LUCIANA TAVARES E DAVID MARTINS NA ETTORE BOSIO

O recital do casal Luciana Tavares e David Martins – ela: soprano, ele: pianista – apresentou-se na sexta-feira 06 de junho dentro do XXI Festival Internacional de Música do Pará, para o restrito público da faixa do meio-dia. O tradicional horário daqueles que têm fome de música continua sendo o horário dos recitais com meia-sala de lotação, mas sempre há algum ouvinte neófito, denunciado pelas palmas entre os movimentos; o que no balanço geral e sempre bom, pois o Festival também foi criado para trazer público novo aos concertos em Belém. Mas o nosso loiro casal de músicos deixou de lado a fome e serviram um banquete onde no menu constaram o ciclo Amor e Vida de uma mulher, Op. 32 de Robert Schumann, as canções do bailado A Floresta do Amazonas de Heitor Villa-Lobos e para finalizar as Cinco Canções Negras de Xavier Montsalvatge, cujo último numero foi servido como sobremesa. Os comensais da platéia aprovaram e pediram bis.
Luciana e David, que juntos me fazem lembrar um outro celebre casal de músicos – Joan Sutherland e Richard Bonynge – fizeram música de câmera com o rigor necessário ao gênero, mas nota-se o prazer de ambos na realização do repertório. Luciana continua com a voz límpida e aparentemente sem tensão, o que dá prazer de ouvir. Soprano lírico, já apresenta nos agudos, uma cor um pouco encorpada, talvez conseqüência da colocação e da própria força vocal exigida em várias passagens das canções apresentadas.
O ciclo de Schumann foi acompanhado da projeção em tela das respectivas traduções para o português dos poemas do ciclo que fala da vida de uma mulher do momento em que conhece o rapaz por quem se apaixona até a morte dele já como marido de todo a vida e sua conseqüente tristeza, o que dá ao último poema um tom fúnebre e trágico. Foi em momentos como esse que Luciana usou a voz com primazia, pois o escuro do piano fazia par com o escuro de sua voz.
Mais luminosas são as canções de Villa-Lobos, quase todas canções de amor apaixonado, típicas do gosto romanesco do brasileiro. Da contemplativa Cair da Tarde, passando pela alegre Veleiro e as dolorosamente apaixonadas Canção de Amor e Melodia Sentimental, Luciana e David foram primorosos no som apresentado. Qualificado, o som não foi demais nem de menos; somente achei a Melodia Sentimental um pouco rápida, o que lhe tirou o seu caráter de música de sofrimento amoroso. Mas no geral o ciclo foi muito bem interpretado.
No ciclo de Montsalvatge, todas as cores das cinco canções foram exploradas com muito bom gosto e aguçado tino musical pelo casal. Montsalvatge, compositor espanhol; que se ainda estiver vivo está com 96 anos, iniciou compondo bailados para a companhia Goubé-Alexander, tendo como inspiração Stravinsky, o Grupo dos Seis do neoclassicismo francês (Durey, Honneger, Tailleferre, Auric, Poulenc, Milhaud) e a música caribenha, passando depois para um estilo bastante eclético. Devido às evidentes cores espanholas usadas na partitura, suponho que a música espanhola tenha lhe servido de inspiração. Como sempre o destaque ficou com a última das canções – o Canto Negro, que certamente é latina, sendo cheia de gingado e malícia. Luciana foi primorosa na sua execução. E também muito charmosa, pois evitou as caras e bocas, que careteiras como Cecilia Bartoli adoram fazer quando interpretam essa canção. Nota 10 para um recital que merece bis.

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