A RETOMADA DE O GUARANY

Duas décadas se passaram. Niza Tank está aposentada. Plácido Domingo estrelou a já clássica retomada no circuito internacional; para depois amargar uma estréia desrespeitosa nos Estados Unidos, onde um crítico tendencioso acusou Gomes de plagiar Verdi e o público rio ao invés de se emocionar. São Paulo fez uma montagem simples e sem ostentação veiculada nacionalmente pela TV Cultura.
Duas décadas se passaram. O governo do PSDB criou o Festival de Ópera do Teatro da Paz e usou dinheiro público paraense para montar óperas que acabaram ficando nas mãos de Cleber Papa e da São Paulo Imagem Data; que agora se chama Casa da Ópera. Todo mundo ficou feliz. Afinal de contas, depois de décadas, o Teatro da Paz voltada a ter uma temporada regular de apresentações operísticas. Teatro lotado. Mas um alto preço para o erário paraense e para o nosso povo também; que afinal de contas não é o dono das mais de 10 óperas montadas no já falecido festival a que me referi acima.
Pois a falta de continuidade política agora veio para o nosso bem e não para o mal. Saíram os tucanos e entrou a turma da foice e do martelo, capitaneados pela governadora Ana Júlia Carepa (finalmente ela chegou lá!).
Pois bem, sai o Festival de Cleber Papa (e isto não é eufemismo) para entrar o Festival de Ópera da Amazônia (tadinhos dos amazonenses, ha-há!) e agora o governo faz o que já deveria ter feito, isto é, gastar dinheiro paraense naquilo que pertencerá aos paraenses. E o primeiro resultado disso é a retomada de Il Guarany de Antônio Carlos Gomes para o palco que sempre a endeusou, junto com seu criador. E mais, podemos dizer agora: - Essa montagem é realmente nossa, assim como as outras que virão.
E que montagem. A cenografia e direção cênica de William Pereira mais a direção de Roberto Duarte fizeram A RETOMADA que Il Guarany, a ópera italiana mais brasileira do repertório, merece. Morram de inveja os amazonenses, mas nós paraenses sabemos fazer o babado, e fortíssimo, pois força não faltou a essa montagem. Totalmente atualizada às possibilidades cênicas ofertadas atualmente, com uma concepção cênica de gênio e o melhor elenco visto até agora nos festivais, o nosso Il Guarany merece com justiça uma nota 10. E com louvor!.

OS SOLISTAS

Richard Bauer fez um Pery tipo exportação. Plácido Domingo certamente o aplaudiria. Mario del Monaco, outro grande Pery, não ficaria vexado perante um verdadeiro tenor dramático di forza; tipo vocal rarefeito hoje em dia. Rolando Villanzon que o diga. Voz organizada, brilhante, forte, projetada, passaggio bem resolvido. Em suma, uma voz para ficar, e que vale o ingresso.
Adriane Queiroz fez uma Cecília cenicamente adorável, mas particularmente acho que sua voz já não se adéqua ao repertorio lírico de coloratura, devido ao encorpamento natural causado pela idade. Seus ornamentos saíram pesados e os hiper-agudos foram substituídos por notas mais graves. Afinal de contas Cecília é para soprano coloratura. Com a voz no amadurecimento atual Adriane está mais indicada para os sopranos russos: Tatiana (Eugênio Oneguin), Liza (A Dama de Espadas), Yaroslavna (Príncipe Igor), Lyudmila (Russlan e Lyudmila) e para os sopranos lírico-dramáticos de Richard Strauss: Salomé, Ariadne; e com a experiência obtida nos lieder, talvez fosse uma excelente Arabella. Mas estas são as minhas conjecturas.
José Galissa foi um D. Antonio respeitável e de boa presença cênica. Para mim falta mais brilho a sua voz, mas certamente é uma grande voz. Não sejamos por demais exigentes; afinal de contas não é todo dia que nasce um Theo Adam. Citar Boris Christoff é covardia.
O barítono Manuel Alvarez também se destacou como Gonzales, embora a ambição desmedida de Loredano (nome original da personagem) e seu desejo carnal por Cecília tenham sido por demais amenizados no libretto e a música escrita para ele o deixe mais para mocinho que para vilão. Que barítono não gostaria de ser o vilão só para cantar a Canção do Aventureiro? Eu sou um deles.
As participações dos tenores paraenses Atalla Ayan como Álvaro e Jeferson Oliveira como Ruy-Bento devem ser destacadas. Não por serem nossos conterrâneos, mas por serem grandes promessas do canto lírico paraense. Se é para gastar dinheiro público com um grande tenor, gastemos primeiro com os nossos para depois gastar com os dos outros. Já que temos os ingredientes, está na hora de o governo Ana Júlia pensar seriamente em criar a Companhia Estatal Paraense de Ópera. Os ingredientes estão todos disponíveis. Como já escreveu Acyr Castro é só fazer a “panelada à paraense”.

ROBERTO DUARTE

O grisalho regente paulista, nunca escondeu que é melhor reger na Europa que no Brasil por uma questão de logística. Lá já está tudo pronto e as orquestras dão conta do recado. No Brasil ainda é necessário arregimentar e preparar tudo às pressas. Faltam mais investimentos públicos e os privados quase não existem. Fazer música erudita no Brasil é, ainda, coisa para heróis da resistência. Mas Duarte, ainda bem, aceitou o convite do governo paraense para reger Il Guarany. E ofertou-nos um deslumbre musical.
Conheço o Guarany desde a adolescência pela gravação com Niza Tank, acrescida pela feita ao vivo em Bonn na retomada feita por Domingo. Para quem já ouviu as duas gravações, ao ouvir a versão de Duarte veio a surpresa: compassos nunca ouvidos antes foram executados para a nossa grata surpresa. O bailado, suprimido na retomada alemã, teve execução integral e coreografia pop de Ana Unger, no seu melhor trabalho coreográfico até agora. E olha que Ana está longe de ser uma grande coreógrafa. Mas dessa vez acertou a mão. Ouvi algumas reclamações sobre a coreografia, mas convenhamos: botar índio brasileiro para dançar música européia é trash e forçassão de barra.
A minha maior preocupação era com a regência da protofonia. Escaldado depois da péssima leitura de John Neschling e acostumado com a gravação de Benito Juarez, tinha pavor de o sinfonismo da protofonia ir, de novo, para o beleleu. Mas não foi o que aconteceu. Duarte tirou o sinfonismo posto por Gomes na partitura. Sua leitura teve força, brilho, dinamismo. Mas a achei um pouco apressada no tema do dueto de amor, assim o lirismo do trecho ficou um pouco prejudicado. Mas não comprometeu o resultado final. A regência da ópera na íntegra foi um luxo só, realizada com o pulso firme e a experiência de um regente internacional com vários CDs gravados no exterior.
Agora é esperar a edição da ópera em DVD e rever esta montagem histórica sempre que a saudade bater.

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