ORQUESTRA SINFÔNICA BRASILEIRA, TURNÊ 2006

Infelizmente não pude assistir a primeira parte do concerto da OSB regida por Roberto Minczuk em Belém por chegar atrasado ao Teatro da Paz. Assisti somente a segunda parte, mas isso foi o bastante para ter uma noite de prazer musical. Minczuk ainda está longe de alcançar o panteão dos gênios da regência como Karajan, Toscanini, Solti ou Furtwängler, mais certamente não terá dificuldades de chegar lá; considerando-se o som e as leituras retiradas das páginas apresentadas no da Paz na noite de 03 de outubro de 2006 (a 2ª das duas noites reservadas para Belém)[1]. Dominada pela 5ª Sinfonia de Tchaikovsky, a segunda parte me fez lembrar da minha adolescência, onde o rock nacional dividia a minha atenção com a atenção dedicada ao compositor russo, minha paixão musical adolescente, juntamente com o Bolero de Ravel (a música da minha vida na época) e a ópera Carmen de Bizet. Juntos estes três foram responsáveis por me decidir a devotar a minha vida à música.
Mas sobre a 5ª de Tchaikovsky por Minczuk. Como conheço essa sinfonia há 18 anos e já a ouvi com regentes de 1ª, 2ª e 3ª categorias tenho estrada suficiente para dizer que Minczuk me surpreendeu – e muito! – com sons nunca antes ouvidos na mais lírica das sinfonias de Pyotr (pronuncia-se piôtor) Tchaikovsky. Essa foi a primeira vez que ouvi a 5ª ao vivo e a cores e daí tenho a certeza da novidade nos sons ouvidos com a OSB.
Best-seller do repertório sinfônico, essa sinfonia tem um delicado equilíbrio na linha melódica, na orquestração e, sobretudo, nos sentimentos trabalhados. Há nela, a melancolia crônica do compositor, somada a sua veia trágica e abandonada. O amor não realizado. A felicidade incompleta e perdida. O desespero da homossexualidade não aceita. A sensibilidade à flor da pele.
Tchaikovsky trata os naipes da orquestra como taças de cristal dispostas em uma mesa próxima a janela de casa, de modo a apanhar a luz do sol e com isso obter o reflexo de sua luz para, talvez, acalmar o seu atormentado estado de espírito.
Minczuk manteve o pulso firme e não pesou nem para um lado nem para o outro. Manteve-se equilibrado e destacou sons que eu nunca consegui ouvir nos discos. Um exemplo: a linha dos trompetes, sempre muito pouco destacada nas gravações discográficas, onde os violinos e as madeiras solistas são a vida dos engenheiros de som.
O célebre solo de trompa do segundo movimento manteve sua tristeza em voga, mas – e aí outro ponto para Minczuk – dividiu o palco com madeiras e metais, que muitas vezes são engolidos nas gravações e me apresentaram desesperos musicais, novidades para mim.
Minczuk parece ser um cara legal, bonzinho e brincalhão. Isso, talvez, explique a evidente alegria contida na valsa do terceiro movimento. A vaga tristeza dessa valsa de concerto fica um pouco diminuída pelo alegre colorido extraído da orquestra, mas como é música de Tchaikovsky ela sempre esteve lá.
O final quase religioso da sinfonia não deveu nada às gravações de Karajan e Bernstein. Furiosa pregação por uma vida melhor e menos atormentada. É justamente na atormentada orquestração que Tchaikovsky usa a sua violência nos metais e na percussão. Prova de fogo para qualquer regente, esse movimento requer pulso firme e ao mesmo tempo fraseado camerístico, para não deixar a música explodir em força desnecessária. E aqui, tanto Minczuk quanto a OSB merecem os parabéns, pois foram equilibrados acima de tudo, sem perder os sentimentos do compositor e sem se deixar cair na re-exposição insossa do tema central, já que essa é uma sinfonia cíclica.

[1] Belém foi à única capital a ter duas noites de concerto na temporada 2006 da Orquestra Sinfônica Brasileira.

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