CRÔNICAS HISTÓRICAS: FEVEREIRO DE 2007

“FOLHA DO NORTE (1ª pagina) quinta-feira, 25 de maio de 1939”

Prejuízos feitos no Theatro da Paz,
Cuja indemnização a Secretaria Geral exige

Do sr. Secretario geral do Estado, recebeu o nosso confrade Santanna Marques o seguinte officio, acompanhado duma reclamação áquelle endereçada pelo sr. Director do Theatro da Paz, dr. Victor Maria da Silva, contendo uma lista dos estragos causados, durante ás funcções de concurso de musicas carnavalescas, realizadas nos dias 7 e 9 de fevereiro passado, sob o patrocínio do prefeiro Abelardo Condurú, “Estado do Pará” e “Radio Club”.

Sr. Gerente do “Estado do Pará”:
Junto passo ás vossas mãos, para vosso conhecimento e devidos fins, uma copia authenticada de uma reclamação dirigida á Directoria de Educação, pela directoria do Theatro da Paz.
Saudações. – Deodoro Mendonça, secretaria geral.

Eis a lista appensa ao officio da Secretaria Geral do Estado:

Illmo. Sr. Director geral de Educação e Cultura. Anexo ao officio sob n. 195, de 13/fev/39.
Estragos causados pela ARRAIA-MIUDA, intromettida na selecta assistência das duas funcções de Concursos de Musicas Carnavalescas, aqui realizadas em os dias 7 e 9 de fevereiro fluente:
Camarotes de 1ª ordem:
n. 12 – cabide nickelado, arrancado e levado;
n. 17 - cabide arrancado e abandonado;
n. 22 – cabide quebrado;
Camarotes de 2ª ordem:
n. 8 – mocho com assento arrancado;
Palco – Cadeira com assento quebrado;
Terraços lateraes – Dois (2) copos levados;
Sala de espectaculo – Trinta metros (mais ou menos) de franja arrancada da parte almofadada dos camarotes de 1ª ordem (vide amostra).
Saudações. – (a) Victor Maria da Silva, director.

Em resposta ao pedido feito, atravez do sr. Secretario geral, áquelle orgão da imprensa matutina, o professor Santanna Marques protocollou, hontem, ás 11 horas da manhã, na portaria daquelle departamento da administração publica, o ‘seguitne officio:

Exmo. sr. Deodoro Mendonça. Secretario Geral do Estado. Respeitosos cumprimentos.

Accuso o recebimento, pela gerencia do “O Estado do Pará”, do officio com o qual v. exc. Encaminha “para os devidos fins” , a lista de prejuízos que a “arraida miúda” deu ao Theatro da Paz, nas noites das funcções de concursos de musicas Carnavalescas, realizadas nos dias 7 e 9 de fevereiro do corrente anno.
Lamento que a gerencia não possa tomar conhecimento do assumpto, especialmente “para os devidos fins”, pela circumstancia de que a gerencia do “O Estado do Pará” não contractou nem pediu o Theatro da Paz, como não contracta e não pede nem theatros, nem cinemas, nem logradouros públicos, nem vapores do Serviço de Navegação do Estado, para festas, sessões ou negócios de qualquer espécie.
Entretanto, como aquellas funcções se tenham, de facto, realizado sob o patrocínio do prefeito Abelardo Conduru’ e por iniciativa dos chronistas das secções Carnavalesca do Radio Club, da “Vanguarda” e do “O Estado do Pará”, não terei duvida, como director deste matutino, em indemnizar a administração publica dos prejuízos que v. exc. Aponta para os “devidos fins”, desde que v. exc. Ma faça a mercê de dividir eqüitativamente o montante do debito, pelas pessoas ou entidades que promoveram ou patrocinaram ditas funcções, e que são – permitta-me recordar a v. exc. – o prefeito Abelardo Conduru’ e a “Vanguarda”, o Radio Club e o “O Estado do Pará”.
Renovo a v. exc. A expressão do meu constante e inalterável respeito. – Santanna Marques”

Como podemos confirmar após a leitura deste artigo a preservação do prédio do Teatro da Paz é questão moral para todos nós paraenses e belenenses em particular. Pela antiguidade da nossa casa de espetáculos. Pela sua importância histórica e cultural. Por ser o palco maior por qual todos os artistas paraenses anseiam passar e por tal tem grande respeito. Cabe, também, a nós trabalharmos na nossa população o respeito, o amor e o senso de preservação dessa casa de espetáculos paraense. Se em 1939 os bailes de carnaval causavam prejuízos à estrutura da teatro, hoje chamo a atenção para uma prática muito comum, sobretudo em noites de espetáculo, do uso de câmeras fotográficas com flash. De Angelis levou dois anos para pintar a mão as paredes do teatro e juntamente com Capranesi criou a magnífica tela do teto, que vem sofrendo com os feixes de luz das máquinas fotográficas. Esse processo somente acelera o envelhecimento destas pinturas. Nós já perdemos na década de 1930 o afresco de Capranesi do Salão Foyer. Substituído pelo atual (horroroso, na minha opinião). Então, para cada chamada de atenção educada que dermos para quem usa flash na sala de espetáculo, significa mais alguns anos de vida para o carro de Apolo e demais seres retratados; bem como tudo que está dentro do teatro, até nós artistas que temos a carreira ligada a ele. Até a próxima.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

ESSA NEGRA FULÔ: ANÁLISE

FORMA E ESTRUTURA NA ÓPERA: CENA III - ESTRUTURAÇÃO DE UMA ÓPERA

Mozart: Bastião e Bastiana em português e com sotaque paraense