Doze anos de ausência

O soprano carioca Leila Guimarães deu recital no Arte Doce Hall à noite de 28 de abril. Foi seu primeiro recital em Belém desde sua última apresentação na Cidade das Mangueiras no Festival Carlos Gomes promovido pela SECULT em 1996 que homenageou o compositor paulista pela passagem de seu centenário de morte. E novamente ela volta a Belém para cantá-lo. O seu recital foi inteiramente dedicado a ele e dividido em três partes: as duas primeiras o recital em si e na terceira o lançamento do novo livro de seu marido, o musicólogo Marcus Góes, intitulado Calos Gomes – Documentos Comentados.
Depois de 1996 nunca mais ouvi Leila ao vivo e nem ao menos pelas suas gravações em CD, que nem sequer foram noticiadas no Brasil em qualquer veículo de massa – pelo menos naqueles a que tenho acesso. Mas deixando o desprezo dos meios de comunicação brasileiros pelos grandes feitos de nossos artistas mundo afora vamos aos comentários do recital.
Leila, que doze anos atrás já tinha um certo destaque internacional, está agora totalmente consolidada como uma artista de prestígio mundial e muito bem posicionado no circuito internacional de concertos e óperas. O recital apresentado por ela foi o seguinte:

1ª Parte:
Canções
1 – Lisa, me vos tu bem – Canzone Veneziana
2 – Io ti vidi – palavras de Marcelliano Marcello
3 – Spirto Gentil – palavras de Antonio Ghislanzoni
4 – La Madamina – palavras De Torelli – Violier
5 – Lontana – palavras de Alessandro Casati
6 – L’arcolajo – palavras de Leopoldo Marenco
2ª Parte:
Trechos de ópera
1 – Maria Tudor – Cena de Giovanna “Quanti raggi del ciel” – palavras de Emilio Praga
2 – Salvator Rosa – Ária de Isabella “Volate, Volate” – palavras de Antonio Ghislanzoni
3 – Condor – Cena de Odalea “Vampe, Folgori” – palavras de Mario Canti
4 – Colombo – Arioso de Isabella e Hino ao Novo Mundo – “Vittoria, Vittoria” – palavras de Albino Falanca.
Como se pode ver, o recital foi organizado nas já tradicionais duas partes; a primeira mais leve – de aquecimento – direcionada às canções, enquanto que na segunda os pesos-pesados operísticos extraídos de Maria Tudor, Salvador Rosa, Condor e da cantata Colombo. Música pesada para um soprano que agüenta com o tranco.
Leila iniciou com os bons ares da canção veneziana “Lisa, me vos tu bem”. A brejeirice dessa canção denuncia um Gomes amarado ao Brasil. Ele pode ter tentado dar à canção um ar veneziano, mas somente conseguiu impregná-la da brejeirice brasileira. No fim das contas a canção está mais para modinha que uma canção veneziana. Leila, que é soprano lírico-spinto, procurou deixar a voz suave para a leveza dessa canção, porém a força vocal de quem canta papéis pesados de Gomes, Verdi e agora até Wagner, ficou na tentativa; não que isso seja ruim, mais uma voz eminente operística como a dela não possui a leveza própria de um cantor de lieder. Se a interpretação da canção ficou vocalmente pesada sua leveza cênica compensou um pouco esse peso e o recital iniciou com uma boa promessa de ser inesquecível.
“Io ti vidi” é uma das canções mais famosas de Gomes e conseqüentemente das mais executadas por seus intérpretes. O tenor belenense Reginaldo Pinheiro, natural do Guamá, registrou-a em disco durante o Festival Carlos Gomes de 1996. Canção levíssima, verdadeiramente européia, mas longe de ser operística. Poderia ter levado nota dez, mas Leila pecou pelos portatos nos fins de frases que as deixaram esticadas sem necessidade e uma colocação operística na voz deixou a canção com cara de ária, o que é totalmente inapropriado para uma canção de câmera tão graciosa como essa.
Spirto Gentil, escrito por Ghislanzoni, libretista de Fosca e da Ainda de Verdi, deu a Gomes um texto muito sentimental e musical. Entre os libretistas do Novecento italiano Ghislanzoni é um dos mais musicais. Com um texto de fácil musicalidade a canção resultante é pura música. Como ela é uma canção com certo quê dramático, a voz de lírico-spinto de Leila se encaixou perfeitamente. Já nessa altura do recital eu estava maravilhado com a limpidez da voz de Leila. Ouvi-la ao vivo é como ouvi-la através de um CD: som puro, límpido, sem impurezas e o que é melhor, sem as interferências dos engenheiros de som e do diretor de gravação, o que ouvimos foi Leila é nada mais.
La Madamina, é uma jocosa canção com palavras de Torelli-Violier. Vocalmente ágil e musicalmente segue a linha composicional de “Io ti vidi”, mas lembra bastante algumas canções rococós, especialmente, a “Chi vuol La zingarella” de Paisiello que Cecilia Bartoli já registrou em disco.
“Lontana”, que o tenor paraense Reginaldo Pinheiro já registrou em disco em 1996 durante o Festival Carlos Gomes é uma canção que trabalha um sentimento doloroso daqueles que estão longe da pessoa amada. Por ser uma canção de amor muito sentimental foi fácil para a brasileira Leila interpretá-la, dada a nossa facilidade com a música dor de cotovelo.
“L’arcolajo” é a maior canção de Carlos Gomes. Quase uma cantata, exige bastante do intérprete, tanto vocal, sentimental quanto interpretativamente. Canção que denuncia um compositor eminentemente operístico, ela deve ser interpretada com uma colocação operística. Fazendo isso, Leila deu o exato tom para a música carregada de sentimento escrita por Gomes.
Marília Caputo novamente saiu-se muito bem como pianista acompanhante, embora nessas canções o piano seja, de fato, um acompanhante; com exceção de L’arcolajo que possui uma escrita pianista mais destacada para dar vida mais acentuada às palavras de Marenco. Carlos Gomes era compositor de música italiana que concluiu a sua formação musical na Itália. Mas comum que pensar como italiano na hora de compor, ou seja, a voz é o centro e o restante é acompanhamento. Nem o verismo mudou completamente isso.
A segunda parte foi dedicada às árias operísticas de Gomes. Aqui Leila estava completamente em casa. A voz límpida, a colocação impecável, a interpretação equilibrada e contida, com sentimentos lançados na medida esclarecem porque ela é uma das maiores cantoras líricas da atualidade em todo o mundo.
A cena de Giovanna em Maria Tudor não é uma ária, é um arioso. Nessa cena Gomes pôs em prática as suas idéias de agilidade no desenrolar do enredo operístico. Melodia mais declamada que cantada, faz a cena fluir mais rápido e otimiza a caracterização das personagens, pois não faz o enredo paralisar para o cantor realizar peripécias vocais que seriam muito bonitas de se ouvir, mas paralisariam a evolução cênica.
“Volate, volate” cantada por Isabella em Salvador Rosa, ópera baseada no drama de Victor Hugo, já trabalha a melodia propriamente dita para expor os sentimentos da personagem e seu momento no desenrolar da estória. Mas aqui também não temos aqueles lindas árias melodiosas da época de Rossini e Verdi. É melodia para fazer cênica lírica, não pára destacar a voz do cantor. Do jeito que ela foi escrita basta cantá-la bem para se destacar.
“Vampe, Folgori” cantada por Odalea na Il Condor foi o trecho mais dramático do recital. Música que trabalha a voz como um todo, destacando bastante os graves e os tons escuros da voz de soprano lírico-spinto, também é um arioso altamente expressivo e requerente de uma profunda interpretação pelo soprano. Tarimbada no assunto, Leila tirou de letra.
Para finalizar o arioso de Isabella seguido do início do Hino ao Novo Mundo da cantata Colombo que Gomes escreveu para os 400 anos da descoberta da América. Como não se trata de ópera foi o trecho mais melodioso do recital. A música de exaltação própria dos hinos é de grande beleza, mas não superou as óperas na preferência do público. As nove continuam absolutas no repertório de Carlos Gomes. Foi um recital para fazer história nos anais musicais belenenses. Só espero que Leila não leve outros doze anos para voltar á Cidade das Mangueiras.

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