CARTA-PROTESTO DA CAMERATA ANTIQUA DE CURITIBA

A seguinte carta foi enviada pelos músicos da Camerata Antiqua de Curitiba depois de decisões arbitrárias e politiqueiras que trouxeram vários problemas para a Camerata e o Coro da Fundação Cultural de Curitiba. A sede da Camerata, a Capela Santa Maria, reaberta após a última reforma mostrou-se inapropriada para a realização de concertos musicais - a audiência não tem uma boa colocação - e a acústica é péssima. Leiam e tirem suas próprias conclusões>
Curitiba, 17 de abril de 2009.
Ao
Senhor Presidente da Fundação Cultural de Curitiba
Paulino Viapiana
Prezado senhor,
Vimos por meio desta, expor as nossas considerações após a reunião do dia 8 de abril de 2009, realizada na Capela Santa Maria, sede da Camerata Antiqua de Curitiba.
Nós, músicos da Camerata Antiqua de Curitiba, nos sentimos no direito de protestar quanto à decisão arbitrária que nos foi comunicada repentinamente por esta presidência. É necessário frisar de que vossa assessoria para os assuntos referentes à música, está equivocada com relação à Camerata Antiqua de Curitiba. Deste modo elaboramos este documento afim de que se esclareçam diversos pontos importantes, dada a gravidade da situação à qual nos foi legada a partir do comunicado de implantação do projeto trazido pelo maestro Wagner Polistchuk.
1-
Desde 1986, Prefeitos e inúmeros Presidentes da FCC, têm reconhecido, através inclusive de contribuições extra aos seus integrantes, a existência e o desempenho do Conselho Artístico da CAC, o qual vem desenvolvendo com dedicação um trabalho de representação e liderança do grupo. O conselho, eleito entre seus integrantes, obedece à estrutura de um Regimento Interno, criado a partir da sugestão de todos os membros da Camerata, e que se tornou referência para diversos grupos em todo o Brasil. O Conselho da CAC tem realizado o trabalho de levantamento de repertório e gerenciamento de recursos humanos, convidando instrumentistas, cantores e maestros, para tornar viável o cumprimento das agendas de programação anual. Embora não seja perfeito, o Regimento Interno pode nos oferecer normas estruturais importantes, que assegurem a continuidade das atividades artísticas para além das renovações nos cargos da Fundação Cultural, Secretarias e Prefeitura Municipal. Lamentamos saber que este mesmo Conselho, foi destituído de suas funções sem aviso prévio, ferindo de modo contundente a estrutura que até hoje manteve de pé este grupo.
2-
Por diversas vezes solicitamos o estudo de uma equiparação salarial para os 14 músicos contratados através do regime de CLT. Em várias reuniões realizadas com a Presidência do ICAC, obtivemos, como resposta, a justificativa da falta de recursos financeiros, que, neste momento, se mostra incoerente com o anúncio da contratação de 6 novos músicos para integrarem o quadro da Camerata. Apesar do anúncio de reposição salarial para os celetistas, ainda assim não alcançaremos a equiparação. Os valores oferecidos a estes novos músicos chegarão próximos a R$20 mil mensais, que poderiam ser primordialmente destinados aos antigos funcionários, os quais esperam desde o momento da criação do ICAC, em 2003, por esta resolução. Tal medida deixa transparecer o desinteresse em resolver de forma eficaz um problema interno que vem sendo, há muito, apontado pelos representantes da Camerata. Seria, assim pensamos, uma medida de bom senso redistribuir a receita e resolver tal equação, antes de se pensar em novas contratações.
3-
Alguns projetos que temos realizado, já estão consolidados como obrigatórios em nossa programação, criados pela iniciativa do grupo da Camerata e colocados em prática através da ação do Conselho Artístico. São os projetos 'Música pela Vida', levado aos hospitais públicos, e 'Alimentando Com Música' direcionado a crianças das escolas municipais. Há que se reconhecer
o valor das iniciativas do grupo, em seu esforço pelo reconhecimento do valor de seu trabalho artístico como um serviço essencial para a comunidade. Temos também, como exemplo de iniciativa própria, o projeto de lei de incentivo à cultura que possibilitou a aquisição de um Cravo, através da Associação dos Músicos da CAC. Ainda podemos citar o esforço feito pelo Coro da CAC em fazer representar o Brasil, mais especificamente a cidade de Curitiba, através de viagens ao exterior, algumas vezes empreendidas pelo esforço financeiro particular de cada indivíduo, levando o nome da Fundação Cultural de Curitiba ao cenário artístico internacional. Portanto, cremos na valorização de iniciativas espontâneas, pois estas constituem uma prova cabal de que existem sim, aspectos positivos a serem considerados, ainda que sejam em um grupo que responde às normas de uma repartição pública.
4-
Há algum tempo comunicamos diversos problemas estruturais do 'Espaço Cultural Capela Santa Maria', a respeito do mau aproveitamento de espaço para o desenvolvimento de nossas tarefas. A saber:
a.
Descuido com o patrimônio adquirido. Os armários para arquivo de partituras estão alocados no mezanino da Capela, expostos à ação de poeira, umidade e dejetos de animais;
b.
Diminuição do número de salas disponiveis, impossibilitando os ensaios simultâneos de naipes. Hoje, das cinco salas existentes, três estão ocupadas por seções administrativas;
c.
O tratamento acústico não concluído de uma das salas, o que torna o ambiente inapropriado para o fim a que se destina;
d.
O problema do tamanho estreito do palco da Capela, o que gera um certo desconforto em nossa formação. Lembramos que, de nossa parte, foram feitas alertas ainda durante as finalizações do piso do palco.
Sabemos que reformas estruturais nem sempre têm a visibilidade almejada, pois estas nem sempre significam maior projeção nos meios de comunicação de massa. Porém a perfeita adequação de funcionários a um espaço apropriado, remete-nos à criação de uma estrutura sustentável, refletindo sensivelmente na qualidade do trabalho desenvolvido. Por outro lado, temos participado de um projeto intitulado 'Qualidade de Vida do Trabalhador' – QVT, que visa a melhora do ambiente de trabalho nas repartições municipais, e este objetivo bem poderia nos ser aqui aplicado. À parte o fato de sermos nós mesmos o instrumento que contribui para este projeto, cabe aqui lembrar de que temos também a necessidade de uma qualidade de vida melhor em nosso ambiente de trabalho.
5-
Atualmente são destinados cerca de R$180 mil para a programação anual da CAC; somando-se a esta verba o reforço do patrocínio da empresa Volvo. Tal montante torna-se pequeno se comparado com os investimentos na Oficina de Música de Curitiba, que dura apenas 20 dias, onde são gastos valores que talvez cheguem à casa de R$1 milhão, em contraste com os investimentos na programação da Camerata que se realiza ao longo de todo o ano. Se for efetivamente implantado o plano anunciado pela atual direção, a soma anual dos montantes consumidos no pagamento dos novos músicos, deverá ser de R$247 mil, superando bastante os atuais R$180 mil destinados à temporada anual. Daí é possível deduzir que se fossem destinados apenas parte destes recursos à programação, seria possível realizar eventos mais ricos e diversificados. Hoje sabemos que o ICAC é um instrumento necessário para aproveitar as brechas da lei que engessariam a rapidez das medidas administrativas da Fundação Cultural de Curitiba. Porém, o poder deste instrumento, apesar de sua aparente boa intenção, pode estar ameaçado por causa de seu uso arbitrário. Pois neste momento parece estar se voltando contra um dos bens culturais mais estimados do público curitibano.
6-
Com relação às idéias que V. Senhoria nos solicitou em novembro de 2006, oferecemos em anexo, um documento contendo as sugestões apresentadas em reunião feita com a Coordenação de Música e a Presidência do ICAC em 2007, contendo diversas propostas às quais o grupo almejaria para um melhor desenvolvimento de nossa profissão, visando, naturalmente, a melhoria do atendimento ao público de nossos concertos. Confrontando o item 3 deste documento em anexo com as últimas medidas anunciadas e suas justificativas, entendemos que não lhe foram repassadas nossas sugestões. Lamentavelmente este fato é mais um indício do desinteresse pelas reivindicações do grupo.
7-
Acreditamos que os 33 membros da Camerata Antiqua de Curitiba têm o direito de opinar na escolha de um futuro Diretor Artístico. Se assim fosse, teria sido evitado o constrangimento ao qual foi submetido o maestro Wagner Polistchuk, que talvez desconhecesse de maneira pormenorizada nosso histórico e nossa atual situação. Durante a reunião, o maestro foi visivelmente pego de surpresa diante da reação geral de desconforto, tanto por parte da diretoria presente, quanto dos integrantes da Camerata. Entendemos que este fato pode tornar sua tarefa bastante desafiadora na condução da liderança artística pretendida de agora em diante.
Esperamos que os itens expostos acima tenham sido esclarecedores, que V. Senhoria compreenda nosso posicionamento, e, tão cedo quanto possível, leve em conta nossas reivindicações, reconhecendo no Conselho Artístico seu status representativo, para que continue a desenvolver o seu papel de liderança do grupo. Ainda frisamos nossa posição quanto à equiparação dos vencimentos de nossos integrantes, o que tem sido a principal reivindicação desde o início da primeira fase da atual gestão. Queremos crer na possibilidade, segundo as promessas de abertura e diálogo até então proferidas, que poderemos iniciar uma nova rodada de negociações. Colocamo-nos ao seu inteiro dispor para dialogarmos a respeito de nossas sugestões e nosso desejo sincero de aprimoramento de nossas atividades artísticas.
Cordialmente,
Camerata Antiqua de Curitiba
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