domingo, 12 de abril de 2009

ESSA NEGRA FULÔ: ANÁLISE

A seguinte análise foi apresentado por mim em junho de 2008 como avaliação final para a disciplina Análise para Interpretes I ministrada pela Profª. Drª. Zélia Chueke durante o primeiro semestre do mestrado em música da UFPR. Divulgo-o aqui por considerar válido o compartilhamento da análise estrutural de uma obra de capital importância dentro do repertorio waldemariano.

ESTROFES:

Dos três compositores que iniciaram a composição musical para o poema de Jorge de Lima o único a finalizá-la foi Waldemar Henrique. Os outros dois foram Lorenzo Fernandez e Radamés Gnatalli. Pela estrutura musical e a maneira como a voz é tratada neste monólogo, pois devido a sua longa extensão esta peça extrapola a forma canção, Waldemar parece ter trabalhado para adequar a música ao texto e não tentar encaixá-lo em uma forma musical tradicional como ária ou canção. O monólogo a maneira novecentista – e aqui podemos lembrar os de Wagner – foi escolhido por Waldemar para melhor adequar a música a estorinha contada pelo soprano. Embora a sua estrutura seja novecentista, a música em vários momentos parecer querer se adequar ao pensamento musical europeu do período de criação da obra, 1935.
Os versos são completamente irregulares em sua estrutura estrófica. Cada estrofe tem um número de versos diferente que não dão ao poema estrutura métrica regular, fazendo-o assim escapar de qualquer forma poética conhecida. O exemplo seguinte mostra o número de versos para cada estrofe:

1ª estrofe - 6 versos
2ª estrofe - 7 versos
3ª estrofe – 5 versos
4ª estrofe - 12 versos
5ª estrofe - 9 versos
6ª estrofe - 8 versos
7ª estrofe - 8 versos
8ª estrofe - 7 versos
9ª estrofe - 8 versos
10ª estrofe - 7 versos
11ª estrofe - 6 versos
Tonalidade: A bemol maior

Plano da dinâmica por compassos:
1 – 7.....................................F
8 – 17...................................F

18 – 19...............................mf
20 – 29................................p
39 – 43.................................f
47 – 49.1.......................smoz.
49.2 – 50.........................dim.
51 – 53................................pp
54........................................pp
70 – 76...............................sfz
95.........................................p
96 – 109...............................f
110 – 111..............................f
112 – 116.............................ff
117 – 119...............................p
134........................................f
135 – 136..............................f
137 – 144............................ ff

Estrutura: pelos números dos compassos

Introdução: 1 – 4
1ª secção: 5 – 19
2ª secção: 20 – 29
3ª secção: 31 – 43
4ª secção: 44 – 60
5ª secção: 61 – 81
Recitativo: 82 – 87.1
6ª secção: 88 – 106
7ª secção: 107 – 112
Recitativo: 113 – 121
8ª secção: 122 – 137
Recitativo: 138 - 146
Coda: 147 – 158

INDICAÇÕES:
As indicações usadas por Waldemar são várias e mudam a todo o momento. Elas são usadas para criar o ambiente psicológico da peça e em vários momentos têm caráter programático. Para a pianista paraense Lenora Brito, experimentada interprete dessa peça:

“As mudanças de andamento de 'tempo' são constantes nessa peça. Importantes pela carga de emoção que cada alteração desse tipo representa, os 'ritardando', 'accellerando', 'comodo', 'deciso', são uma armadilha para o acompanhante, que deve unir sua visão interpretativa à do solista, numa integração resultante de uma realização sincera, construída cuidadosamente”.(1986, p. 60)[1]

Nos quatro compassos de introdução em 2/4 Waldemar inicia a peça em f com decrescendo até o final do 1º compasso para no 3º indicar deciso. O soprano inicia sua linha no 5º compasso ainda nesse ambiente para mais à frente confrontá-lo com outro forte no piano. No final do comp. 12, Waldemar indica um riten. No último tempo do compasso para logo a seguir exigir um a tempo e dois compassos depois cedendo. Assim o compositor cria a lânguida introdução da estorinha sobre a Negra Fulo.
Em anacruse ao compasso 18, ouvimos o indiferente chamado da patroa. A partir daqui esse chamado será escrito com suaves diferenças no ritmo musical, talvez para descrever as mudanças de ânimo da patroa. De maneira diferente, o verso “Essa Negra Fulô” que termina cada estrofe sempre terá um notas diferentes para o mesmo ritmo musical.
Ex.: comp. 13 - 16, 28 - 29, 35 - 38, 59 - 60, etc...

Nessas diferentes passagens, Waldemar anota para o piano legatissimo, bem marcado, rit. e allarg. Nos compassos 40 e 41, ele lança mão de um eco no piano aos chamados da patroa. As indicações são vivo e meno.
Ex.: comp. 39, 40, e 41.

No compasso 44 indica para o piano com graça, para pô-lo em um ambiente de suavidade devido ao cansaço da patroa que pede para Fulo abanar o seu corpo. A voz nessa secção vai do médio ao grave, enquanto que o piano evolui em direção contrária, alcançando notas agudíssimas no compasso 51 em pp do piano. No comp. 54, Waldemar anota pp no 1º tempo para não deixá-lo com a sua natural marcação forte. As diferentes secções do monologo requerem diferentes ambientações musicais e as várias indicações de tempo, dinâmica e expressão foram habilmente utilizadas por Waldemar para melhor qualificar a sua obra.

PLANO DE COMPASSOS:

2/4............................................1 – 17
4/4.........................................18 – 26
2/4.........................................27 – 39
4/4.........................................40 – 41
2/4.......................................42 – 102
4/4......................................103 – 104
2/4......................................105 – 106
6/4.................................................107
2/4.................................................108
4/4........................................109 – 112
2/4.........................................113 – 133
4/4........................................134 – 137
2/4........................................138 – 147
6/4........................................148 – 156
2/4.........................................157 – 158

Nota-se aqui a semínima como unidade de tempo constante com uso de compassos binários e quaternários durante toda a peça, a exceção de um 6/4 no compasso 107 e entre os compassos 148-156, precedente aos dois últimos compassos em 2/4; mesmo tipo de compasso que inicia a peça.


BIBLIOGRAFIA:


BRITO, Maria Lenora M. de. Uma leitura da obra de Waldemar Henrique. 1. ed. Belém: CEJUP, 1986. p. 59-62.
HENRIQUE, Waldemar. Canções. 1ª ed. Belém: Secretaria de Estado de Educação do Pará, Fundação Carlos Gomes, 1996. p. 113-126.
TEIXEIRA, Elizabeth. As três metodologias - acadêmica, da ciência e da pesquisa. 5. ed. Belém: UNAMA, 2001. p. 53.55.
[1]Brito, Maria Lenora Menezes de Brito. Uma leitura da obra de Waldemar Henrique. Conselho Estadual de Cultura: Belém, 1986.

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