjamin dos Santos Junior, habil e perito electricista patrício, que muito se esforçou para o bom exito da mesma.
Dirigiu e superintendeu todas as obras o abalisado industrial Sr. Henrique Monteiro, socio da firma constructora, a cujos esforços e boa vontade devem os proprietários do Eden-Theatro a sumptuosidade e belleza do mesmo.
O pintor das paredes do predio foi o Sr. Affonso José de Azevedo e o mestre das obras o Sr. Vicente de Lima, que são dois artistas de merecimento.
O theatro do Éden está ainda em construcção, calculando a empresa que poderá ser inaugurado em princípios de março.
A sala de espectaculos está já promta: possue 21 camarotes, com gradil artístico e 300 fautenils confortaveis, alêm de varandas, premenoirs e terrasses.”

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