segunda-feira, 30 de março de 2009

MARÍLIA CAPUTO NO TEATRO DA PAZ

A Fundação Amazônica de Música promoveu um merecido recital solo da pianista paraense Marilia Caputo no palco do Teatro da Paz. Melhor lugar para Marília não há. A nossa maior casa de espetáculo há tempos não sediava um recital solo dela. O ultimo que assisti deu-se antes dela partir para a Rússia, onde foi aprimorar os conhecimentos pianísticos, diga-se muito bem iniciados em Belém.
No saguão encontrei-me com Lenita Maia. Encantada, afirmou: “Foi o melhor recital dela!”. Acrescentei: “De fato, Marília cresceu muito!”. Crescimento. Creio ser este o melhor termo para a técnica interpretativa de Marília Caputo. Firme. Precisa. Feroz. Poderosa. Prokofieviana com todo direito. Em suma, um “macho do piano”.
Mesmo na época de estudante Caputo já demonstrava um gosto pelo repertorio pianístico forte. Aquele que exige muito “machismo” dos interpretes, pela força, pelo som sinfônico extraído do piano. Em suma, pelo imenso manancial sonoro extraído da partitura.
O programa escolhido para o recital incluiu o Prelúdio em sol menor de Bach, transcrito para piano por Alexander Siloti, compositor russo, amigo de Tchaikovsky e Glazunov; As Três Marias de Villa-Lobos e a Sonata nº. 6 em lá menor, Op. 82 de Prokofiev. Em todas foi magnífica, estupenda, encantadora, precisa, genial. Morram de inveja os estrangeiros, pois o Brasil continuará a ser por mais alguns anos a maior escola de pianistas deste planeta. Marilia Caputo está aí para provar e demonstrar da técnica sólida que nossos pianistas têm.
Um fato a se notar. A politicagem cultural que assola nosso estado, deixa de lado uma artista de peso como Caputo. Marília era para ser solista de grandes concertos para piano, juntamente com a Orquestra Sinfônica do Teatro da Paz. Mas, parece-nos, que as antas que habitam atualmente a SECULT estão por demais preocupadas em elevar o moral dos artistas estrangeiros (e aí incluo qualquer um que não seja paraense), do que reconhecer o valor dos grandes músicos paraenses.
Já bastou sabendo que no Festival de Ópera bastou ser paraense para ganhar abaixo dos artistas que vêm de fora. Ora bolas companheiros. É esta a postura que a Secretaria de Cultura do Estado do Pará deve dar ao artista paraense? Será que o dinheiro do povo paraense é para exaltar artistas não paraenses mais que os paraenses? Até quando músicos do calibre de Marilia Caputo, Daniel de Oliveira, Dione Colares e outros viverão de migalhas da SECULT?
Se a arte musical erudita, infelizmente, ainda depende bastante das interferências da SECULT no Pará, então o músico paraense deve ter a primazia na atenção da Secretaria e ser colocado em um patamar pelo menos igualitário aos artistas de fora, e não ser colocado sempre abaixo, como se pouco valor tivesse. Um solista paraense deve receber o mesmo cachê de um solista não paraense, tão somente assim, pois ambos desempenham a mesma função. Isto é tratar o artista paraense com respeito. E Caputo como uma de nossas maiores pianistas certamente merece o convite do Estado para dar concertos públicos juntamente com a Orquestra do Teatro da Paz. Tchaikovsky, Rachmaninoff, Prokofiev, Poulenc, Milhaud são apenas alguns dos compositores cujos concertos para piano são dignos das mãos de Caputo. Mas isto acontecer basta ter vontade política.




A INTERPRETAÇÃO

Iniciarei pela Sonata de Prokofiev, pois tomarei como base de análise a gravação feita por Sviatoslav Richter da mesma obra. Antes do retorno à União Soviética, Prokofiev desenvolveu uma escrita muito acida, cheia de dissonâncias, acordes pesados que direcionam a sua música para a estética expressionista dos pintores e compositores germânicos. Somava-se a isto uma força natural como pianista, que levou a crítica a classifica-lo ao piano, como um homem de aço. E aí reside o grande mote da interpretação pianística de Prokofiev. É necessário um pianista de aço para executar suas partituras.
Marília Caputo deu conta de sobra do recado. Comparando sua interpretação com a de Richter, digo que a leitura do Allegro moderato inicial não teve a violência do pianista russo, mas ganhou em contraste em relação a este, iniciando o 1º tema de forma mais contida, menos violenta e, portanto, mais camerística. Na repetição do tema, Marília empregou toda a força do braço para executa-lo. Eliminou a vacilação da primeira exposição (que deu um ar de sufoco ao tema, simplesmente magnífico). Acelerou um pouco a execução e ganhou em fúria. Simplesmente genial. Os 3 movimentos seguintes foram executados com curtíssimos intervalos entre si, dando assim mais uniformidade à interpretação e mantendo a sonoridade dos movimentos mais linear.
Nas Três Marias de Villa-Lobos, o brilho exuberante dessa obras impressionistas/expressionistas, saiu dos dedos de uma pianista sabedora de sua técnica e arte. Impecável.
Como não tenho como fazer comparações para analisar a Sonata de Schubert ficarei calado em relação a ela. Mas termino dizendo que esta sonata foi interpretada com grande beleza de som.

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