CARTA DA CAMERATA ANTIQUA DE CURITIBA

A seguinte carta foi lida pelo violinista Juarez Bergmann após o Concerto "As oito estações", quando foram apresentadas na Capela Santa Maria em Curitiba-PR As Quatro Estações de Vivaldi e As Quatro Estações Portenhas de Piazzolla.

Carta direcionada e lida ao público presente no concerto do dia 18 de abril de 2009, realizado
na Capela Santa Maria, na cidade de Curitiba.
Curitiba, 18 de abril de 2009.
Queridos amigos,
Neste ano de 2009 a Camerata Antiqua de Curitiba, patrimônio cultural desta cidade,
completa 35 anos de fundação. Infelizmente, neste momento não temos muito o que
comemorar.
Muitos de vocês podem ter se surpreendido esta semana com uma notícia que circulou
na lista de mala direta deste instituto, celebrando uma nova fase da Camerata, com um novo
diretor artístico e com o anúncio de um concurso para novos chefes de naipe.
Pois é, nós também fomos pegos de surpresa. Surpresa por que sequer fomos
consultados quanto ao interesse e real necessidade do grupo em mudar a forma como
conduzimos o direcionamento artístico da Camerata. Surpresos ficamos com a forma como
tudo isso foi encaminhado e feito às escondidas, tramado nos bastidores desta instituição, à
revelia do que pensamos e acreditamos.
O descaso dos administradores desta casa foi tal que, quando resolveram nos dar a
“notícia” na quarta-feira véspera de páscoa, tudo já estava acertado: cartazes impressos, emails
preparados, web pages configuradas; enfim, tudo pronto para divulgar a “boa nova”.
Quando indagamos o porquê do grupo não ter sido sequer consultado, a resposta da atual
diretoria foi: “porque não julgamos necessário”.
Inesperadamente o conselho artístico da Camerata, formado igualmente por membros
do Coro e Orquestra, eleito democraticamente por seus pares para representá-los e que
norteou o direcionamento artístico deste grupo por mais de 26 anos, foi sumariamente
destituído, numa atitude que beira a ditadura.
Este conselho, que ao longo de mais de um quarto de século foi reconhecido e, mais
importante ainda, respeitado por todos os prefeitos e presidentes que ocuparam seus cargos
ao longo destes anos, foi subitamente calado!
Por quê? “Porque fomos julgados desnecessários”.
A maior dificuldade que enfrentamos atualmente é a diferença salarial existente entre
os músicos da Camerata, especialmente aqueles contratados em regime de CLT pelo presente
Instituto. Temos a convicção de que não existe igualdade maior do que a igualdade do palco.
Nele não existe idade, cor ou gênero; no palco somos todos músicos: instrumentistas e
cantores. Por isso, achamos justo reivindicar uma equiparação salarial, reivindicação esta que
clamamos desde antes da formação do ICAC, instituto que supostamente foi criado justamente
para resolver este tipo de impasse.
Sempre ouvimos a mesma justificativa: “Falta de dinheiro, corte de verba, falta
recursos”.
Hoje, no auge de uma crise econômica mundial, a presente diretoria nos surpreende
com a notícia de que não somente não irá resolver nossa situação, como irá, sim, agravá-la
ainda mais com a contratação de 06 novos músicos, que receberão até mais do que o dobro
do salário que um contratado junto ao ICAC recebe hoje. Quantia essa que somada, sem
contar o salário do novo diretor artístico, chega à casa de ¼ de milhão de reais anuais! Isso
mesmo, 250 mil reais para 06 músicos em detrimento dos 14 músicos contratados atualmente
pelo ICAC. Enquanto isso, a programação da Camerata para o ano inteiro sofre cortes
sucessivos, recebendo uma verba pelo segundo ano consecutivo de apenas 180 mil reais.
Vou repetir: enquanto o conselho atual faz milagre com a formulação de toda a
temporada de concertos, com uma verba de 180 mil reais, a presente administração resolve
aumentar, do dia para noite, seus gastos com novos salários em 250 mil reais, sem contar o
pagamento ao diretor artístico.
Tal medida deixa transparecer o desinteresse em resolver de forma eficaz um
problema interno que vem sendo, há muito, apontado pelos representantes da Camerata.
Seria, assim pensamos, uma medida de bom senso redistribuir a receita e resolver tal equação,
antes de se pensar em novas contratações.
Depois ainda somos taxados de estarmos estagnados, nas duas páginas eletrônicas
mantidas por esta instituição.
Estagnados!
Quando queremos comprar novas partituras e ampliar nosso repertório, temos que usar
nossos cartões de crédito pessoais para adquiri-las, na esperança de sermos ressarcidos
posteriormente. Quando o coro foi convidado a representar esta cidade em festivais na Europa,
cada músico teve que contribuir com a compra de sua passagem aérea para viabilizar sua ida
até o velho continente. Quando o grupo precisou de um cravo, conseguimos a compra do
instrumento através da nossa Associação dos Músicos da Camerata Antiqua de Curitiba, por
meio da Lei de Incentivo à Cultura.
E ainda assim estamos estagnados!
Quando comparamos o montante de dinheiro investido na Oficina de Música, que beira
a casa de 1 milhão de reais para 20 dias e a nossa humilde verba de 180 mil reais para o resto
do ano reparamos no abismo que há entre estas duas realidades.
Apesar de termos nos apresentado em diversas cerimônias de lançamento do projeto
deste espaço para a Camerata, nunca fomos sequer consultados para saber as reais
necessidades de adequação do grupo para a casa em que iríamos ocupar. Quando finalmente
visitamos a construção, apontamos alguns problemas relacionados a este espaço, como
tamanho do palco, que mal cabe a Camerata inteira, posicionamento das poltronas na platéia,
as condições das salas de ensaio entre outros: não fomos sequer ouvidos.
Alguns projetos que temos realizado, já estão consolidados como obrigatórios em
nossa programação, criados pela iniciativa do grupo da Camerata e colocados em prática
através da ação do Conselho Artístico. São os projetos 'Música pela Vida', levado aos hospitais
públicos, e 'Alimentando com Música' direcionado a crianças das escolas municipais. Além
destes, temos uma lista com 15 novos projetos que abrangem desde o aprimoramento e
modernização do arquivo, alocados hoje no mezanino da Capela, expostos à ação de poeira,
umidade e dejetos de animais, até a informatização do atual sistema de bilheteria para venda
de ingressos numerados a fim de minimizar a formação de filas e possibilitar a aquisição de
ingressos antecipados para toda a temporada.
Música, meus amigos, não é a partitura (que apenas tenta representar graficamente
sons), muito menos um CD que é na verdade um registro sonoro. Música só acontece por um
momento, e este momento é único, dura uma fração de segundo e é impossível de ser
repetido. Música é o que presenciamos hoje!
O escritor dinamarquês Hans Christian Andersen escreveu: “Onde a palavra falha, a
música fala”. Neste momento a Camerata Antiqua de Curitiba deseja que a música volte a falar
nesta casa, com bom senso e, sobretudo, respeito!
Nossos sinceros agradecimentos a todos vocês, por 35 anos de amizade, apreço,
incentivos e lealdade.
Muito obrigado.
Integrantes da Camerata Antiqua de Curitiba

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

ESSA NEGRA FULÔ: ANÁLISE

FORMA E ESTRUTURA NA ÓPERA: CENA III - ESTRUTURAÇÃO DE UMA ÓPERA

Mozart: Bastião e Bastiana em português e com sotaque paraense