sábado, 18 de abril de 2009

EDITORIAL: JUNHO DE 2008

E o 21º Festival Internacional de Música do Pará chega ao fim demonstrando a fragilidade de sua organização este ano. Disseram-me que o 20º, no ano passado, não foi lá grandes coisas, porém foi bem melhor organizado do que este. A verba foi liberada somente em março pela governadora Ana Júlia Carepa; um verdadeiro despropósito considerando-se que em março o Festival já deveria estar encaminhado e não esperando liberação de verba para ser encaminhado. Resultado: nenhum dos grandes grupos internacionais já tradicionais no Festival veio. O Festival foi visivelmente feito às pressas, a maioria dos grupos de fora - que sempre estão a se apresentar em Belém - não despertaram muito interesse de um público já tradicional no Festival que esperava ver os grupos de fora como o Valerius Ensemble que tinha lugar cativo no Festival na era Paulo Chaves, mas que agora por ser estrangeiro e europeu deve ser considerado chique do urtil pelo governo petista, claramente propenso a uma grade de programação mais povão. Mas, felizmente, a Fundação Carlos Gomes teve o bom senso de por na pauta grupos de calibre grosso como a Amazônia Jazz Band, o Sexteto Brassil e o Duo Pianístico da UFPa entre outros menos calibrados. Mas a era PT fez-se sentir, pois nos últimos anos nunca se havia visto tantos músicos populares se apresentarem no lugar comumente ocupado pelos eruditos. Aliás, meus caros colegas, revisem a programação geral e vocês hão de notar a abundância de música popular neste último Festival. Foram 14 apresentações no total, a maioria no Meia-noite de Música. Deveriam ter colocado Euterpe de cara pintada de vermelho com uma estrelinha branca na capa do Festival. Ficaria totalmente petista tocando aquela guitarra com caixa amplificada. Quem me conhece sobe o quanto anti-tucano sou, mas tenho que admitir: aquelas aves são nojentas, mas pelo menos sabem organizar um Festival de peso.
Mas pesado este Festival foi. Pesado na sua concepção totalmente maluca de por uma infinidade de concertos e recitais em várias faixas de horário que acabaram saturando a programação, pois aqueles que tem tempo para assistir várias apresentações ficavam se batendo de um lado para outro tentado assistir concertos que tinham uma hora de diferença e sempre iniciavam com atraso. Tinha-se muita gente para apresentar, a melhor solução seria ampliar os dias do Festival - que já chegou a ser realizado em onze dias em 1996, do que colocar 44 apresentações com horários muitos próximos e que acabaram deixando o público dividido. Resultado: várias apresentações foram fracasso de público, para angústia de nós que acompanhamos o Festival há anos e já tivemos diversas dificuldades de assistir as apresentações, pelas salas estarem lotadas nos principais concertos noturnos. Pois este ano esta dificuldade não existiu, devido à exígua freqüência do público a vários recitais.
A Camerata do Festival que geralmente tinha o Teatro da Paz lotado para ver sua apresentação este ano teve um punhado de gatos pingados (eu entre eles), que se estivéssemos todos sentados na platéia certamente não chegaríamos a lotá-la. Mais angustiante foi a apresentação do Duo Pianístico da UFPa que se apresentou no novo horário das 16:00 horas e se basicamente para os amigos, de tão pouca gente que tinha na Sala Ettore Bosio. O que deveria ser um recital público acabou sendo privado. O nosso maior duo pianístico merece muito mais do que isto, principalmente pela história que Lenora Brito e Eliana Cutrim têm nas costas.
A divulgação do Festival foi outro problema sério. Entre os jornais escritos, somente O Liberal lançou artigos de página inteira sobre ele. O Diário do Pará, que durante os primeiros anos do Festival rivalizou com O Liberal e o falecido A Província do Pará pelas melhores e mais extensas reportagens sobre o Festival, este ano lançou-lhe completa ignorância. A ausência da Funtelpa, que em outros anos ajudou, e muito, na divulgação do Festival, este ano também teve sua cota de ausência. É visível a falta de influência e de contatos da nova organização da FCG. Na época de Glorinha, todos sabemos que as coisas aconteciam com dificuldade mais sempre tínhamos grandes nomes de fora do Pará e do Brasil para vermos com exclusividade, e de graça, durante o Festival. Este 21º Festival para mim teve cara de recital entre amigos. Se não fosse pelos músicos que vieram de fora, pensaria que era mais um festival interno do Instituto Carlos Gomes.
Outro fator que deu um passo atrás foi a extrema centralização do Festival. Teatro da Paz, Igreja de Santo Alexandre, Teatro Waldemar Henrique, Sala Ettore Bosio, Praça Batista Campos, Baiacool. Todos os lugares muito próximos, no centro histórico e na área central de Belém. Eu sinceramente não sei como as coisas estão sendo feitas na organização do Festival, mas ainda continuo cobrando a descentralização dele para alcançar a maioria da população belenense. O Festival há anos é freqüentado por uma elite cultural, e isso não se discute mais; porém, colocá-lo somente no centro histórico e na área central – que é financeiramente mais feliz – a todos nós parece elitista: e digo isso, pois já ouvi a mesma opinião de vários colegas que acompanham o Festival. A Praça Dalcídio Jurandir, da Cremação, tem um anfiteatro muito maior que o da Praça da República e que já foi palco de uma apresentação do Festival anteriormente e pela grande capacidade de público que tem poderia muito bem – e muito mais a contento – servir de palco para a abertura e o encerramento do Festival, e com a área aberta que tem na frente do anfiteatro a audiência teria uma excelente visão da orquestra. Mas um lugar como este não passa pela cabeça da organização que só coloca o encerramento em áreas totalmente inadequadas a uma apresentação sinfônica, e pior, bem longe da periferia. Será que o povão belenense que adora brega também não pode gostar de música erudita, ou se interessar por uma apresentação orquestral? Se o Festival, de fato, não alcançar a periferia nunca ficaremos sabendo.

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