SÉRIE CONCERTOS PARA BELÉM

Desde o ano passado a Vale tem patrocinado uma nova série de concertos em nossa cidade denominada Concertos para Belém. Realização da Musikart Produções e com apoio do Ministério da Cultura e da Lei de Incentivo à Cultura. A nova série que é sempre apresentada no Arte Doce Hall de Glorinha Caputo tem trazido à Belém músicos residentes no exterior de várias nacionalidades, incluindo brasileiros, boa parte deles provenientes da Europa (sempre ela!). Contabilizando-se a eles os músicos paraenses residentes aqui mesmo em Belém. São músicos de carreira já em andamento – alguns já consagrados internacionalmente como os irmãos Assad – outros ainda em início de carreira como o nosso tenor-promessa Atalla Ayan.
Pois Atalla deu o primeiro dos três concertos da série a que assisti até o momento no Arte Doce Hall. Atalla que é tenor iniciante mais de muito boa voz deu um ótimo recital para quem está, ainda, em início de jornada, mas mostrou também que ainda necessita de amadurecimento na escolha de repertório: coisa normal para a idade dele.
Iniciou cantando os alemães Richard Strauss e Schumann. Ambas pesadas e arrastadas, sobretudo, o Widmung schumaniano. Demonstrou gostar dessas canções, mas deixou claro que o seu espírito não casa bem com os germânicos. Falta na sua interpretação aquele tesão natural que sentimos quando o cantor sente o que está cantando. Foi uma interpretação técnica, mais fria. Mas porque afirmo isto? Por que logo depois vieram os italianos. Aí a coisa mudou (muito) de figura.
Conhecendo Atalla pessoalmente sei bem da sua natural paixão pelos italianos, sobretudo, Puccini e La Bohème. A naturalidade ausente nos alemães nem de longe esteve presente nos italianos, naturalíssimos como só mesmo um cantor que se identifica plenamente com eles pode interpretá-los. Cantou Tosti, Donizetti, Cilea e Verdi. Logo de cara interpretou L’alba separa dalla luce l’ombra (A aurora separa da luz a sombra) de Tosti. A sua interpretação foi pura paixão, dando plena vida a paixão musical impressa por Tosti na partitura, tanto que o público (maravilhado) aplaudiu antes do final, conquistado que foi pela música e pela sua interpretação. Parecia que eu estava nesses concertos de música popular onde o público aplaude a toda hora. Em seguida Angelo casto e bel (Anjo casto e belo) de Donizetti, E la solita storia del pastore (E a habitual estória do pastor) de Cilea e La mia letizia infondere (O meu infundido regozijo) de Verdi foram cantadas com primor e verdade. O tesão pelos italianos estava sempre lá, presente. Os alemães já tinham sido esquecidos, também, pudera com tanta afinidade com os italianos e tanto paixão impressa nas interpretações de suas obras e claro que os alemães ficaram para traz.
Na segunda parte iniciou com três brasileiros: Villa-Lobos (Lundu da Marquesa de Santos), Alberto Costa (Canto da Saudade) e Waldemar Henrique (Fiz da Vida Uma Canção). As três foram bem interpretadas, mas a brejeirice do Lundu caiu um pouco para o pomposo europeu e uma colocação operística da voz, o que mostra que Atalla ainda precisa aprender a diferenciar canções de câmeras de árias operísticas e mergulhar um pouco mais na música brasileira e seu caráter particular, pois aqui estamos lidando com Villa-Lobos, que é o Brasil posto em música, sem deixar as linguagens de vanguarda de sua época de fora. Talvez isso, a meu ver, é que fez Villa-Lobos o mais internacional entre os nacionalistas brasileiros. Cantar a nossa música para o nosso povo é sempre complicado, pois a música dos estrangeiros está impregnada de sentimentos estrangeiros que sempre serão estrangeiros para nós, mesmo que haja muito identificação nossa com elas. Já a brasileira somos nós. E foi nesse ponto que a interpretação do Lundu falhou para mim: ele não foi plenamente Brasil. Tinha algo de europeu na interpretação que eu nunca senti na música de Villa-Lobos. Um tom europeu pode ser dado às canções de Costa e Henrique. O Canto da Saudade de Costa mistura aquele romantismo brasileiro que ainda deve muito aos europeus e a valsa de Waldemar tem um sotaque de Brasil com uma suave nostalgia da Paris Tropical que era Belém na Belle Époque. Nessas duas a interpretação foi correta, sobretudo, na canção de Waldemar. Nem lenta demais, nem acelerada. Com uma marcação regular, praticamente um adagietto, Atalla tirou tudo o que podia tirar de apaixonado, belo e sentimental dessas canções waldemariana que é um canto de amor que há muito não se fabrica mais no Brasil.
Pourquoi me rèveller? Foi boa nas ainda precisa de amadurecimento. Para isso é só continuar cantando. La Donna è móbile inacreditavelmente não arrancou aplausos entusiasmados do público, o que me deixou surpreso. A interpretação foi boa, mas Atalla já a cantou melhor. A seguir, anunciou-se no programa a ária “Por el humo” da zarzuela Doña Francisquita de Amadeo Vives. Esperei impacientemente por essa ária, pois seria a primeira vez que ela seria interpretada em Belém, mas Atalla cometeu o crime capital de substituí-la pela já batida “No puede ser” da Tabernera del Puerto de Pablo Sorozábal. Tudo bem, minha vontade foi de esganar Atalla por essa troca, mas como No puede ser é uma bela ária o perdão foi dado, mas fica a cobrança de em um próximo recital ela seja obrigatoriamente apresentada. No fim da contabilidade a nota é 10 pelo arrojo do programa, pelos acertos na maioria dele e pelo evidente entusiasmo pelos italianos que no fim das contas dominaram o programa. Aguardamos outro recital após o curso nos Estados Unidos.

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