Russos encerram a série Concertos para Belém

Realização da Musikart Produções, a série Concertos para Belém, sempre realizada no Arte Doce Hall de propriedade da professora Glória Caputo, chegou ao fim na noite de 29 de abril último e já deixa saudade. Muita saudade. Talvez a série volte para uma segunda temporada a partir de agosto deste ano, mais é apenas uma promessa que esperamos se realizar.
Patrocinado pela Vale, a série trouxe à Belém grandes nomes da música erudita do circuito internacional como os irmãos Sérgio e Odair Assad, violonistas brasileiros de fama internacional. Leila Guimarães, o soprano carioca de grande destaque no mundo operístico atual, a nossa Adriane Queiroz solista da Ópera Alemã de Berlim e que já se apresentou até com Sir Simon Rattle, um dos maiores regentes da atualidade e também abriu espaço para jovens talentos em início de carreira como o igualmente nosso, o tenor Atalla Ayan que deu um grande recital em janeiro deste ano. E foi com dois novos talentos vindos da Rússia que a série encerrou: o ciellista Alexander Zababurkin e o pianista Maxim Shatalkin.
Com sala lotada, os dois apresentaram um recital com Beethoven, Brahms e Myaskovsky no programa. Três sonatas para cello e piano que cobriram um século e meio de música. O duo foi formado em 2002 e no ano seguinte passou a ser orientado pelo professor Bonduryansky. O duo já recebeu dois primeiros prêmios em concursos internacionais: no XV Concurso Thessaloniki de Música de Câmera na Grécia em 2005 e no Concurso Internacional de Duos da Suécia, 2006. Mal iniciaram a carreira e já estão premiados.
Os dois na casa dos vinte, Maxim com 26 e Alexander com 25, mostraram porque receberam os primeiros prêmios: som volumoso e limpo, leitura camerística precisa, porém, como são russos e têm Tchaikovsky no sangue não deixaram de levar as obras para o lado sinfônico, o que não foi demais, já que o vigor das sonatas de Beethoven e Brahms requer um volume sonoro pouco comum na música de câmera. Já Myaskovsky, que viveu entre 1881 e 1950, deixou o sinfonismo de lado já que ele não estava na pauta dos compositores de sua época, ao contrário dos dois alemães.
O programa foi apresentado sem intervalo de modo que a avalanche sonora tomou conta do público que ovacionou os músicos ao final do recital. O programa foi assim distribuído: Beethoven: Sonata para piano e cello nº 4 em dó maior, Op. 102 nº 1; Brahms: Sonata para cello e piano nº 1 em mi m, Op. 38; Myaskovsky: Sonata para cello e piano nº 1 em dó maior, Op. 12.
A sonata de Beethoven está estruturada em dois movimentos, mas que formam perfeitamente quatro partes, devida a mudança de andamento. O primeiro movimento inicia em um Andante para depois se transformar em um Allegro vivace. Beethoven desse modo inverteu a ordem dos movimentos da sonata clássica: ao invés do rápido – lento fez lento – rápido. A mesma estrutura foi trabalhada no segundo movimento, porém dessa vez no lugar do Andante um Adagio foi usado para acabar em um Allegro vivace. Uma estrutura binária nos movimentos que somados deram as quatro partes da sonata clássica tradicional. Renovou sem renegar o passado. Grande Beethoven!
Já Brahms que viveu boa parte da vida sob a sombra do legado de Beethoven, não talvez não seja exagero dizer que sob a sombra do próprio mestre, escreveu uma sonata em três movimentos nos moldes clássicos: I- Allegro non troppo, II – Allegretto quase Menuetto, III – Allegro. Uma sonata fantasia, portanto, já que está ausente o movimento lento. Sonata vigorosa do início ao fim exige muito do braço do ciellista e dos dedos do pianista. Lembremos que o próprio Brahms acompanhava suas obras camerísticas ao piano, e o que era fácil para ele, era difícil para a maioria dos pianistas, já que ele era um virtuoso em seu instrumento. Dificuldades técnicas a parte o Duo foi primoroso na execução dessa sonata. Música romântica sóbria sem ser pesada, mas cheio de violentos sentimentos, é apaixonada acima de tudo. Apesar da pouca idade os dois músicos russos conseguiram decifrá-la a contento.
Myaskovsky nasceu no limbo entre o romantismo tardio e agonizante e o modernismo nascente e birrento e decidiu-se pelo primeiro como fizeram outros colegas seus da Rússia pré-revolução, isto é, nada de renovações escabrosas e cerebralismos musicais entediantes. Ficaram com a força da melodia tonal, que se bem estrutura, ainda faz muito efeito nos sentimentos alheios. Mas parece que previa as reviravoltas políticas futuras de seu país e a sempre comum agitação do fin du siècle deixaram marcas profundas nele e em sua música. Sua sonata lembra a de Beethoven na estrutura, somente dois movimentos com estrutura binária nos movimentos que somados dão as quatro partes da sonata clássica. Sonata fantasia assim estruturada: I. Adágio – Andante, II. Allegro passionato – Adagio. Ao contrário do apressadinho Beethoven, sua sonata é lenta, cheia de graves (típicos da fala russa), acordes pesados e escuros no piano contrastam com o cello, hora escuro, hora claro; assim como o piano também alterna nos claros e escuros, fazendo do primeiro movimento um ótimo acompanhamento para um quadro de Caravaggio. O segundo movimento dá um pouco mais de mobilidade à música, porém faz jus ao seu “passionato”. Gritante na paixão impressa em suas páginas, ele é como uma imensa declaração de amor daqueles apaixonados que acham pouco sair à janela e gritar eu te amo. Com tantos sentimentos aflorando a execução dessa sonata requer músicos capazes de senti-la com profundidade. Se os dois não tinham tais sentimentos é evidente que conseguiram encontrá-los.
O recital teve dois bis: Requiebros de Gaspar Cassado, cheia de espanholismo que encantou o público e um Andante de Rachmaninoff, mais sossegado e que avisou ao público que o recital e a série tinham chegado ao fim. Se dependesse do público os dois continuariam.

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