sábado, 21 de março de 2009

A RAINHA DA NOITE. LIZ NARDOTTO ROUBA CENA NO V FESTIVAL DE ÓPERA

Foi um concerto em homenagem aos 250 anos do nascimento de Mozart dentro do Festival de Ópera do Teatro da Paz que reuniu os sopranos paraenses Márcia Aliverti, Patrícia Oliveira, Alpha de Oliveira, Carmen Monarcha, Dione Colares e a brasiliense Lyz Nardotto. Cantaram árias das óperas mozartianas num bate-bola onde a brasiliense deu de goleada.
Carmen Monarcha foi a única capaz de se igualar em sonoridade e maturidade vocal à nova Rainha da Noite brasileira. As outras...bem, são as outras!
O programa abriu com Carmen Monarcha cantando a “Ruhe sanft” da Zaïde. Tirou nota 10 na interpretação pela sonoridade límpida, boa colocação vocal e clareza no canto em alemão. Cantou sentada, devido ao acidente sofrido por ela e Sérgio Weintrab no final da encenação de Iara no dia 8 deste mês. O pé machucado a impediu de ficar de pé e nos brindar com sua excelente cena. Carmen é certamente uma das futuras grandes atrizes de ópera do cenário brasileiro e espero, futuramente, do internacional. Cantores de ópera encontramos todos os dias, mas um ator de ópera, infelizmente é produto raro.
No seu retorno na 2ª parte do programa cantou a célebre ária de D. Elvira “Mi tradi quell’alma ingrata” e aqui ficamos esperando um bis, desta vez sem pé machucado.
A segunda a se apresentar foi Dione Colares. Cantou uma “Deh! Vieni non tardar” muito allegro, o que destoou um pouco o caráter sedutor da “Ária do jardim”. Apesar dessa ária está em conformidade à sua classificação vocal, novamente o canto dela não me entusiasmou. Foi melhor na “Ach, ich fühl’s” de Pamina, talvez pelo seu caráter lamentoso. Continuo lamentando que este soprano não tenha nenhum garbo na hora de cantar ópera.
Patrícia Oliveira veio a seguir e apresentou a “Come scoglio” de Fiordiligi. Esta é uma das poucas páginas de Così fan tutte que deveras me agradam, mas nem por isso dou 10 para a interpretação de Patrícia. De todas, ela é a mais fraca na cena, sendo um verdadeiro “poste cantante”, necessitando imediatamente de aulas de interpretação teatral. A sua “Dove sono” nem de longe transmitiu a tristeza da Condessa Rosina e sua saudade dos tempos felizes com o seu apaixonado marido Conde de Almaviva. Não farei comparações com a Condessa de Kiri te Kanawa para não ser excessivamente cruel. Vocês me entendem!
Márcia Aliverti fazendo o que realmente gosta entrou a seguir com a “In uomini, in soldati” também da Così fan tutte. Abusou da interpretação cênica e não deixou a peteca cair, mas vocalmente está com uma voz muito pontuda, o que incomoda aos ouvidos. O excesso de brilho vocal também prejudica a partitura, pois luz demais ofusca a visão de uma partitura naturalmente luminosa. A forma da boca lembra a Escola do Sorriso da qual Judith Blegen e Shirley Verret são as mais famosas representantes. Este tipo de “técnica vocal” me deixa na dúvida quanto a sua validade, pois a considero muito linear. É como se o canto saísse reto o tempo inteiro, pois a voz é forçada a assumir um formato não arredondado, natural na projeção sonora. Girar é o que falta à voz da Aliverti. Quanto a “Vedrai carino” de Zerlina na D. Giovanni, repetiu o mesmo pecado de Colares, ao cantar allegro uma ária que é docemente moderatto. “Vedrai carino” é uma canção de ninar gente grande, totalmente casta na sua cênica insinuação sexual. O soprano saiu perdendo, pois ao invés de mostrar esse lado da partitura, preferiu fazer a voz brilhar... e sem necessidade.
Alpha de Oliveira, em franca decadência vocal, apresentou a cavatina de D. Elvira “Ah, chi mi dice mai” e “Or sai chi l’onore” de D. Anna. É impressionante ver Alpha cantar sem nenhum ânimo e sem nenhuma cena. As partituras parecem-lhe um engodo difícil de engolir e basta-a abrir a boca para eu já ter vontade de pedir o fim da apresentação! Um problema grave continua desde a época em que ela era estudante. O fato de se considerar uma diva. Não é diva quem quer, é diva quem pode. Alpha tinha tudo para ser uma, mas a sua personalidade acabou prejudicando este objetivo. Faço votos de que ela consiga ser a diva que pensa que é. Mas com essa voz decadente que anda nos apresentando, só conseguirá isso na próxima encarnação.
Finalmente chega a mais esperada da noite por mim- Liz Nardotto. A brasiliense me deixou curioso para saber a quantas anda a sua voz desde que criou a Rainha da Noite na estréia da integral de A Flauta Mágica no Festival de Ópera do Teatro da Paz e excedeu minhas expectativas. Literalmente Nardotto cresceu e apareceu vocalmente. Sua Rainha da Noite está segura em todos os aspectos. A voz verde de outrora, amadureceu para um soprano coloratura de tendência dramática que me levou a imaginá-la em um vestido branco ensangüentado, dizendo aos estarrecidos convidados que acabou de matar o marido na Cena da Loucura em Lucia di Lammermoor. O que me impressionou foi a reação do público ao vê-la terminar a interpretação da ornamentada Der Hölle Rache no final do concerto. Na sua interpretação dentro da ópera, o público foi muito mais caloroso a ela; e olha que naquele tempo ela tinha 1/3 da voz que tem hoje. Certamente, Lyz deverá se tornar uma freqüentadora dos palcos paraenses para nossa sorte, pois não é todo dia que nasce uma verdadeira Rainha da Noite.

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