OSTP ABRE TEMPORADA 2008

Nas noites de 24 e 25 de abril a Orquestra Sinfônica do Teatro da Paz e seu regente
Mateus Araújo deram início à temporada 2008 da orquestra. Executaram Rossini, Mozart,
Ravel e Liszt com a participação de dois solistas convidados: o violista Marcelo Jaffé,
integrante do Quarteto da Cidade de São Paulo e a violinista Betina Stegman. Com um mês
de atraso, já que esperávamos a temporada ser iniciada em março como é de costume, o
concerto fez a première belenense da maioria das obras, com exceção da Sinfonia
Concertante para violino e viola de Mozart que já havia sido executada em Belém no
concerto de encerramento do 2º Festival Internacional de Música de Câmera do Pará em 28
de maio de 1989, também no Teatro da Paz, sob a regência do cubano Manuel Duchesne
Cuzán.
A OSTP mostrou amadurecimento e, sobretudo, entendimento das intenções
musicais de Mateus Araújo. Mateus vem crescendo muito como regente provando que é
regendo que se torna um verdadeiro regente; é Mateus é um dos bons. Mas bom mesmo precisa ficar o piccolista que arranhou uma apresentação que tinha tudo para ser uma
entrada perfeita para a temporada, em um programa de concerto pra lá de pai d’égua.
Iniciando com a abertura da ópera Semiramide de Giochino Rossini, o “velho rococó”,
Mateus e a orquestra foram primorosos nos crescendi, que no fim das contas são a melhor
coisa da abertura e uma das especialidades de Rossini: vide o crescendo da abertura de A
Gazza Ladra. Mas se as cordas da orquestra andam muito bem obrigado, o mesmo não se
pode dizer dos metais e madeiras cujos membros do flautim e da trompa anda dando
arranhões homéricos nas suas partes. Sergiu Celibidache detestava gravações em estúdios,
dizendo que nada substitui a música feita ao vivo na sala de concertos. Estava certíssimo. Ao
revisar as gravações no gravador digital tenho a sensação de que gravei um concerto
totalmente diferente ao que assisti e nela não percebo com muito clareza as falhas de alguns
músicos ou passagem, como percebo ao ouvir a música ao vivo. Mas desta vez não ouve
escapatória, até o gravador digital percebeu as derrapadas do flautim e da trompa; que
certamente precisam estudar mais técnica para não darem as mancadas dadas durante o
concerto. Mas ainda bem que nesta abertura Rossini não deu destaque para a trompa, mas
deu para o flautim. Não que ele tenha sido mal executado de todo, mas visivelmente
ouvíamos que em algumas passagens faltava dedo e sobrava mancada.
Mozart, que em 1989, foi executado com acompanhamento de uma orquestra de
cordas, desta vez teve uma orquestra completa para dar vida à Sinfonia Concertante para
violino e orquestra, uma de suas obras mais executadas e gravadas nos últimos anos no
planeta todo. Simpática como é normal para uma música clássica (do classicismo! do
classicismo!) esta obra contou com os solos de Betina Stegman e Marcello Jaffé que
pousaram no Da Paz exclusivamente para executá-la. Eles deram à ela uma execução correta
com um bom acompanhamento da orquestra e uma regência equilibrada de Mateus Araújo.
Esta Sinfonia Concertante de Mozart parece, tecnicamente, não assustar os intérpretes e
para mim não figura na lista da obras mais brilhantes do salzburguês, mas certamente ela
possui passagens de algum brilho no primeiro movimento. Seu segundo movimento é mais
pesado e circunspecto que outros andantes mozartianos, mas ele capta o ouvinte pela
beleza da sua música. Mas brilho mesmo, encontramos no terceiro movimento: este sim é
uma festa. Os contrastes entre claro e escuro do violino e da viola foram trabalhados com
entusiasmo pelos solistas e a sonoridade da orquestra foi plenamente uniforme. Marcelo Jaffé, que apesar da sua cabeleira de roqueiro, é um violista erudito de grande talento, sabe
tirar brilho de sua viola deixando claro que, nesta obra, a viola não é coadjuvante. Betina
Stegman soube como combinar o brilho de seu violino com a viola de Jaffé, mais o brilho da
orquestra, a Sinfonia Concertante de Mozart teve excelente reprise, somente prejudicada
pelo deslizes das trompas e do flautim. Nota nove por isso!
Abrindo a segunda parte do programa, a melancólica Le Tombeau de Couperin de
Maurice Ravel foi outra estréia em Belém. Sílvia Ricardino voltou especialmente para
executar a harpa, já que o Pará não dispõe de tal instrumentista. Novamente uniformidade
de som, um andamento correto, a melancolia impressa por Ravel, a luminosidade da
orquestração e as madeiras fazendo muito bem o seu trabalho, somadas a regência
controlada de Mateus foram decisivos para uma estréia em grande estilo desta feérica obra
de Ravel.
Como grand-finale tivemos a estréia do poema sinfônico nº 3 de Liszt, o célebre Os
Prelúdios, sobre poema de Lamartine. Obra sinfônica de grande envergadura arrebatou o
público que não queria deixar a orquestra sair no final do concerto, mas infelizmente não
ouvi bis. Mateus Araújo e a OSTP foram nota 10 na execução. Todas as cores de Liszt do
escuro da introdução temática até o brilho heróico do motivo da segunda secção, passando
pelo desenvolvimento temático nas cordas, mais uma boa ajuda das trompas (que
resolveram acordar no final do concerto), a estréia desse poema lisztiano foi uma excelente
finalização para o concerto de abertura 2008 da OSTP. Merece vários bis.

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