sábado, 14 de março de 2009

O FESTIVAL DE ÓPERA DO TEATRO DA PAZ

Oh, céus! O meu pior temor acabou acontecendo. O ano de 2006 viu surgir no palco do Teatro da Paz a pior montagem até agora dentro do Festival de Ópera. A Rigoletto de Verdi teve uma produção que foi aquém do esperado, considerando-se a envergadura da obra e sua fama constante e inabalável dentro do repertório tradicional. Como se trata de uma ópera amada por todos e com público garantido em qualquer lugar, esperava-se uma montagem à altura. Mas o que vimos foi uma sucessão de erros e equívocos, transformando a tragédia de Rigoletto em um pastelão que até as infames produções da Televisa mexicana corariam de vergonha.
Uma crítica completa dessa montagem requer muito português, portanto, separarei os comentários em partes:

A MONTAGEM

O cenário criado por Raul Bongiorno estava bonito e bem resolvido nas mudanças de cena. A iluminação privilegiou os tons de escuro; o que cai bem na aura de tragédia e maldição que inunda a obra de Verdi e nas ambientações noturnas de várias cenas.
A funcionalidade do cenário também foi um ponto alto em uma ópera com várias mudanças de cena. O que é sempre um problema para o cenógrafo e o encenador, que devem procurar a melhor maneira de mudá-las sem dar uma parada brusca e interromper o fluxo contínuo da encenação, mesmo que haja intervalos para a mudança total de cenários como na Rigoletto – possuidora da bondade de ter cenas fechadas, ao contrário da O Ouro do Reno de Wagner, onde um intermezzo é usado para as mudanças cênicas, sem interromper a execução musical. Óperas assim requerem imaginação extra e funcionalidade na mudança cênica.

A INDUMENTÁRIA

Esse infelizmente foi um dos pontos que contribuíram para o fracasso da montagem. A Rigoletto passa-se na Mântua renascentista, época de fausto e glamour, muito bem registrados nas artes plásticas do período. O uso de indumentária de épocas distintas e distantes deu um tom berrante à produção e bastante deslocado. Não entendi porque o coro usou paletó e rostos pintados de branco. Seriam fantasmas de políticos ou palhaços de casaca? Fica a pergunta.
E a bacanal que inicia a ópera, para onde foi? O que vimos foi um bate-pé interminável de coralistas de um lado ao outro do palco. Mas parecia um desfile de moda. A São Paulo Fashion Week certamente gostaria da proposta e creio que a adotaria com prazer para fazer Gisele Bündchen sacolejar de um lado ao outro vestida como uma cortesã da Mântua renascentista.
Agora, horrorosa mesmo, foi a indumentária usada por Rigoletto. Um paletó azul pastel “indefectível”. Se o objetivo era demonstrar o bobo da corte como um homem patético e risível, conseguiram.

OS FIGURANTES E COMPRIMÁRIOS

Quá, quá,quá. Os guardas do duque foram destaque na encenação. Os dois rapazes escolhidos visivelmente não são atores e nunca, certamente, trabalharam em cena; tanta foi a rigidez de ambos na movimentação pelo palco. Foi um grande incomodo ver aqueles dois “pedaços de tora bruta” sem nenhuma sutileza, sofrendo para dar dois passos no palco e totalmente deslocados na cena.
As coralistas que cantaram a condessa de Ceprano, Giovanna e o Pajem, respectivamente Elizabeth Melo, Natália Paixão e Ione Carvalho, merecem os parabéns pela sorte de serem convidadas a participar de uma montagem operística tão jovens. Mas suas vozes ainda estão muito verdes para elas pensarem em vôos mais altos. A experiência é mais que válida. Espero que não fiquem somente nisso.




OS INTÉRPRETES

Chegamos ao ponto principal desta fatídica encenação: os atores de ópera. Sim, os atores de ópera. Foram eles, não todos é claro, os responsáveis pela maioria dos fracassos da encenação.
No programa do festival estava previsto Manuel Alvarez para o papel de Rigoletto. Mas Manuel foi substituído aos 45 dos segundo tempo pelo russo Sergei Dreit, que interpretara Salieri, na première da ópera de Rimsky-Korsakov no Festival.
Fofocas pesadas rolaram acerca dessa substituição. Disseram uns que Mateus Araújo (responsável pela direção musical) havia dispensado Manuel por ciúmes de Lyz Nardotto. Depois chegaram com a noticia que o próprio Alvarez pediu dispensa na hora de cobrar o pênalti. Questões amorosas ou outras que sejam, o fato é que Manuel Alvarez não cantou Rigoletto e aí reside a verdadeira tragédia da encenação. Com a vaga de personagem-título disponível, sobrou para o russo Dreit capitanear o bate-bola no palco do da Paz. Saiu perdendo com isso a ópera, os demais intérpretes,a orquestra, o regente e, finalmente, o público. Que não teve um Rigoletto nem sequer regular para valer o preço do ingresso.
Nós, o público, tivemos que aturar durante toda a encenação um barítono deslocado, desfalcado, sem postura e sem vergonha na cara de nos dar uma interpretação decente. O mesmo barítono, que viveu um Salieri satisfatório, surgiu na ópera de Verdi, engolido pela força da personagem e da música. Cantou como um baritonozinho ordinário qualquer, que mais parecia estar prestando um favor para o público e não trabalhando para valer. Manuel Alvarez cantou a Cortiggiani no concerto de encerramento, e somente isso, bastou para eu ter a certeza de que se ele tivesse cantado Rigoletto, esta crítica seria outra.

Lyz Nardotto

A coisa mais comum nos palcos europeus e norte-americanos é o público presenciam o nascimento de uma estrela. De Rosa Ponselle a Valentina Vaduva, passando por Callas, Sayão, Bjorling, Del Mônaco e Tebaldi, os palcos desses dois continentes há séculos tem o privilégio de contar com gênios da ópera a brindar o público. Por aqui, todos sabem que a realidade é o extremo oposto. Gente grande do mundo musical erudito puseram os pés aqui mais que minguadamente. Jascha Heifetz em um ano. Bidú Sayão em outro, com bom intervalo entre ambos.
No início do século XX, o maestro Ulysses Nobre se queixava da falta de espetáculos eruditos em Belém e saudava a vinda de qualquer grande músico de fora com festa. Coisa bastante compreensível. Mas Ulysses não vive em nossa época. Se vivesse, ficaria felicíssimo em acompanhar o surgimento de uma grande interprete operísticas, justamente no palco que tanto amou. Seu nome Lyz Nardotto.
Os invejosos – que por aqui não são poucos – dirão que estou exagerando, sendo puxa-saco, bonzinho demais. Mas o fato é que Nardotto está crescendo muito como cantou lírica. Ela acabou de se tornar a única Rainha da Noite brasileira. Tanto que na falta de outro soprano para interpretar a megera mozartiana no Municipal de São Paulo, ela foi chamada. E considerando o que nos mostrou no Teatro da Paz, por lá, literalmente, deve ter arrebentado a boca do balão!
Entre os atores, foi ela quem sustentou a ópera nas costas na noite de estréia, sempre que vinha à cena. Sustentou – quem estava lá viu! – o quarteto junto com o mezzo russo, já que o barítono e o tenor estavam longe de serem musicalmente inspirados. Falha mortal deles, pois, apesar de se encontrar no terceiro ato, o quarteto é o coração musical da ópera e só por isso já merece respeito de qualquer um de seus intérpretes.
Lyz ainda está verde para a coloratura de Gilda, mas certamente, é um verde que não muito futuramente estará maduro. E então meus caros, quando ele chegar as saudades de D. Niza Tank estarão sanadas.

Leonid Zakhozhaev

No programa do Festival está escrito que esse tenor russo é “um dos mais importantes solista da Ópera do Kirov, do Teatro Mariinsky de São Petersburgo, desde 1995” e, portanto, fio vendido aos paraenses como peixe-grande. Sardinha enlatada em dia de promoção de pescado é o que ele é. A voz dele é bonita, tem projeção. É audível. Mas uma boa voz não faz um bom cantor. Faltou a ele a vontade de fazer muita música. O tesão de cantar o Duque de Mântua falhou. Sem falar nos constantes desencontros dele com a orquestra. Mais parecia a corrida do coelho com a lebre, de tanto avança e pára em relação à orquestra. Já me disseram que Mateus Araújo tem o habito de correr nos andamentos das músicas. Mas se isso fosse verdade, então porque ele não correu em Madame Butterfly ou no Feminino em Mozart. Com tantos interpretes sobre sua direção, porque justamente na parte do Duque as coisas desandavam? Não acredito na falta de tactus de Araújo. Mas acredito na falta de teoria musical do tenor.
Considerando que já atuou em diversos papéis de primeira linha em várias óperas montadas no Kirov (Tamino, Lohengrin, Benvenuto Cellini, Fausto, Lensky etc) é de se estranhar uma atuação tão frouxa entre nós. Para um tenor que tem o privilégio de trabalhar sob a direta orientação musical de Valery Gergiev, ele mais parece um comprimário que um primo uomo. Pois conhecendo as gravações em vídeo de Gergiev, o maestro mostra que não é homem de deixar passar atrasos no tempo musical. Certamente, sob sua orientação, esse tenor deve ter outra postura. Para sobrevivência profissional dele!

Vera Egorova

Se há uma coisa que eu adoro são as vozes graves russas. Parece estar no código genético deles. Os mezzi russos têm som e mezzo. Os contraltos – Oh, os contraltos! – são contraltos e não mozzi-soprani (coitados!) forçados a cantar como machos! Uma pena que Madalena só apareça na cena da taverna. Do contrário, poderíamos ter-nos esbaldado mais nos graves melodiosos de Egorova. E palmas para ela! Pois, juntamente com Nardotto, sustentou o quarteto nas costas. Se dependesse dos machos solistas, o quarteto teria virado um Titanic musical e levado o final da ópera para o fundo!

O CORO

Como sempre o coro salvou a encenação e a parte musical. Falar de canto coral em Belém é chover no molhado. Para o bem ou para o mal, o canto coral belenense é de altíssima qualidade pela pré-disposição vocal dos nossos cantores líricos à esta formação musical. O coral Marina Monarcha continua brilhante no que faz. É um coro (e único em Belém) operístico por formação e excelência. Meus sinceros aplausos. Só lamento pelo figurino horroroso que eles usaram. Para que “micos” como esse não se repitam só mesmo matando Cléber Papa.




A ORQUESTRA

Deixando de lado os contra-tempos com o tenor e alguns andamentos inapropriados para um ou outro número musical, Mateus Araújo regeu a orquestra do Teatro da Paz com competência, embora tenha nos dado um Rigoletto ainda imaturo, embora os elementos necessários para uma grande interpretação dessa ópera já estejam nos pulsos e ouvidos do maestro. Aplausos para a sua versão do prelúdio. Foi a mais negra, trágica e pesada interpretação desse número entre todas as que conheço. O prelúdio de Rigoletto é música romântica na sua essência, isto é, como introdução operística deve dar o clima para a ópera que se segue e nisso Verdi foi magistral, criando um prelúdio que é a “antecipação” da tragédia pessoal vivida pelo corcunda e venenoso bobo da corte mantuana.
Embora seja uma obra com orquestração sem nenhum arroubo de revolução, sendo mesmo bastante acadêmica na minha opinião, sua orquestração é por demais funcional para ser passada em branco. Muito embora o próprio Verdi tenha composto aberturas e prelúdios posteriores com uma inventividade orquestral mais elaborada, o de Rigoletto não é de se deixar fora do repertório de concertos.
Outro ponto a favor de Araújo foi o fato de ter conseguido retirar da nossa amadora orquestra um som de profissionais experimentados – mas isso não demove a minha opinião de que um concurso público será a grande reviravolta para a OSTP e sua criação como órgão efetivo do Governo Estatal Paraense. Verdi nunca foi um gênio da orquestração, passando a nos entregar obras orquestrais com mais inventividade e interesse a partir de D. Carlo. Quem conhece o Verdi da primeira fase e o idoso compositor do Falstaff conhece bem os enormes avanços sofridos por ele na arte da orquestração. Como disse anteriormente, a Rigoletto não é ópera de gênio na orquestração, mas sua orquestral por mais acadêmica e de nível regular que seja não deve ser desconsiderada, pois um ponto a favor de Verdi sempre foi o de obter as cores necessárias de seus instrumentos, mesmo usando uma orquestração sem muita imaginação inventiva. E nesse ponto Araújo deu crédito a partitura sabendo trabalhar as cores (diversas) da partitura. Não sei se o maestro já regeu a Rigoletto anteriormente, mas se foi a primeira vez, saiu-se muito bem na sua tarefa. Mas acredito que futuramente e com a visão da experiência ele nos dará um Rigoletto, digamos, com personalidade própria.

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