domingo, 12 de abril de 2009

O TEATRO DA PAZ E SEUS OBJETIVOS

Após a ruína da Casa de Ópera, pensou-se em construir um novo teatro na então chamada “Cidade do Pará”, hoje nominada de Belém do Pará. A política provincial fez o processo se arrastar por décadas ate que o prédio destinado à nova casa de ópera fosse transformado no Palácio da Intendência Municipal, hoje, Palácio Antonio Lemos.
Enquanto isso, o prédio do Teatro Providência foi o único meio de diversão em Belém antes da construção do Teatro da Paz. No I volume de Música e o Tempo no Grão-Pará, Vicente Salles descreve como foi preciso fazer muita “política” para o nosso estimado teatro ganhar vida.
Uma das justificativas usadas foi a assertiva de que uma capital de província necessitava de um grande teatro para ser uma cidade com ares de metrópole e mesmo porque o velho Providência já não mais acomodava a contento a crescente população de Belém.
Mas para construir um teatro de grandes proporções sempre é necessário muito dinheiro; e para mantê-lo funcionando também.
As discussões foram e voltaram até que o novo teatro estatal teve sua aprovação e foi inaugurado em 15 de fevereiro de 1878 com proporções gigantescas à época. Em um estilo arquitetônico luxuoso (porém, com erros estilísticos), mas ainda sem a bela decoração de De Angelis.
A riqueza da borracha proporcionou fausto a Belém e, por ventura, ao seu teatro. Companhias estrangeiras vinham nele se apresentar. Artistas de renome internacional pisaram o seu palco. Ana Pavlova, Tamara Toumanova, Jascha Heifetz, Bidú Sayão nele receberam aplausos do público paraense. Mas um fato curioso toma de assalto a vida do Teatro da Paz – o fato dele nunca ter possuído companhias artísticas efetivas. É sobre este curioso aspecto que versaremos neste ensaio.
Atualmente, no início do século XXI, o Teatro da Paz conta com um Festival de Ópera, é o principal palco do Festival Internacional de Música do Pará, é alugado para sediar o Encontro Internacional de Dança do Pará e o Festival Internacional de Dança da Amazônia, promovidos pelas escolas das Professoras Clara Pinto e Ana Unger. Promove concertos mensais de sua Orquestra Sinfônica entre outras apresentações de grupos de câmera. Mas o curioso é que nenhum desses grupos são órgãos estatais legitimamente estabelecidos. A OSTP há mais de 10 anos se mantém como um serviço criado pelo ex-secretário executivo de cultura do Pará, Paulo Chaves, e não há sinais de que venha a ser legitimada como um órgão estatal paraense.
Vários regentes já passaram por ela e somente agora nas mãos de Mateus Araujo ela ganha mais unidade e personalidade. Mas ainda sofre com a falta de músicos profissionais efetivos, com bons salários e uma programação anual mais consistente.
O grande mote é que a OSTP necessita ser firmada no organograma estatal paraense como um órgão efetivo, com verba própria, com músicos, regentes e corpo administrativo efetivados através de concurso público para que ela funcione sem a preocupação de terminar de uma hora para outra ao sabor das rivalidades político-partidárias que assolam a política brasileira.
Continuemos a tomar como base o Festival de Ópera. Legitima casa de ópera, chegando a imitar o Scalla de Milão em sua fachada, o Teatro da Paz nunca teve uma companhia lírica efetiva, dependendo das estrangeiras que aqui vinham para se apresentar e dos próprios músicos locais, que sempre com grande esforço, nele realizam apresentações esporádicas, e talvez por isso, muito concorridas.
Para ser teatro de ópera são necessárias grandes efetivos que não podem existir abaixo da vontade política, mas sempre devem estar acima dela, diretamente ligados ao povo, seu legítimo dono, no caso de um teatro estatal. São necessários um piano para ensaiar os solistas, o coro, o corpo de baile. A orquestra, os solistas, o coro, o corpo de baile são órgãos independentes sediados nesse teatro para dar vida às temporadas líricas, mas também devem ter suas próprias temporadas, pois nem só de ópera o teatro viverá.
São necessários bailados, concertos sinfônicos, obras sinfônico-corais, recitais e concertos de solistas ao piano ou com a orquestra etc. Isso faria do Teatro da Paz o teatro de metrópole para o qual foi construído, mas a falta de vontade política (pois vontade musical os músicos e o povo paraense têm) impede-o de ser.
As políticas paraenses estão penalizando Belém no todo e não em parte. Atualmente, há quem chame Manaus de Metrópole da Amazônia e o Festival de Ópera de lá é mais conhecido e totalmente vanguardista em relação ao nosso. No sul e sudeste do Brasil, Belém ainda é a terra distante e nada prometida onde índios e jacarés fazem a festa nas ruas e o caucasiano ainda é chamado de homem-branco (não riam crianças que o assunto é sério).
Fiquei horrorizado na época da elaboração da minha monográfica ao descobrir que somente na década de 1930 o Teatro da Paz passou a ter um piano efetivo para concertos nele realizados. Antes os pianos eram emprestados por particulares para a realização dos concertos. O professor Mário Neves, para se apresentar, tinha que levar seu próprio piano para o teatro. Mais de 50 anos de sobe-e-desce de piano é uma imensa vergonha para um teatro estatal.
Mas o nosso amor pela ópera em particular e pela música em geral, de certo modo, ofusca a imensa vergonha de, após 129 anos, o Teatro da Paz não ter uma companhia de ópera efetiva e assim nos proporcionar trabalho, e para o público, música e discussão diversificada durante todo o a ano.
Este manifesto é a minha maneira de cobrar do governo estatal paraense a efetivação dessa companhia e a abertura de postos de trabalho para os músicos paraenses em particular e os não paraenses em geral.
O Pará deve deixar, por enquanto, de ser um estado exportador de grandes músicos, pelo vergonhoso fato de eles aqui não terem onde trabalhar; a não ser como professor-rabo-preso no Conservatório Carlos Gomes, que é outra vergonha paraenses por não ter em seus quadros professores efetivos.
Portanto, artistas paraenses, apontem o dedo na cara de quem é devido, pois temos um atraso de 129 anos e merecemos um verdadeiro Teatro de Ópera no estado. Eu acabo de apontar o meu.
[1] Para maiores detalhes pesquisar minha monografia O VÔO DA FÊNIX – MÚSICA NOS TEATROS DE BELÉM (COLÔNIA, IMPÉRIO, REPÚBLICA) nas bibliotecas do CCSE/UEPA e Biblioteca do museu da UFPA.

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