sábado, 20 de junho de 2009

OSTP, MATEUS ARAÚJO E A NOIVA DE SKATE

Ontem à noite, 19 de junho de 2009, com quase meia-hora de atraso – o concerto estava marcado para às 20:00 hs –, Mateus Araújo regeu mais um concerto a frente da Orquestra Sinfônica do Teatro da Paz – e segundo fontes confiáveis, o seu penúltimo concerto a frente da orquestra paraense. No programa, as Bachianas Brasileiras nº 5 de Villa-Lobos, três movimentos da suíte orquestral Sonho de uma noite de verão de Mendelssohn-Bartholdy e Sinfonia nº 6 “Patética” de Tchaikovsky. Concerto vistoso que prometia muito e cumpriu somente a metade, devido ao visível descontrole na regência de Mateus Araujo. A orquestra fez o que pôde por conta dos bons músicos que há nela; e eles foram responsáveis por segurar a onda que faltou ao regente durante a apresentação.

Mateus apresentou uma regência afetada nos gestos, pouco funcionais e de técnica duvidosa. Tanto Villa-Lobos quanto Mendelssohn-Bartholdy tiveram regências fracas, nem um pouco centradas e com leituras fora do eixo. Resultado: derrapadas de todos nas Bachianas, sobretudo, no segundo movimento: o Martelo. Luciana Tavares, que solou as Bachianas, visivelmente se atrapalhou durante o difícil segundo movimento. Não se sabe quem errou: se ela ou se os músicos, por conta da regência celerada de Mateus.

Em relação a interpretação de Luciana Tavares sou suspeito para comentar pois sou um confesso fã desse soprano. Luciana tem voz bem preparada, organizada (um bom passagio e igualdade entre graves e agudos), uma projeção considerável, a voz é encorpada e sua interpretação é centrada, sem afetação. Por tudo isso, fiz questão de assistir ao concerto dessa noite: o primeiro de dois, já que o segundo, na noite do dia 20 seria solado por Dione Colares; que está longe de ser uma Luciana Tavares. Em relação às Bachianas º. 5, a apresentação poderia ter sido excelente, se não fosse pela derrapada de Luciana durante o Martelo e dos ritmos mal executados pelos músicos: liderados pela já citada regência celerada de Mateus e com um agravante na minha particular opinião: o fato de Luciana ter cantado de cor; o que no caso do difícil Martelo é sempre muito perigoso, tanto para sopranos brasileiros quanto mais pelos estrangeiros. No final da conta, noves fora, o nível não passou de regular, quando se tinha tudo (soprano e violoncelistas) para a execução ganhar um excelente. Fica para uma próxima vez. Embora no ano do centenário de morte de Villa-Lobos as execuções deveriam ser minimamente boas.

A primeira parte do concerto, finalizada com a célebre suíte de Mendelssohn deu continuidade a sucessão de erros e regência desagradável. Embora a execução não tenha sido de todo desastrosa, tocar uma peça conhecida por todos com displicência é um verdadeiro suicídio musical. Todavia, nesta obra Mateus não errou sozinho, e também sozinho não ficou na displicência, ajudado que foi nesse ponto pelos trompetes – que tendo uma crise de trompistas – resolveram desafinar na Marcha Nupcial visivelmente desconfortáveis na execução dessa linda obra do germaníssimo Felix. Por conta disso, um colega músico disse que a noiva entrou na Igreja de skate, aos trancos e barrancos, devido à fraca execução da Marcha Nupcial, resultando em uma execução bem abaixo do esperado. Mas a Abertura foi elevada e com as madeiras dando conta das notas iniciais. Sopro firme e sem medo de ser feliz como convém à introdução dessa suíte, considerando-se que a simples desatenção dos instrumentistas arruína essa frágil e quase minimalista introdução. As cordas da OSTP – após um ano sem ouvir essa orquestra – pareceu-me mais maduras: creio eu pela qualidade de muitos músicos novos que vi nela. Paulo Keuffer é um grande violinista e também deve ser um bom spalla, considerando a inabalável unidade das cordas, sobretudo os violinos, que parecem não se deixar levar para crises de loucura do regente ou de seus gestos muitas vezes desnecessários. Dentre os três movimentos apresentados o Scherzo foi, de longe, o melhor pela firmeza na execução, tanto pelas cordas quando pelos sopros. Pelo caráter ligeiro da obra Mateus deve ter encontrado vazão para os seus nervos agitados nessa noite. Felizmente o sonho de Mendelssohn não se tornou o nosso pesadelo. Entre altos e baixos, a execução também ficou no regular.

Mas nada como um bom intervalo para por os nervos em ordem e as idéias no lugar e a culpabilidade sexual de Tchaikovsky posta em música para colocar os músicos no eixo, sobretudo o regente, que voltou do intervalo transformado e apresentou uma Patética emocionante, nervosa, agitada, dramática e barulhenta. Tudo aquilo que o protegido de Nadejda Von Meck de forma consciente e inconscientemente pôs na partitura. Até os trompetes resolveram ajudar na execução. As cordas foram impecáveis, bem como a maioria dos sopros, embora se tenha notado um certe nervosismo aqui ou ali de um ou outro instrumentista de sopro. O clarinete cantou melodiosamente e seus pianíssimos foram todos audíveis. Porém, nos momentos mais dramáticos e de tutti orquestral no primeiro movimento, houve um certo descompasso entre as madeiras e as cordas: coisa para o regente resolver com muito mais ensaios e apresentações dessa fantástica sinfonia tchaikovskyana, que nunca é demais ouvi-la de novo e que sinceramente nunca pensei que seria executada em Belém. Feliz surpresa. Esta foi a única apresentação realmente boa do programa, mas em outras apresentações – com a orquestra mais amadurecida na sua execução – pode alcançar o brilhantismo.

Mateus Araújo me surpreendeu quando executou como primeiro bis a abertura da trilha sonora de Uma Nova Esperança, episódio quatro da saga Guerra nas Estrelas, tal qual foi composta por John Williams. Cinéfilo como sou fiquei felicíssimo com a execução que, descontando a introdução embolada, foi ótima. Para finalizar uma fantasia baseada no Hino Nacional Brasileiro de autor que me é desconhecido.

2 comentários:

  1. Querido, segundo soube, o arranjo do Hino Nacional, é do propio Mateus. Coisa que ficou sobrando no concerto. Alias todos podiamos ser poupados dos Bis, pois depois da 6 de Tchaikovsky, não é necesario mais nada.
    Um beijo.
    Maria Antonia.

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  2. Meu Caro Crítico:
    Tomei conhecimento de suas notas sobre a apresentação da OSTP da sexta,22.06. Fico feliz por suas observações confessionais das interpretações ofertadas pelo Regente Mateus Araújo e pela Orquestra.A soprano nas Bachianas no.5, foi muito bem , inclusive na sua pontuada acidez quanto ao martelo, somente audíveis à sua erudita conformação. Cumpre observar que , como serve à memória,ouve-se apenas o que quer ouvir-se, trata-se portanto de memória auditiva, sob a concepção psicanalítica de memória,como deve também já ter sido objeto de estudos de sua leitura para sua tese de doutoramento.A concepção de verdade abordada na análise interpretativa da obra de Mendehlsson é contradita pela manifestação de outros observadores da récita. Falhas não são erros e apenas como sugestão,observe-se as condições de trabalho da orquestra,como noticiado pelos jornais e contraposto pelo Prof.Edilson Moura , Secretário de Estado de Cultura.Há necessidade de abstração para o exercício da crítica e esta não deve limitar-se apenas ao visível ou ao audível, mas também às condições objetivas e subjetivas para o exercício de trabalho sério e respeitável desenvolvido por compositores, músicos,produtores,diretores de teatro,bilheteiros, lanterninhas, e até mesmo pelo Maestro.

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