O CISNE NEGRO

Hoje, para nós, parece absurda a idéia de encomendar um bailado da grandeza de O Lago dos Cisnes pela quantia irrisória de 800 rublos. Mas foi esta quantia recebida por Tchaikovsky quando da encomenda do bailado, pelo Teatro Imperial de Moscou – o Teatro Maryinsky - em 1875. A idéia torna-se absurda para nós, pelo fato de ser a partitura uma das maiores obras-primas românticas no campo do bailado e das mais executadas e, portanto, populares de todos os tempos.
O maior gênio da musica russa conseguiu nesta obra genial uma clareza de idéias, uma tal descrição de sentimentos, que tornam a beleza da obra quase transparente. O suave, o gracioso, o característico, o bem e o mal, o amor, a dor e a alegria são descritas com tão grandes sentimentos e aguçada sensibilidade, que fazem desta partitura uma obra verdadeiramente humana e de inigualável beleza poética.
E, apesar de seu final trágico, O Lago dos Cisnes é um verdadeiro hino de amor à vida e de exaltação do próprio amor. Amor este que o compositor procurará por toda vida, sem o encontrar, e que deixará registrada em sua obra, a imagem de um homem propenso a constante melancolia e possuidor de uma grande compreensão da vida e, principalmente, do amor.
Foi a 22 de setembro de 1875 que Tchaikovsky escreveu a Rimsky-Korsakov, com quem travara amizade na época em que esteve envolvido com “O GRUPO DOS CINCO”, do qual Korsakov fazia parte. Na carta dizia ele: “A direção da ópera encarregou-me de escrever a música para o bailado O Lago dos Cisnes. Eu aceitei a incumbência, em parte por precisar de dinheiro, e em parte também porque há muito tempo eu desejo experimentar minha capacidade neste gênero de música”.
Falava ele a absoluta verdade, precisava de dinheiro para sair da quase penúria em que vivia, mas a sua atração pelo bailado não era de hoje. Remontava provavelmente à época da estréia de Sylvia e Copélia de Delibes, compositor que ele admirava. Tomou a tarefa de compor o bailado com grande prazer; mas certificou-se de que não teria nada para desviar-lhe a atenção quando da composição do bailado. Para isso precisou concluir a composição de sua terceira sinfonia – “A Polonesa” – no verão de 1875. Isto feito, escreveu as notas iniciais de O Lago dos Cisnes no outono daquele ano. Trabalhou com incrível velocidade e em quinze dias já havia concluído os dois primeiros atos.
Tendo feito o trabalho inicial em Moscou, Tchaikovsky interrompe-o para viajar à Paris a convite de seu querido amigo, o também genial compositor francês Camille Saint-Saëns, lá redigindo o restante da partitura e concluindo-a em março de 1876.
Quando a partitura foi entregue ao regente e ao coreógrafo, Tchaikovsky não imaginava a mutilação que ela sofreria. O regente – um amador chamado Ryabov – reclamou da complexidade da partitura, uma das mais exigentes da história do bailado, e viu-se muito pouco preparado para atender tais exigências e conjuntamente com o coreógrafo Julius Reisinger, cortou um terço das danças do bailado. Este por sua vez, colocando em dia sua mediocridade, criou uma coreografia completamente deslocada da música. Isto não bastasse, os costumes e cenários eram pobres, fazendo com que uma obra faustosa por si só tivesse horrenda execução inicial.
Se O Lago dos Cisnes tivesse sido escrito para São Petersburgo, onde se encontrava um grande mestre de bailado, que era Marius Petipa; que conjuntamente com Lev Ivanov e o diretor de ópera Vsevolozhsky tornar-se-iam grandes admiradores do compositor, o bailado teria tido outro destino ao invés do fracasso total da estréia. De fato, isso somente viria a acontecer dezenove anos depois quando petipa e Ivanov criariam uma nova e grandiosa coreografia e o regente Ricardo Drigo, que também era compositor de bailados, daria ao Lago dos Cisnes a execução desejada por Tchaikovsky.
Petipa e Drigo trocaram a ordem de algumas danças e incluíram outras três; sendo essas, orquestrações, provavelmente realizadas pelo próprio Drigo, de peças para piano de Tchaikovsky. Duas dessas peças são “A Maneira de Chopin” e “Shalunia”, extraídas das 18 peças para piano Op. 72 nºs. 12 e 15. A estréia original de O Lago dos Cisnes deu-se a 4 de março de 1877, enquanto que a versão de Petipa foi levada à cena, completa, em janeiro de 1897, pois em 1895 o segundo ato da nova versão havia sido encenado no Teatro Maryinsky em memória do compositor, que havia morrido em 1893. Assim, foram necessários 21 anos para que O Lago dos Cisnes tivesse a execução que merecia, entrando assim no repertorio das grandes companhias de bailados e tornando-se a grande obra que é hoje.
A bailarina que dançou na estréia foi a senhorita Pierina Legnani, não se sabendo o nome do bailarino. Mas nesses quase cem anos de existência o bailado foi disputado por grandes interpretes da dança mundial como Margot Fonteyn; Maya Plisetskaya e Rudolf Nureyev. Sendo montado da Rússia aos Estados Unidos, da Alemanha ao Brasil.
Tendo algumas variações em diversas montagens, mas não sendo alterado em sua idéia geral, o enredo do bailado corresponde a seguinte estória:
Com libreto de V. P. Beghichev e V. F. Helster, o enredo de O Lago dos Cisnes situa-se na Alemanha medieval, num período que ainda hoje poderíamos considerar a “idade da fábula”, tendo em algumas montagens sofrido acréscimos, modificações, sem entretanto, alterar a essência de seu enredo, assim descrito:
I ATO: Após a bela introdução, onde ouvimos o tema dos cisnes, abrem-se às cortinas e estamos diante de um rico jardim de um palácio, ricamente ornamentado com diversas pessoas dançando. São os convidados do Príncipe Siegfried que estão a comemorar a sua maioridade. O príncipe surge e põe-se também a dançar. Terminada a série dos extraordinários Pas de Trois onde dançam o príncipe, os nobres e os camponeses locais. Entra a princesa, mãe de Siegfried, e severamente o adverte por ele não ter ainda escolhido uma esposa, ao que ele responde dizendo que nenhuma moça do reino despertou-lhe paixão. A princesa sai e todos voltam a dançar, mas vê-se um grupo de cisnes passar no céu e surge no príncipe a idéia de ir caçá-los, ao que todos concordam.
II ATO: Inicia com a famosíssima Cena, onde é plenamente desenvolvido o tema dos cisnes apresentado na introdução. Surgem Siegfried e seus amigos e dirigem-se para a beira do lago onde ocorrerá toda a cena. A guarda dos caçadores adentra a floresta e deixa um amigo íntimo de Siegfried para trás. Surge um grupo de formosas jovens. É noite e elas recobraram a forma humana. Siegfried retorna no exato momento em que surge Odete, a líder das jovens. O príncipe encanta-se com sua beleza e por ela se apaixona. Numa conversa Odete conta que fora transformada em cisne, juntamente com suas companheiras por Von Rothbart; um cruel feiticeiro e que somente pode recobrar a forma humana entre a meia-noite e a alvorada. Declarando desejar libertá-la, Odete diz-lhe que somente um homem disposto a sacrificar-se por ela quebrará o encanto e terminará com os poderes do maléfico Von Rothbart. Os dois declaram o seu amor à vista do feiticeiro transmutado em coruja, no belíssimo Pas de Deux “Dança da Rainha dos Cisnes”, trecho famoso por sua música e coreografia. Chegando a alvorada, os dois se despedem e assim se conclui o ato.
III ATO: O mais festivo de todo o bailado. Passa-se num rico salão do castelo onde acontece um baile onde o príncipe Siegfried anunciará o seu noivado e escolherá a noiva entre as princesas visitantes da Espanha, Nápoles, Hungria e Rússia. Entram o príncipe e a princesa-mãe com se séqüito. Das várias jovens que se encontram no salão, muitas delas com seus pais, nenhuma atrai Siegfried; ele somente pensa em Odete. Com uma fanfarra, surgem mais dois convidados; são Von Rothbart e Odila, sua filha, transmutada por ele na imagem de Odete. As delegações estrangeiras executam sucessivamente uma dança típica de seus países. A seguir, Siegfried e Odila dançam o esplêndido Pas de Deux do Cisne Negro, num dos mais conhecidos números da partitura. Ao fim da dança Siegfried anuncia que Odila será sua noiva, mas Rothbart exige que ele faça um juramento; isto feito, Rothbart e Odila caem em gargalhadas delirantes e vê-se a imagem de Odete aparecer ao fundo da cena completamente desesperada. Siegfried, reconhecendo que fora enganado corre em direção ao lago para encontrar-se com a amada, certo de ter cometido um grave erro.
IV ATO: A cena passa-se a beira do lago como no segundo ato. Vêem-se as donzelas-cisnes reunidas. Elas estão à espera de Odete e a saúdam quando ela surge, mas a princesa está entristecida e angustiada pela traição involuntária de Siegfried, que a coloca agora eternamente sobre os poderes do feiticeiro-coruja. Odete se despede das amigas e prepara-se para atirar-se ao lago. No momento em que ela está preste a se atirar surge Siegfried e lhe pede seu perdão. Ela o perdoa, mas anuncia-lhe a sua condição de prisioneira eterna de Von Rothbart e que prefere morrer a viver sem ele. Os dois se despedem e ela atira-se no lago. Siegfried, corroído pela dor, também não pode viver sem ela e apunhala-se. Isto feito, quebra-se o feitiço e Odete e as princesas ficam livres. Numa cena apoteótica, vêem-se Siegfried e Odete no mar rodeados por ninfas e náiades na morte, para concretizarem o seu eterno amor, num templo de total felicidade.


***DISCOGRAFIA
A presente discografia é uma pequena mostra das diversas gravações feitas de O Lago dos Cisnes, que se encontram no acervo do Museu da Imagem e do Som, em Belém. Muitas delas vem acompanhadas da suíte de A Bela Adormecida, sua companheira freqüente nas gravações. Os números abaixo relacionados dizem respeito aos tombos pertencentes ao acervo do MIS.
03510 – A Bela Adormecida e O Lago dos Cisnes. Angel. Orquestra Filarmônica de Berlim. Herbert von Karajan.
01583 - O Lago dos Cisnes. RCA. Boston Pops Orchestra. Arthur Fiedler. 1977.
03806 – O Lago dos Cisnes. Decca. Netherlands Radio Philharmonic Orchestra. Anatoli Fistoulari. 1976.
04563 - O Lago dos Cisnes. Abril Cultural. Orquestra Sinfônica de Viena. Edward van Remmoortel. 1980.
05615 – O Lago dos Cisnes e A Bela Adormecida. Deutch Grammophon. Orquestra Filarmônica Nacional. Witold Rowicki. 1974.
02163 – O Lago dos Cisnes e A Bela Adormecida. London.
02978 – O Lago dos Cisnes e A Bela Adormecida. Emi. Philharmonia Orchestra. Herbert von Karajan. 1961.

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