MUSICOLOGIA

Este tópico foi escrito para a minha monografia de especialização versada sobre os teatros de Belém. Referia-se diretamente ao capítulo preparado sobre o Teatro da Paz, mas acabou sendo cortado em algumas partes e acrescentadas no capítulo III da Monografia, versado sobre o público dos teatros pesquisados, enquanto que outros parágrafos foram incorporados aos textos já escritos para outros tópicos do trabalho. Esta é a versão original que foi eliminado da versão final do livro.

Das questões sociais

Para aqueles que nasceram na segunda metade do século XX, a visão do Teatro da Paz está marcada por glamour, superioridade aos demais teatros da cidade, infreqüência dos espetáculos e diversas reformas que o deixaram fechado por vários anos.
A pompa decorativa do teatro e sua grandeza impecável certamente dominam a memória de quem o freqüentou nesse período, portanto, impossível imaginar que esse mesmo teatro passou na primeira metade do século XX por vários transtornos que comprometeram a sua integridade como casa de espetáculos, mas que fizeram levantar as vozes e fazer trabalhar as penas daqueles que o amavam e com ele se preocupavam.
Após a sua reabertura em 2002, depois de uma reforma de 2 anos, o da Paz ressurge revigorado, renovado, adaptado ao estilo de vida e às tecnologias do novo século. Quem adentrou naquele ano, nem pode imaginar – certamente emudecido pelo retorno à grande casa de espetáculos e a sua exuberância já histórica – que os seus traços, o seu aspecto de rei entre os teatros paraenses muitas vezes foram manchados e depredados por aqueles que dele nada esperavam, por aqueles que a ele não tinham nenhum apego.
Não somente de reclamos acerca da sua conservação viveu o da Paz. Muitas vezes usado para funções longínquas das inicialmente pensadas para ele.
No acervo montado por Alcebíades Nobre e salvo da lata do lixo por Vicente Salles, encontramos vários recortes de jornal dando-nos uma clara visão de como o da Paz foi usado no decorrer dos anos.
Em duas tiras da Folha do Norte de fevereiro de 1912 – dos dias 5 e 8 – temos noticias da première da opereta Casta Suzana do maestro Juan Gilberto levada à cena na noite do dia 3. o diferencial surge quando lemos a tira do dia 8: novamente a Casta Suzana subiu à cena, porém em um concerto de gala em homenagem a Lauro Sodré, onde a encenação da Suzana foi dividida – no intervalo entre o 1º e o 2º atos – com discurso do acadêmico Anysio Cardoso. Vivas e homenagens a Lauro Sodré, a Folha do Norte e “aos próceres do Partido Republicano Federal” fecharam o discurso.
Política e arte deram-se as mãos e durante décadas estiveram juntas nas dependências do teatro e o transformaram em espaço artístico-político-social, pois não somente de eventos artísticos em homenagem a destacados políticos viveram as suas dependências.
Em 8 de junho de 1934, a Folha do Norte, destacou à Semana da Redenção no Teatro da Paz, onde “de pé, na tribuna, á tarde e á noite, oradores e oradoras se succediam, cada qual desenvolvendo, com o melhor dos seus recursos, o assumpto confiado”. A Semana já havia terminado e o noticiário destacou os ditos de seus 42 oradores de ambos os sexos ouvidos no decorrer do evento. Ao invés de arte, o público acorreu ao da Paz para ouvir os princípios dogmáticos, doutrinários e moralistas da “catholicidade paraense” que nesse momento transformaram o da Paz em uma igreja em um dia de pregação.
De Igreja para sede de bajulações políticas. Esse caminho foi traçado pelo da Paz em vários anos de sua existência. Em 4 de setembro de 1934 foi realizada uma “Homenagem do funccionalismo publico em geral ao major Magalhães Barata”[1]. Decorado com “artística ornamentação”, o da Paz recebeu, além do homenageado, “elementos do funcionalismo federal, estadual e municipal e de outras pessoas convidadas a tomarem lugar na mesa armada no palco, juntamente com uma mesa armada pela organização do evento para os representantes da imprensa.
As bandas de música dos Bombeiros Municipais e a do Instituto Dom Macedo Costa dividiram a atenção do público, que superlotou o teatro, com os oradores que falavam dos seus camarotes: o coronel Apollinario Moraes (poder Federal) , Dr. Octavio Meira (poder Estadual) e Dr. Archimino Lima (poder Municipal).
À parte desses eventos puramente sociais, o da Paz contou com reclamações acerca de sua conservação. Em 5 de maio de 1933, a Folha do Norte, publicou uma tira solicitando providências para os Consertos necessários para o bem estar do teatro, já relegados há anos.

Solicitando uma providencia

Acreditamos que desta vez, com as reparações que está soffrendo o Theatro da Paz, serão concertadas e empalhadas as cadeiras e os tambores dos camarotes e frisas, pois ha mais de seis annos que bradamos em vão contra esse descaso.
Pensamos que esse serviço deveria preceder todos os outros que estão sendo effectuados naquella casa de espectaculos, não só por seu o mais fácil e urgente, podendo até ser feito no Instituto Dom Macedo Costa, como tambem porque o pessimo estado em que se acham aquelles moveis impressiona deploravelmente o animo de quem vê ao nosso teatro.
Foi isso que nos succedeu no ultimo sabbado, por occasião do concerto do violinista patrício Raul Laranjeiras principalmente pelo receio de que os officiaes argentinos, que nos visitam e lá se achavam, tivessem por sorte aquellas cadeiras.
Mas vale fechar o theatro até que tudo esteja limpo e concertado, embora sem obras de decoração, do que apresental-o com falhas de natureza da que apresentamos, que attentam contra o zelo devido aos estabelecimentos públicos.
Não haverá desar em não podermos aprimorar o nosso theatro, mas é vexatório apresental-o assim, servindo de chacota aos indifferentes e causando tristeza aos que amam a nossa terra e as nossas causas.
É um pequenino nada, que aos olhos dos extranhos faz escurecer tudo quanto de bom lhes podemos apresentar. O facto nos lembra uma observação de um patrício nosso, deputado federal, em Evian, quando um grupo de moços brasileiros commeteu actos de pouca educação em um dos bons hotéis daquella estancia franceza:
- “Tenho a impressão nítida de que esses rapazes brasileiros, com o distinctivo da sua nacionalidade á lapella, lançaram por terra, em virtude do seu reprovavel procedimento, a grande reputação do eminente Barão do Rio Branco, e annullaram toda a sua grande obra de patriota: um pequenino facto servindo de índice da educação e da cultura de um povo! É triste e lamentável”.
GASTÃO D’ARVE


As palavras de Gastão D’Arve entram em um campo de discussão social bem claro: “o das aparências”. Expliquemo-nos: D’Arve lança desabafo acerca do estado deplorável das cadeiras e tambores de camarotes e frisas do Teatro da Paz, esclarecendo que esse estado depunha contra a boa visão do teatro, e conseqüentemente, isso causaria a tristeza de quem com ele se preocupava, enchendo de ânimo o descaso daqueles indiferentes a ele.
O seu apreço pelo da Paz levou-o a afirmar que mas valia fechá-lo para reformas a realizar-lhe funções em estado pouco favorável aos freqüentadores – “embora sem obras de decoração”. A primeira impressão é a que fica! Dito popular levado a serio pelo cronista considerando-se a sua citação aos “officiaes argentinos” em visita a Belém e levados ao teatro para o concerto de Raul Laranjeiras.
A preocupação do cronista com a aparência do teatro certamente encontrou coro em vários freqüentadores do da Paz, que primavam pela boa aparência do mesmo como forma de materializar o luxo e o requinte da classe paraense endinheirada e ansiosa de destaque social como uma sociedade rica e esclarecida.
O cronista deixa claro que seria mais vantagem ao teatro e à própria classe social freqüentadora do mesmo, tapar os buracos do chão e lustrar os espelhos da sala de visitas a gastar tempo e dinheiro com uma decoração de flores que não esconderia da vista dos “convidados” o péssimo estado dos seus moveis, inadequados para a recepção de qualquer visitante. O bom senhor, de posses e destaque social, tem uma sala de visitas impecável, mesmo que desprovida de flores. A primeira impressão é a que fica; sempre. D’Arve sabia disso, daí o porquê de terminar sua crônica lembrando o mau comportamento dos turistas brasileiros na estância francesa de Evian. De nada valiam os esforços diplomáticos do Barão do Rio Branco em colocar o Brasil n’uma posição de destaque no cenário internacional, se bastava um gesto de vandalismo de jovens brasileiros para por em terra todos os trabalhos diplomáticos brasileiros para por o Brasil como sério e respeitável no cenário internacional. Certamente, a classe social freqüentadora do Teatro da Paz pensava nessa linha. Um teatro para se fazer destacado tem a obrigação de se apresentar impecável na aparência e no recebimento de seu público.
Esse tipo de preocupação continuou, pois em 1937, a 4 de janeiro, uma nota na Folha do Norte trouxe a seguinte reclamação sobre o estado dos banheiros do teatro:

Quem passa pelo corredor do Teatro da Paz, onde estão localizados os sanitários de serventia publica, fica asphyxiado pelo cheiro desagradável que dalli se evola e se lá penetra, colhe a peor impressão, pelo descaso notório com que aquilo é tratado. Os metaes perderam a cor sob uma camada espessa de azinhave.
Quem, afinal, cuida da hygiene do Theatro?

Esta é uma boa pergunta. Afinal de contas, para um teatro de destaque no cenário brasileiro e de altíssimo valor para a sociedade paraense, todas as suas dependências devem ser bem cuidadas, para que os seus usuários saiam bem servidos, considerando-se que um teatro é um servidor público de entretenimento e seus freqüentadores pagam pelos seus serviços diretamente (venda de ingressos) e/ou indiretamente (eventos públicos financiados pelo Governo). Conseqüentemente, a venda desse entretenimento requer qualidade no atendimento e nos serviços ofertados (espetáculos) refletores dos gostos estéticos e estilísticos de quem paga para esse serviço acontecer.
A preocupação pela conservação do Teatro da Paz alcançou também o governo estadual, pois em 7 de fevereiro de 1935, o Diário do Estado publicou um Decreto do dia anterior onde o Interventor Federal do Estado, major Joaquim de Magalhães Barata proibia a realização de funções com entradas livres no teatro, atendendo a uma comunicação da administração do mesmo, “no interesse de zelar pela boa conservação desse próprio do Estado”.
Certamente esse pedido veio por ocasião da superlotação que ocorria no teatro nos eventos públicos e gratuitos. Alcebíades Nobre anotou em seus cadernos que durante a homenagem ao major Magalhães Barata a lotação não foi tirada pois o teatro ficou superlotado. Isso, conseqüentemente, dificultava o controle de conservação das dependências do ambiente, devido ao da Paz abrigar nesses momentos um público maior que o suportado por suas dependências. Mas também poderia se ter, por parte da direção do teatro, uma preocupação com o acesso de público de baixa renda ao teatro; pois na sua visão, tais pessoas não estavam habilitadas para freqüentar um ambiente refinado como o da Paz e conseqüentemente não teriam os cuidados necessários com sua conservação. Não encontramos nenhum documento afirmativo disso, mas este pensamento não deve ser de todo descartado, pois sabemos das divisões classistas da época e que certamente atingiram o Teatro da Paz.
Theodoro Brazão e Silva, em 21 de novembro de 1937 escreve uma crônica publicada na Folha do Norte onde apóia uma decisão classista do povo amazonense, requerendo a mesma atitude para o povo paraense. A “polêmica” foi gerada pela apresentação da “troupe” Lyson Gaster no Teatro Amazonas, considerada pelo vespertino “A Tarde” indigna de se apresentar na principal casa de espetáculos da capital amazonense. A “Troupe”, devido ao público reduzido, levantou sua temporada naquela capital rumando à Belém, ocasionando o levante de Brazão e Silva, como a seguir:

O Theatro da Paz e seus espectaculos
A falta de espirito selectivo – O exemplo recente do povo amazonense

Já não é a primeira vez que, abertamente, sem rebuços, combato a cedencia do Theatro da Paz para espectaculos que não podem estar de accôrdo com suas tradições. Theatro official, naturalmente que nelle só devem apresentar-se ou natabilidades ou capacidades dignas de estimulo e que tratem a arte dentro de uma seriedade que se ambiente com o recinto austero de nossa principal casa de espectaculos. No emtanto, infelizmente, não é isso que aqui se verifica. Alli, todos podem se exhibir. Simulacros de companhias, com elementos inconfessáveis, contistas de vigário, mambembes de especie mais infima, circos, etc. Torna-se chocante o contraste. No mesmo local em que pisaram nomes que ficaram immortalizados, como dessa Ângela Pinto, inegualavel, dessa Pawlowa inesquecível, se arrastam esses palhaços sem expressão e sem valor. E aquelle que hontem applaudiu Bidú Sayão, Guiomar Novaes, Bartiet e Robertson, Margarida Lopes de Almeida, ou um desses talentos que evoluem não se arrisque a entrar hoje no teatro, attrahido somente pela luz que se espalha atravez de suas janellas. Porque póde deparar com um caipira próprio de arraial, a enfiar baboseiras e immoralidades para uma assistência que quer rir e que somente gargalha com a tolice e a pornographia.
Não se comprehende que no nosso Theatro da Paz, que sentiria o rubor subir ao rosto se os homens, ajuizadamente, não fizessem de pedra, trabalhe elencos como o do Jararaca ou companhias de fantoches, como essa que se exhibiu no largo de Nazareth. Podem ser muito bons, nunca, porém, para o nosso theatro official.
O amazonense acaba de demonstrar como leva a sério o seu theatro. A companhia Lyson, que é muitas vezes melhor que a Jararaca, arranjou o Theatro Amazonas para trabalhar. Pois o publico a repudiou. Na estréa, ao verificar a qualidade de seus espectaculos, immediatamente sahiu do theatro, que nunca mais reuniu assistencia para funcionar. No emtanto, se esse elenco trabalhasse num outro local mais modesto, talvez lograsse êxito... Aqui, a nossa elite se afasta. Mas as galerias se enchem de gente que grita e assobia como se estivesse na rua...
O governador, sei bem desse facto, é victima do pedido de amigos que não comprehendem, sem tempo para syndicancias, obrigada a confiar nos que o apoiam, e que somente muito tarde verifica haver abuso de confiança. O remedio, no emtanto, é fácil e já foi adoptado em muitos outros Estados. Ha uma commissão de cultura. E somente ella póde ceder o theatro official. O requerente tem que annexar ao pedido o programma que executará, o nome dos artistas que defenderão os papeis. E, pedois de um exame consciencioso, a commissão resolverá se o theatro póde ou não ser cedido. E o que ella resolve é apoiado integralmente pelo governador do Estado, que fica assim livre das perigosas injucções partidarias, do empenho de politicos inescrupulosos. No geral, essas commissões são presididas pelo secretario de Educação e Cultura. Aqui, o sr. José Malcher deveria adoptar egual proceder. E, dessa maneira, o nosso Theatro da Paz nunca mais se envergonharia de acolher companhias que ficariam bem noutros logares mais modestos e mais de accôrdo com a valia de seus elementos.


A denotação do texto de Brazão e Silva é claríssima: classista e niveladora, dá a exata idéia de que o Theatro da Paz por ser a maior casa de espetáculos paraense, só poderia ser cedido a espetáculos de alto nível, de artistas consagrados, com um trabalho artístico apropriados a pessoas de fino trato e apuro estético; sem falar da conduta refinada digna de um freqüentador de um teatro de alto nível como o da Paz. As reclamações de Brazão e Silva são provenientes de espetáculos mais populares que eruditos, e conseqüentemente mais modesto que o habitualmente freqüentador do da Paz.
Classista é a opinião do cronista quando determina que os espetáculos apresentados no teatro deveriam estar ao nível de uma Bidú Sayão ou Guiomar Novaes e as troupes e circos que lá conseguiam permissão para trabalhar ficariam mais bem acomodadas no Largo de Nazareth onde, certamente, “um caipira próprio de arraial, a enfiar baboseiras e immoralidades para uma assistência que quer rir e que somente gargalha com tolice e com a pornographia” encontraria o seu ambiente adequado. Niveladora, pois, determina o nível social dos freqüentadores e artistas a trabalhar no teatro, bem acima dos “simulacros de companhias, com elementos incofessáveis, contistas de vigário, mambembes de espécie mais ínfima, circos, etc” todos eles inapropriados para a pompa, circunstancia e moral de um teatro oficial como bem é frisado pelo cronista.
O cronista classifica o Teatro da Paz como inapropriado para as camadas populares, numa postura bem classista e discriminatória, defendendo por vias indiretas que os espetáculos deveriam passar pelo crivo de uma comissão julgadora, que determinaria os espetáculos apropriados ao teatro da Paz e assim direcionando o quê e quem nele se apresentaria, conclamando ao governador José Malcher tomar medidas semelhantes a de outros Estados brasileiros onde tal censura já fora adotada.
Para Brazão e Silva os espetáculos atraentes das classes populares eram inapropriados para o da Paz por trazer-lho pessoais que mal se comportavam em público, mas as posições do cronista são confrontadas em 6 de janeiro de 1938 quando uma pequena tira na Folha do Norte escrita por um espectador reclama do desagradável comportamento de parte do público durante o festival da bailarina paraense Gilka Loretti em 4 de janeiro daquele ano, onde os prováveis “meninos bonitos de boa família” fossem os responsáveis pela algazarra durante a apresentação. Mais uma vez houve a preocupação com o nível do público freqüentador do teatro, mas dessa vez os reclamos dirigiram-se a classe alta da sociedade paraense, preocupando-se esse espectador com a visão do paraense pelos artistas de fora que aqui se apresentavam. Escreveu ele:

Foi com vergonha que assitimos ás scenas de falta de educação e mesmo de molecagem praticadas por grande parte dos espectadores das galerias e torinhas, no Theatro da Paz, no dia do espectaculo do festival de Gilka Loretti, a 4 do corrente.
Varias, gritaria, assobios, etc., não só perturbando a representação, como dando um triste attestado da nossa educação e da nossa cultura.
E é bem possível que fossem “meninos bonitos”, desses de boa família, mas que se exhibem trsitemente em todos os logares. Houve, como sempre, falta de policiamento, muito necessário nos dias de espetáculo, ou então, os guardas civis chegaram tarde de mais.
Foi também de lamentar o tratamento dado nessa noite ao piano de cauda, próprio para concertos e que custou ao governo muitos contos de réis, pois o pobrezinho andou aos trancos e barrancos e foi violentamente castigado com os números de musica para o próximo carnaval.
Se os bons artistas já se queixaram do mão estado do piano, o que delle dirão agora? – UM ESPECTADOR.

Novamente, voltamos ao fator “distinção de classe”. Mas no texto desse espectador, houve uma preocupação visível com a conduta do povo paraense, bem mais que a “conduta de classe”. A sua grande preocupação era com a visão dos artistas de fora do Estado, que ao presenciarem tais manifestações de molecagem levarem essa visão como sendo cultural dos paraenses e não somente de uma classe social determinada ou de garotos de boa família desordeiros e vândalos.
Pierre Bourdieu afirma in Gostos de Classe e Estilos de Vida que “Às diferentes posições no espaço social correspondem estilos de vida, sistemas de desvios diferenciais que são a retradução simbólica de diferenças objetivamente inscritas nas condições de existência”. Isso se confirma nos textos de Brazão e Silva e do Espectador, pois ambos referem-se a distinções de classe de modo objetivo, isto é, às diferentes classes sociais correspondem diferentes estilos de vida e comportamento e à elas também correspondem padrões de comportamento social distintos que as definem e distinguem umas das outras. Daí as cobranças de Brazão e Silva para que o Teatro da Paz cediasse somente espetáculos condizentes com seu nível de “teatro oficial”, o que corresponde ao paradoxal principio de que um tetro público – construído com dinheiro do povo – não deve servir ao povo, mas à elite endinheirada detentora de uma educação “teoricamente” mais refinada que os populares; enquanto os representantes do povo, modestos em finanças e educação formal não estavam ao nível do “teatro oficial”. Já o Espectador cobra dos “meninos bonitos de boa família” uma conduta social de esmero nos seus comportamentos em público, pois à sua classe social correspondem a finesse e educação polida própria de alguém de fino trato. Comportamento esse rejeitado pelos rapazes que freqüentaram as torrinhas do da Paz no Festival de Gilka Loretti.

Ainda Bourdieu:

O conhecimento das características pertinentes à condição econômica e social... só permite compreender ou prever a posição de tal individuo ou grupo no espaço dos estilos de vida... O gosto, propensão e aptidão à apropriação (material e/ou simbólica) de uma determinada categoria de objetos ou práticas classificadas e classificadoras, é a fórmula generativa que está no principio do estilo de vida (1994, p. 83)

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

ESSA NEGRA FULÔ: ANÁLISE

FORMA E ESTRUTURA NA ÓPERA: CENA III - ESTRUTURAÇÃO DE UMA ÓPERA

Mozart: Bastião e Bastiana em português e com sotaque paraense