sábado, 21 de março de 2009

A estréia paraense de A História do Soldado de Stravinsky

Há muita gente em Belém (músicos incluídos) que consideram nossa cidade o fim do mundo no universo musical. Pobres tolos. Tirando a crônica falta de profissionalização dos músicos eruditos paraenses, a música erudita em Belém anda com boas pernas sim senhor. Esses pobres tolos que não se satisfazem com (quase) nada, ainda não acordaram para visualizar Belém no cenário musical brasileiro e perceber que a capital do Grão-Pará está em importante destaque na vanguarda musical brasileira. Belém é uma das capitais brasileiras onde mais se faz música erudita. E de qualidade. Se no plano político Belém perdeu, ante o Brasil e o Mundo, o status de Metrópole da Amazônia, no musical voltou a ser a Metrópole da época da borracha que tanta nostalgia dá aos paraenses mais saudosistas (eu incluído).
No primeiro semestre de 2006, a montagem paraense da Flauta Mágica mozartiana foi reprisada no Municipal de São Paulo com estrondoso sucesso. O Festival Internacional de Música do Pará (ex-Festival de Música de Câmara) cresceu tanto que a Fundação Carlos Gomes deve pensar seriamente em ampliá-lo para duas semanas, tantos são os conjuntos interessados em participar dele. Isso para não falar dos fixos, que já ocupam um pedaço grande da programação como O Quinteto Metal Brassil e o Valerius Ensemble, entre outras figurinhas repetidas do Festival.
Mas para calar a boca daqueles falantes da falta de entusiasmo e vanguarda no cenário musical erudito de Belém, o Festival de Música de 2006 jogou um valete poderoso na mesa: realizou a estréia da integral de A Historia do Soldado de Stravinsky. A obra difícil de ser classificada do mestre russo da música moderna. Mas antes de tecer a crítica musical da apresentação, apresentarei um ensaio para localizar este memorável obra em seu contexto histórico.


O VIOLINO DO SOLDADO

A 1ª. Guerra Mundial alcançou o início de 1918 quando Stravinsky estava na Suíça com toda a família (exceto a mãe que estava em Petrogrado). Em fevereiro de 1917, o czar Nicolau II havia sido deposto do trono pela Revolução Bolchevique (a Revolução Russa) e notícias chegadas do império decaído animaram o liberal Stravinsky, que telegrafou para a mãe em 24 de maio de 1917 dizendo: “Todos os nossos pensamentos estão com você nesses inesquecíveis dias de alegria por nossa amada Rússia, finalmente libertada” (White/Noble, p. 30, 1991). Em outubro, ele mudou radicalmente sua opinião, percebendo aos poucos que a Revolução Bolchevique, provavelmente, o deixaria exilado com a família em estado permanente.
Por isso que o início de 1918 desabou como uma sombria nuvem sobre ele e seus amigos, praticamente sitiados na Suíça, carente de idéias e de dinheiro. Para tentar resolver essa situação buscou uma idéia para uma nova produção que fosse rentável em época de guerra. Encontrou-a junto com seu amigo, o escritor C. F. Ramuz, conhecido na Suíça de língua francesa. A peça deveria ser “lida, executada e dançada”. Ter uma instrumentação e execução bem simples, a modo de ser apresentada “em condições modestas, em teatros de aldeia ou algo semelhante” (White/Noble, p. 31, 1991).
Encontraram um patrocinador na pessoa de Werner Reinhart de Winterthur, que alugou o teatro de Lausanne para a estréia ser efetivada em 28 de setembro de 1918, com direção de George Pitoëff, cenários e figurinos de René Auberjonois. No elenco estavam Elie Gaguebin: o narrador, Gabriel Rosset: o soldado, Jean Villard-Gilles: parte falada, George Pitoëff: o diabo e Ludmilla Pitoëff: a princesa (parte dançada).
Nas suas Expositions, p. 89 ele escreveu que:

“A idéia de compor um espetáculo dramático para o ‘théâtre ambulant’ tinha-me ocorrido algumas vezes desde o início da guerra (...). O tipo de trabalho que ele imaginava teria de ser um elenco suficientemente pequeno para permitir apresentações no circuito das aldeias suíças e ser suficientemente entendido” (citado por White/Noble, Stravinsky (notas) p. 99, 1991).

No Livro Completo da Ópera, Gustav Kobbé escreveu que a História do Soldado é:

“...uma moralidade moderna, cujo impacto considerável deriva tanto da música, cáustica e sugestiva, quanto do texto, de ironia mordaz. Seria difícil situa-la numa categoria específica de teatro musical, mas a ópera é, no fundo, o que mais dela se aproxima” (Kobbé, p. 717, 1991).

Pensando dessa maneira, justifica-se o fato do musicólogo inglês ter incluído o resumo do enredo no seu celebre livro de resumos operísticos. Mas o fato é que A História do Soldado tem uma estrutura muito particular para ser facilmente classificada. Penso eu que a ópera não é o gênero no qual a obra deve ser classificada, pois lhe falta o canto tão fundamental na ópera e o uso de fala, mímica e dança aproxima a obra mais da pantomima e da comedia dell’arte. Há décadas A História do Soldado está muito mais ligada às companhias de dança que às casas de ópera.
Quanto a evidente disparidade entre o texto de Ramuz e a música de Stravinsky, o filosofo Gabriel Marcel escreveu que o texto deveria ser abandonado por completo e que “a paixão de Stravinsky por um Ramuz fez-me perder toda a confiança no gosto literário do compositor” (Correspondence, III, p. 26 apud White/Noble, p. 100, 1991).
Certamente, Marcel não gostou das proporções reduzidas do texto, que na idéia de Ramuz e Stravinsky deveria acompanhar de perto as reduzidas proporções da obra. Desse modo, literariamente, o texto de Ramuz não voa alto. É muito simples na estrutura e até nas palavras que, de fato, estão longe de ser um primor literário. Para Stravinsky, isso se explicava pelo fato da idéia adjacente da História do Soldado ser “de um espetáculo de lanterna mágica, obrigatoriamente reduzido em suas proporções” (White/Noble, Stravinsky – Notas, p. 100, 1991) .
Musicalmente, a Historia do Soldado, juntamente com Les Noces (As Bodas), compostas na mesma época, põem termo à 1ª. (em alguns momentos bombásticos) fase do mestre russo, denominada Fase Russa, devido ao extenso uso de material folclórico de seu país natal. Essa fase foi seguida com a composição de Pulcinella, baseada em ecas de Pergolesi, iniciando-se assim a chamada Fase neoclássica, que foi amplamente imitada por vários outros gigantes da música contemporâneas de Stravinsky, como o Grupo dos Seis francês, e até Villa-Lobos deixou no repertório grandes obras escritas nessa estética musical como as Bachianas Brasileiras.
Em termos estritamente musicais a História do Soldado foi criada no período onde Stravinsky já procurava transcender o uso de material musical tipicamente russo e assim ultrapassar suas fronteiras nacionais. O bailado – assim o chamo, pois o considero mais próximo desse gênero – foi escrito para violino, clarinete, fagote, contrabaixo, trompete, trombone e percussão. É uma das músicas mais ácidas de Stravinsky dentro de sua 1ª. Fase.
É música baseada em material musical russo. Mas a busca pela transcendência desse material como já foi dito, deixa-a com um certo ar de universalismo, embora isso não contribua para uma fácil degustação do público se ele for habituado (como é normal) com comportadas melodias clássicas e românticas.

MARIA ANTONIA JIMÉNEZ

A maestrina cubana foi à encarregada pela direção musical nesta histórica estréia paraense de A História do Soldado. Contou com a participação de Rucker Bezerra (violino), Carlos Ribeiro (clarinete), Vadim Klokov (fagote), Airton Guimarães (contrabaixo), Ayrton Benck (trompete), Radegundes Feitosa (trombone) e Ricardo Aquino (percussão). Deu conta do recado, embora esteja longe de ser a regente ideal para uma partitura como essa.
Certo dia, Maria Antonia se queixou para mim que a partitura é para “machos”, não para mulheres. Concordo plenamente. A rítmica acentuada, a harmonia várias vezes dissonante apoiando melodias que chegam à acidez, de fato, são demais para uma regente cujos pulsos estão habituados às levezas do repertório coral renascentista e barroco, sobretudo. Regentes de corais levinhos devem passar longe de partituras como essa.
Uma virose que deve ter atacado os músicos envolvidos na produção foi o do pouco tempo de ensaio. Para os conhecedores de longa data dessa obra (raros, é claro!), notou-se um evidente desequilíbrio no ritmo e, sobretudo, muito pouca acidez nas melodias, principalmente à música associada ao Diabo. Nas Três Danças, que considero musicalmente o centro do bailado, faltou o pulso firme de um Charles Dutoit, que nos deixou um magnífico registro fonográfico da 2ª suíte. A Marcha Triunfal do Diabo decepcionou pela extrema leveza como o ritmo foi tratado. Maria Antonia, literalmente “não enlouqueceu” nesse trecho, ritmicamente frenético. Para essa partitura ela deveria ter tomado umas boas cuias de açaí grosso para ter a “sustança” e o pulso firme necessário à leitura da partitura.
Logicamente, os trechos lentos tiveram leitura mais apropriada. A Música da Cena I saiu com um caráter quase religioso, que considero apropriado para o momento. É como se o soldado estivesse rezando para chegar em casa.

A COREOGRAFIA

Se para Maria Antonia faltou pulso firme, para os bailarinos faltou vergonha na cara para nos apresentar uma técnica menos amadora e mais profissional. A coreografia apresentada por Jayme Amaral é frouxa na quase totalidade, puxada para baixo (com grande pompa) por bailarinos que estão aquém de uma boa técnica. Houve momentos que tive vontade de dar um tiro neles ali mesmo no palco, de tanta canastrice apresentada. Marcações pesadas, mímicas maquinais e arrastadas. Um horror.
Mas apesar de todos esses problemas, essa produção de A História do Soldado leva 10 somente por ter aberto espaço para uma importante obra do modernismo musical. Quem sabe ano que vem não podemos sonhar com uma montagem paraense da Sagração da Primavera? Junto com a reprise História do Soldado será magnifique.

Nenhum comentário:

Postar um comentário