CRÔNICAS HISTÓRICAS

Neste mês, a crônica apresentada é da pena de Brazão e Silva, intelectual paraense da primeira metade do século XX, contemporâneo de Waldemar Henrique, Mara, Helena Coelho entre outros célebres artistas paraenses. Aqui dá a sua opinião sobre os espectadores do Teatro da Paz em crônica publicada no Folha do Norte em 21 de novembro de 1937.

O Theatro da Paz e seus espectaculos
A falta de espirito selectivo – O exemplo recente do povo amazonense

Já não é a primeira vez que, abertamente, sem rebuços, combato a cedencia do Theatro da Paz para espectaculos que não podem estar de accôrdo com suas tradições. Theatro official, naturalmente que nelle só devem apresentar-se ou natabilidades ou capacidades dignas de estimulo e que tratem a arte dentro de uma seriedade que se ambiente com o recinto austero de nossa principal casa de espectaculos. No emtanto, infelizmente, não é isso que aqui se verifica. Alli, todos podem se exhibir. Simulacros de companhias, com elementos inconfessáveis, contistas de vigário, mambembes de especie mais infima, circos, etc. Torna-se chocante o contraste. No mesmo local em que pisaram nomes que ficaram immortalizados, como dessa Ângela Pinto, inegualavel, dessa Pawlowa inesquecível, se arrastam esses palhaços sem expressão e sem valor. E aquelle que hontem applaudiu Bidú Sayão, Guiomar Novaes, Bartiet e Robertson, Margarida Lopes de Almeida, ou um desses talentos que evoluem não se arrisque a entrar hoje no teatro, attrahido somente pela luz que se espalha atravez de suas janellas. Porque póde deparar com um caipira próprio de arraial, a enfiar baboseiras e immoralidades para uma assistência que quer rir e que somente gargalha com a tolice e a pornographia.
Não se comprehende que no nosso Theatro da Paz, que sentiria o rubor subir ao rosto se os homens, ajuizadamente, não fizessem de pedra, trabalhe elencos como o do Jararaca ou companhias de fantoches, como essa que se exhibiu no largo de Nazareth. Podem ser muito bons, nunca, porém, para o nosso theatro official.
O amazonense acaba de demonstrar como leva a sério o seu theatro. A companhia Lyson, que é muitas vezes melhor que a Jararaca, arranjou o Theatro Amazonas para trabalhar. Pois o publico a repudiou. Na estréa, ao verificar a qualidade de seus espectaculos, immediatamente sahiu do theatro, que nunca mais reuniu assistencia para funcionar. No emtanto, se esse elenco trabalhasse num outro local mais modesto, talvez lograsse êxito... Aqui, a nossa elite se afasta. Mas as galerias se enchem de gente que grita e assobia como se estivesse na rua...
O governador, sei bem desse facto, é victima do pedido de amigos que não comprehendem, sem tempo para syndicancias, obrigada a confiar nos que o apoiam, e que somente muito tarde verifica haver abuso de confiança. O remedio, no emtanto, é fácil e já foi adoptado em muitos outros Estados. Ha uma commissão de cultura. E somente ella póde ceder o theatro official. O requerente tem que annexar ao pedido o programma que executará, o nome dos artistas que defenderão os papeis. E, pedois de um exame consciencioso, a commissão resolverá se o theatro póde ou não ser cedido. E o que ella resolve é apoiado integralmente pelo governador do Estado, que fica assim livre das perigosas injucções partidarias, do empenho de politicos inescrupulosos. No geral, essas commissões são presididas pelo secretario de Educação e Cultura. Aqui, o sr. José Malcher deveria adoptar egual proceder. E, dessa maneira, o nosso Theatro da Paz nunca mais se envergonharia de acolher companhias que ficariam bem noutros logares mais modestos e mais de accôrdo com a valia de seus elementos.

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