“O CENTENÁRIO DE BELLINI”

A seguinte encontra-se na Biblioteca do Museu da UFPA. Ela provavelmente foi escrita por Ulysses Nobre, pois a encontrei na Hemeroteca de seu irmão Alcebíades. E Alcebíades tinha o hábito de arquivar todas as crônicas publicadas pelo irmão. Esta foi publicada no jornal Folha do Norte de 5 de fevereiro de 1935, sendo assinada somente por um A maiúsculo seguido de ponto. Ela se refere ao centenário de nascimento de Vicenzo Bellini, como indica o titulo.

“O CENTENÁRIO DE BELLINI”

No corrente anno a Itália celebra o centenario de Bellini.
A’s manifestações italianas associaram-se todas as nações que admiram a musica e a arte do compositor siciliano, entre ellas, além do Brasil, a França, a Allemanha, o Chile, a Suécia e os Estados Unidos da América.
Também a cidade de Belém, que possue um Conservatório de Musica, quer manifestar sua admiração pelo filho da irmã latina, cuja vida as Parcas cortaram há cem annos, quando ainda muito novo tinha deante de si aberto o caminho da gloria.
Nascido em Catania, em 1801, de família de musicistas, Vincenzo Bellini, continuando as tradições dos seus ancestraes, diplomou-se no Real Conservatório de Nápoles e já na prova final revelou-se com a opera “Adelson e Salvini”, executada perante numerosissimo publico, no pequeno theatro do Conservatório.
O successo do joven auctor foi tão completo que lhe foi confiado o encargo de escrever uma segunda opera para ser executada nada menos que no Real Theatro de S. Carlo, de Nápoles, um dos mais famosos da Europa naquelle tempo.
No anno seguinte, Bellini apresenta-se em publico com a opera “Bianca e Fernanda”, que terminou entre estrondosos e intermináveis applausos, dos quaes foi iniciador S. M. Francisco I, que estava presente.
Este segundo triumpho diffundiu-se rapidamente nos maiores centros theatraes e empresários, editores e publicos empenharam-se para conseguir uma opera de Bellini.
Convidado a enfrentar o famoso theatro “Alla Scala”, nelle consegue em 1827 pleno exito, com a opera “Il Pirata”.
Os êxitos não envaideceram o triumphador, mas, pelo contrario, deram-lhe a idéa exacta da sua responsabilidade e da sua missão.
Antes de attender ás solicitações pelas quaes deveria escrever duas ou tres operas cada anno, como muitos compositores costumavam fazer naquela época, recolheu-se mais ciosamente em si mesmo, para meditar e afinar-se segundo os impulsos da sua inspiração genial.
Reapparece em 1830, com a “Zaira”, em Parma, e com “I Capuleti e I Montecchi”, em Veneza, operas que revelaram a plena maturidade do seu genio.
Em 1831 a historia do melodrama regista o apparecimento da “Somnambula” e da “Norma”, que attingem o ápice do privilegio creativo, concedido a Bellini.
A opera musical nunca havia alcançado, depois do “Guglielmo Tell”, aquella profunda unidade de estylo, aquella marmórea verdade de sentimento, aptas a consagrar a arte á universalidade e á immortalidade.
Quando mais tarde Ricardo Wagner, para impor a opera nacional allemã, desencadeou a sua furiosa lucta contra o melodrama italiano, a sua ira iconoclasta respeitou somente a “Norma”.
Escolheu-a, em 1837, e dirigiu-a pessoalmente, apresentando-a ao publico de Riga, como é sabido, com ardente manifesto.
E muitas vezes teve occasião de declarar: “Bellini é uma das minhas predilecções; a sua musica é toda alma e coração, ligada intimamente á palavra. A musica que eu detesto é aquella vaga desconclusionada, que descuida a poesia e a situação”.
Depois de tão formidável successo, Bellini soffre um daquelles desfallecimentos inevitaveis na vida do genio. Por mais de um anno ficou pensativo e perplexo entre os enxames das propostas de entrechos amorosos, dos quaes se comprazia a sua garbosa juventude. Elle mesmo vae pôr em scena, em Veneza, a “Beatrice di Tenda”. A opera não recebe retumbante acolhimento na estréa, mas alcança-o cada vez maior, nas successivas representações.
Bellini, entretanto, fica descontente e impressionado e acceita os insistentes convites para ir a Londres e a Paris.
Em Londres é honrado e festejado pelo triumpho da “Somnambula”, mas não se occupa de novas creações. Transfere-se para Paris, onde sem escapar ás seducções da mundanidade, compõe uma opera digna da cidade-luz.
Escreve “I Puritani”, que marca uma data áurea na historia do melodrama.
Depois desta ultima acclamação da grande capital, em janeiro de 1835, Bellini morre em setembro desse mesmo anno, na pequena cidade de Puteaux. Seus restos mortaes, sepultados na “Pêre Lachaise”, foram transferidos para Catania em 1876 e agora repousam no “Duomo”.
Um seculo passado e a arte de Bellini conserva intacta as suas qualidades de originalidade e de universalidade.
Bellini, ainda na época do Conservatorio, dizia: “Quero experimentar a dizer alguma cousa differente, usando as mesmas sete notas; quero experimentar exprimir em modo differente as paixões humanas”.
Bellini foi definido como o mais puro lyrico dentre os musicistas do 18º século musical. Elle sentia que a sua forma de expressão não podia ser senão uma: allienar a melodia. Melodia clara, fluida, sem ornamentos nem effeitos supérfluos, apta a transfigurar a natureza, as paisagens, as pessoas e os sentimentos e levantar as alturas das visões sobrehumanas. Mas se Bellini é lyrico e sentimental, é também vigoroso, ardente e incisivo. O creador da “Somnambula” completa-se com o creador da “Norma”, da “Beatrice di Tenda” e dos “I Puritani”. O idilio completa-se com o drama o sorriso, com as lagrimas e o jubilo com a dôr.
A arte de Bellini depois de um século de existência é mais viva e vibrante do que nunca: quase que refloresce em cada um dos seus ramos. Possue as virtudes cósmicas que a diffundem e que a impõem no tempo e no espaço: dúplice privilegio este, que caracteriza a arte verdadeira e grande de todos os povos.
As homenagens a este insigne vulto não serão, portanto, um frio cerimonial recordativo, mas sim uma celebração vivida e sentida de excepcional importância nacional e de vasta retumbancia universal. – A. “

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