domingo, 12 de abril de 2009

A FORMAÇÃO DOS CANTORES LÍRICOS PARAENSES

Cantor lírico. Nome pomposo. Mas será que nós paraenses podemos sequer nos identificar como tal? Se levarmos a vontade (ou falta de vontade) de nossos professores, creio eu que não. A vontade da direção das duas escolas de música da capital deve ser descartada. O piano é o rei e a música instrumental a rainha.
Coloquemos na balança a estrutura dos cursos de canto ao qual nos submetemos por anos a fio, na fútil intenção de nos tornamos “artistas da expressão vocal”. Ora meus colegas, como podemos ter essa infame pretensão, se os nossos professores de canto estão totalmente preocupados com suas carreiras musicais e somente trabalham como professores para ter um ganha-pão mensal?
Qual o professor de canto de Belém que formará verdadeiros cantores líricos, se nem eles o são no sentido profissional mesmo da palavra? Ao se considerar suas vontades: a de cantar e não a de lecionar, vemos a situação gravíssima em que se encontra a formação lírica em Belém.
Um segundo ponto – importantíssimo – complica bastante a formação do cantor lírico em Belém. A já folclórica premissa de que só pode cantar aquele possuidor de bela voz (uma bonita também serve), cujo professor, sempre tomando como base a sua (que foi treinada na Inglaterra, Estados Unidos, Itália ou no quinto dos infernos) é quem define se o aluno tem ou não uma bela voz. E assim vários alunos de canto passam a perseguir esta bela voz tão almejada e depois de uns três ou quatro anos iniciais de estudo percebem que nunca terão a bela voz de um Placido Domingo ou Kiri te Kanawa. Desgraça total. Oh, meu mundo acabou; meus sonhos se esvaíram e coisas do gênero são gemidas, choradas e pranteadas pelos infelizes aprendizes da cantoria. Oh mundo cruel!
O que esses tapados alunos (e professores também) ainda não perceberam é o fato de que jamais serão possuidores das vozes estelares de Domingo e Kanawa, porque não são Domingo e Kanawa. São João, Maria, José, Raimundo ou Benedita. A única voz que podemos ter é a nossa e não a do outro. Nós cantores temos que nos espelhar em grandes cantores para, com eles, aprendermos o que de melhor esses artistas têm. Fraseado, controle respiratório, uso variado da projeção vocal, adequação da voz ao repertório etc., ou seja, captar a sua arte, a sua musicalidade, copiar a sua personalidade e assim processar todas essas informações a nosso próprio favor e a nossa maneira (personalidade). E assim, no fim das constas, sermos artistas completos, isto é, músicos que sabem se movimentar no seu repertório com desenvoltura e certeza no que fazem e fazê-lo bem. Só isso.
Um terceiro ponto. Como os professores de Belém estão preocupados com as carreiras de cantores e são forçados a trabalhar como professores, a frustação impera. E quem sofre com isso são os alunos que de fato querem cantar (do contrário não teriam procurado o curso de canto) e sem nenhum pudor ou ética são impedidos através de uma formação fraca, com exercícios cansativos e repetitivos que não produzem resultados nada satisfatórios na hora de cantar.
Quarto ponto. O descarado favoritismo dos professores por alguns alunos que desde o primeiro dia de aula são eleitos como os futuros cantores líricos paraenses. Aqueles que nasceram para cantar, brilhar, enfim, serem os queridinhos da corte. Para esses alunos, os professores dedicam as suas melhores horas, atenções, pretensões e informações na arte de cantar. Quanto aos pobres coitados que amam o canto, mas não foram escolhidos como príncipes, resta a amargura de serem deixados de lado, por um professor sem ética, que se comporta como empresário e acha-se no direito de determinar (dentro do curso) quem pode ou não ser cantor. Digo isso com propriedade, pois dentro do curso de canto fiz parte dos sapos e não dos príncipes, como a maioria dos meus colegas. Um fato a ser notado é que a maioria dos príncipes dos professores de canto de Belém acabam não dando em nada; somente porque esse mesmo professor esquecem de perguntar-lhes se eles, de fato, queriam ser cantores. Temos exemplos numa cantora belenense que desde o curso de canto sempre foi tratada como diva e assim se comportava. Estudou na Europa, cantou no Municipal de São Paulo e voltou à Belém para andar de ônibus e cantar de favor em algum coralzinho da cidade. Vida dura essa, não acham?
E os perebentos estudantes de canto despreparados pelos cantores, onde estão? Vários desistiram de cantar (o que foi uma grande perda para a música e o Pará), pois cantores que amam cantar são sempre de menos e nunca demais. Estão nos corais da cidade cantando incógnitos, mas cantando. Sem o devido preparo técnico. Não por culpa deles, mas certamente, pela dos professores; empresários que assolam Belém. Os que conseguem se formar no nível Técnico estão longe de agüentar com o repertorio operístico, pois não tiveram preparo para isso. Os seus ex-professores estavam mais preocupados em preparar seus recitais e concertos do que lhes dar aulas. Oh vida, oh zar.
E assim Belém vai vivendo e o tempo passando e a perda de vários cantores líricos paraenses vai aumentando pela falta de ética e engajamento dos professores de canto da cidade.

2 comentários:

  1. Perfeito, pude ver em seu texto uma descrição precisa do favoritismo que assola a arte paraense, como se fosse cada um por si, e o que tem a carinha de "POP" recebe o favoritismo porque pode trazer eventuais benefícios para seu empresário... digo professor.

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  2. Uma pena essa situação meu amigo. Me lembro quando tinha uns 20 anos minha professora de Canto erudito me disse que a voz é um processo de construção, começamos com um tijolinho depois veem a parede o alicerce e depois veem o desenvolvimento da voz em si. Eu moro no RJ e aprendi assim que a gente nasce com um potencial a ser desenvolvido e todos podemos desenvolver uns mais rápido e outro menos.
    Mais essa situação de preferencia não acontece somente no Pará infelizmente.
    O que precisamos é incentivo dos governantes e valorização dos profissionais nacionais, gastam uma fortuna com solista internacionais e enfiam os nosso profissionais nos corais da vida, isso é um absurdo, temos muitos profissionais capacitados a estrelar concertos e Óperas etc...VAMOS VALORIZAR NOSSOS PROFISSIONAIS!

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