GAIL GILMORE: RECITAL NO TEATRO DA PAZ PELO FESTIVAL DE ÓPERA

Foi um dos maiores acontecimentos do Festival de Ópera do Teatro da Paz o recital do soprano Gail Gilmore. Dividiu o mesmo em quatro partes – coisa rara – cantando inicialmente lieder alemães de Richard Strauss. A segunda parte dedicada às árias operísticas foi dominada pela tessitura de mezzo-soprano: cantou Eboli (O don fatale), Ortrud (Invocação aos deuses), Dalila (Mon coeur s’ouvre a ta voix), Fosca (Quale orribile peccato). A terceira, sendo jazzística, ouvimo-la cantar Sumertime, The man I love de Gershwin entre outras. Na última parte – infinitamente a melhor – arrasou cantando spituals, onde se fez ouvir acompanhando-se ao piano. Isso mesmo! Ela própria tocou – e muito – o piano. Viva a boa formação musical dos cantores líricos. Quem sabe um dia nós a teremos por estas bandas.
Gail mostrou-nos como um cantor pode ser grande, sem ter uma voz de grande qualidade sonora. Muito se fala – mal - aqui em Belém da voz de Gail, mas àqueles que gastam seu tempo destilando veneno para a “Rainha Monga”; como ela foi “cordialmente” apelidada nos meio lírico de Belém, é que apesar de não ter uma voz linda e de qualidade vocal impecável, Gail canta – e muito – lembrando a geração de ouro do canto lírico mundial no século XX, onde a maioria dos gigantes da ópera não tinham uma voz maravilhosa em termos técnicos, mais que – como diria uma Drag queen: sabiam fazer o babado!.
E Gail fez muito e mais um pouco. Fiquei preocupado com o nível do concerto, pois inicialmente Gail, literalmente, tropeçou nos lieder. Registre-se, gênero musical que ela, muito prudentemente, não deveria ter cantando; pois se vê claramente que não é um gênero apropriado para a sua voz. Muitas desafinadas, falta de apoio e aquela visível sensação de mal estar, causado por um cantor que inicia o recital com canções somente para aquecer a voz em pleno palco.
Na segunda parte ela voltou outra e com qualidade vocal modificada. Tinham-me dito que ela estava cantando como mezzo-soprano. Quando ela atacou a ária de Dalila entendi o porquê. Sua voz já esta – muito – desqualificada para cantar como soprano. É audível o seu desgaste na região aguda e o passagio dá aquela sensação de duas vozes vindas da mesma garganta. Tonalidades altas já não são mais a sua praia. Conseqüentemente, cantando como mezzo ela conseguiu dá uma estabilidade vocal ao seu canto que melhorou – e muito – a sua qualidade vocal. Foi uma Dalila eficiente, pois o lirismo requerido ao canto de sedução, ficou devendo pelo peso vocal de quem attaca com muita força vários momentos melódicos, talvez por hábito, talvez por técnica. Decisão pessoal e intransferível que ela – como todos nós – reponde. Mas seu canto foi bonito, embora as caras e bocas de sua interpretação facial, mais assustariam que seduziriam o desavisado Sansão, que literalmente pediria para ser cegado.
Na ária de Fosca, cantou com a segurança de quem sabe o que está fazendo. Embora por vezes sua movimentação labial lembrasse a Escola do Sorriso e a diva Shirley Verret. Sorrisos luminosos não combinam com momentos de dor e sofrimento!
Mas quando se trata de cantar na “porrada” ela deve ser chamada. Sua Princesa de Éboli foi esplêndida. Escura, pesada, tensa, dramática, enlouquecida de dor e ciúme. Literalmente, cantou com vontade. O que já é um grande ponto na interpretação, fazendo a música acontecer e deixando os ouvintes dos defeitos técnicos calados pela “velhinha” ter feito – muita – música.
Se Leonie Rysanek cantou Ortrud no Metrololitano de Nova York com uma voz que não lembrava os seus melhores momentos, por que então criticarmos Gail por ter feito o mesmo. Nenhum de nós pode maldizer de um soprano que cantou pela primeira vez em Belém “quando não era mais aquela”. Isso porque ninguém ouviu Gail cantando “quando era aquela”. Se é que ela foi um dia.
A terceira parte mostrou-nos que nem todo norte-americano sabe fazer jazz, assim como nem todo brasileiro sabe fazer samba. Cantou bem, mas faltou aquele algo mais que Kiri te Kanawa, jazzista de ocasião de longa data sabia injetar em suas interpretações do gênero, tendo um verdadeiro jazzista como André Previn ao piano. Gail teve Mateus Araújo. Mas o que fazer? Não estamos em Nova Orleans, por isso não podemos exigir fidelidade.
Spirituals, spirituals, spirituals. Esta sim foi a chave de ouro da noite. Se Gail não é jazzista, sabe ao contrário fazer e acontecer na música negra de seu país. Cantou e tocou o piano divinamente. Um amigo disse, após o término do concerto, que ela deveria voltar à Belém somente para cantar Gershwin. Eu respondi que não precisa, spirituals já bastam. Foi impressionante ver como essa negra norte-americana incorpora a música negra norte-americana, fazendo o que quer com o piano e com a voz em um gênero musical que requer muita alma. Alma ela tem – e demais – para a música, para o canto, para o espetáculo, para a captação do público. Tudo bem, ela não tem uma voz luminosa, o seu apoio falha n’algumas horas, as caretas são de chorar; mas Gail sabe usar sua inteligência musical para cobrir os buracos vocais que tem. Ora meus caros, se isto não é verdadeiramente cantar, então o canto é o quê? Muitos em Belém – alguns professores incluídos – acreditam que somente podem cantar aqueles que tem uma voz linda e perfeita tecnicamente. Mas esquece – ou até tolhem – a inspiração, a inteligência musical dos alunos, a expressividade dos futuros cantores, por um canto quadrado e sem graça, onde a técnica – e somente ela – impera em detrimento da verdadeira arte de cantar: por a voz para fora do corpo e envolver a si e aos que nos escutam. Gail fez isso e muito mais. Por isso eu termino escrevendo que Gail enquanto tiver voz para cantar, encantar e envolver deve-se lhe dar bis, tris. E a todos aqueles que não tem uma voz maravilhosa, mas que são maravilhosos simplesmente por cantarem.

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