segunda-feira, 31 de agosto de 2009

LA CAMBIALE DI MATRIMONIO NO FIOM

Uma das primeiras óperas de Gioacchino Rossini teve montagem correta no III Festival Internacional de Ópera da Amazônia entre as noites de 27, 28 e 29 de agosto de 2009 realizado no Teatro da Paz na capita paraense. À exceção de Manuel Alvarez todo o restante elenco foi paraense. A direção cênica foi de William Ferreira e a cenografia de Carlos Delarmelino Júnior. William Ferreira preparou uma encenação que encheu o palco com os corpos dos atores e suas marcação sempre privilegiaram o equilíbrio de corpos em cena, enquanto que o luminoso cenário desenhado por Delarmelino Júnior deu o brilho necessário a essa engraçada ópera rossiana passada na Inglaterra onde a melhor personagem em cenas é um cowboy canadense totalmente alheios às regras de etiqueta da alta sociedade britânica.
A direção musical e regência foi de Miguel Campos Neto (outro paraense) à frente da Orquestra Sinfônica Vale Música formada por professores e alunos do Projeto Vale Música patrocinado pela Companhia Vale (antiga Vale do Rio Doce, para quem não sabe sob a troca da marca da companhia). Apesar de ser formada na sua maioria por alunos que ainda nem estão perto de concluir os estudos musicais, o som da Sinfônica Vale Música já está bastante avançado para os jovens instrumentistas que há nela, sendo que o trabalho dos professores do projeto merece um louvável 10 como nota. Espero que a Vale continue com esse seu projeto e que essa orquestra, que pode dar frutos bem maduros futuramente, não seja mais uma desfeita na história das orquestras paraenses. Miguel Campos Neto ainda é muito novinho, tanto como homem como quanto regente, mas mostrou um talento consumado para a arte musical e sua leitura da partitura rossiniana merece um bis.
O elenco, quase de todo, merece um elevada nota, sobretudo, Manuel Alvarez, que simplesmente “arrebentou” como o cowboy rústico mas gentil Slook. Foi ele a melhor coisa da montagem, muito melhor que qualquer um dos atores em cena e chegando na cavatina de Slook a chamar mais atenção que a própria orquestra. Barítono com voz de barítono, porte de barítono, ator que sabe se portar em cena e dar vida às personagens que interpreta, ele literalmente “não tem medo de ser feliz”; e foi verdadeiramente em cena, de tão confortável que estava na pele do canadense que procura uma esposa. Repito aqui que ele deve se tornar figurinha repetida nos nossos festivais, sob o perigo de deixá-los sem graça.
E falando em sem graça, lá estava Dione Colares, fazendo “de um tudo” para interpretar a apaixonada e fogosa Fanny, filha do empresário Tobias Mill. Dione tenta, tenta e nada. Nada, nada e morre na beira. Como ela estudou nos Estados Unidos, creio eu, que use a famigerada técnica do sorriso de tanto que vemos os seus dentes enquanto está cantando. Mas se essa técnica é para dar mais brilho à voz, ou deixa a voz de quem a usa mais luminosa, com Dione a técnica não faz nenhum efeito considerando-se que a voz dela continua opaca e com os agudos sempre envoltos num eterno abafador que chega a me incomodar. Parece que os agudos batem na porta, mas a mesma não se abre e os pobres coitados não conseguem entrar. Isso é lamentável, visando que Dione canta com paixão, mas é muito ruim quando o nosso amor pelo canto não tem uma voz para dar-lhe vazão. Logicamente que ela não foi um desastre completo. A sua voz chega aos nossos ouvidos e ela sabe o que faz com suas partes, mas fazendo a conta, noves fora, o resultado final acabou sendo (de novo) um regular para fraco.
Já o Edward Milford interpretado por Antônio Wilson foi mais vistoso, por uma característica técnica simples, direta e muito importante para nós cantores: a voz de Wilson é adequadíssima para a personagem de Milford. Tenor lírico levinho, quase um lírico ligeiro (se não o for, de fato), Antonio Wilson deu asas ao seu canto, fazendo um Milford engraçado e que mais pareceu um bocó apaixonado com algumas crises de fúria e ciúme. Merece vários bis para crescer na personagem e no seu canto.
Ione Carvalho foi prejudicada pela péssima maquiagem de envelhecimento. Visivelmente vimos todos os riscos e traços usados pelo maquiador para envelhecer o seu rosto que ainda é jovem. Em termos vocais ela está longe de ser uma grande voz, mas entra no quesito “se não temos dinheiro para pagar um excelente ficamos contigo que és regular”. Mas sem ofensas é claro. Coloquemos na balança o fato de nossos solistas nesta montagem serem, à exceção de Colares e Alvarez, coralistas com larga experiência em coros e no próprio Festival, mas que muito raramente cantam como solistas. Ser mais uma maçã no barril difere bastante de ser a maçã de ouro no julgamento de Páris. Como dizia Flávio Cavalcante “é cantando que se aprende a cantar” e Dione, que já sabe ser coralista, agora terá que aprender a ser solista também.
Jefferson Luz, baixo-barítono paraense, de fato aparece na montagem cantando uma personagem que privilegia a voz do baixo cantante. Com boa voz, Luz interpretou a contento sua parte, quase sem afetação nos gestos e marcações do mordomo (e alcoviteiro) Norton. Tendo já cantado como solistas em outras montagens operísticas paraenses, Jefferson Luz, é artista que já sabe o que faz no palco.
Por fim, Nilberto Viana, que é coralista a uma década e meia, fez o que pode (e não foi muito) para cantar Sir Tobias Mill. Voz engraçada parece um baixo com crise de barítono ou um barítono com defeito, que por horas acha que é tenor. Em suma, tem várias vozes vindas da mesma garganta, o que é sempre um desastre musical. Mas os seus jeitos e trejeitos de Sir Tobias foram tão engraçados que ele merece uma média regular pela sua encenação.

domingo, 30 de agosto de 2009

Romeu e Julieta no III Festival de Ópera da Amazônia

Nas noites de 14, 16 e 18 de agosto de 2009 deu-se as encenações da ópera de Gounod pelo III Festival Internacional de Ópera da Amazônia sediado no Teatro da Paz. Sendo honesto, foi uma boa montagem, embora nem todos os envolvidos com ela sejam merecedores do conceito bom, embora alguns, facilmente, obtenham o conceito excelente. Para aqueles que não foram ou não conseguiram ingresso para ir o elenco foi o seguinte:
Romeu: Atalla Ayan
Julieta: Isabelle Sabrié
Tebaldo: Márcio Carvalho
Mercúcio: Amadeu Gois
Conde Capuletto: Manuel Alvarez
Stefano: Lys Nardotto
Gertude: Bernadette Heyne
Frei Lourenço: Lício Bruno
Conde Paris: Milton Monte
Gregório: Nilberto Viana
Benvólio: Tiago Costa
Duque de Verona: Jefferson Luz
Coro Lírico do Festival
Orquestra Sinfônica do Teatro da Paz
Direção musical e regência: Enaldo Oliveira
Como se vê muitos paraenses no elenco. Isso mostra que já estamos caminhando para a auto-suficiência no campo operístico, mas ainda temos muito a caminhar, se quisermos, de fato, fazer ópera o ano inteiro ao invés de esperar os meses de agosto e setembro para assistirmos montagens operísticas. O nosso Festival já poderia estar maior, só não está sabe-se lá porque, tendo em vista que já temos outras montagens que muito bem poderiam ter sido reprisadas este ano. Ou será que o governo estadual acha que nós queremos que as montagens de Il Guarany, Gianni Schicci e as outras óperas sejam assistidas somente pelos fungos e traças do depósito onde elas estão guardadas?
Mas voltando para a tragédia dos amantes de Verona. Enaldo Oliveira, paraense até a pouco radicado nos Estados Unidos, está de volta à Belém para ser o substituto de Mateus Araújo na titularidade da Orquestra Sinfônica do Teatro da Paz. Começando em grande estilo, deu-nos uma leitura vigorosa da ópera do hedonista compositor francês. A platéia do Teatro da Paz não é o melhor lugar para se ouvir música: não ouvimos o som saído do fosso na plenitude que alcança no paraíso, deste modo é necessário por os ouvidos atentos a qualquer detalhe sonoro saído de lá.
Embora tenha problemas técnicos já bastante conhecidos e debatidos nos meios musicais belenenses, a OSTP faz bem o seu trabalho e o resultado final apresentado é sempre satisfatório. Com a regência de Enaldo Oliveira certamente ganhará novo fôlego. Enaldo fez uma leitura da 5ª Sinfonia de Beethoven muito superior a cansada e envelhecida leitura que Mateus Araújo nos apresentou na sua integral das sinfonias do rabugento compositor de Bonn. Fazendo uma comparação com o DVD lançado em bancas de revista no Brasil, onde se vê Roberto Alagna, Valentina Vaduva e o elenco do Convent Garden, sem medo, digo que a nossa montagem foi superior. Explicarei o porquê dessa afirmativa mais à frente.
A primeira certeza da nossa superioridade foi o coro preparado por Adamilson Abreu. Que coisa linda. CD nenhum é capaz de captar e reproduzir o som do coro deste Festival. O coro em Romeu e Julieta simplesmente arrasou. A dinâmica foi impecável. O som vigoroso. Apesar de não haver um oceano de coralistas no palco, pareceu um oceano de som entrava pelos meus ouvidos quando o coro cantava. Embora cenicamente a maioria dos integrantes do coro serem muito fracos na cênica (e isso, talvez, se deva a preparação cênica do coro), a compensação veio na voz. Muito bem preparados por Adamilson e contando-se com a experiência da maioria dos integrantes (que cantam não é de hoje), o coro conseguiu um verdadeiro som sinfônico.
A segunda certeza de superioridade está nas vozes masculinas do elenco: Manuel Alvarez, Atalla Ayan, Amadeu Gois, Lício Bruno foram impecáveis nas suas interpretações. Vozes bonitas, cheias, bem treinadas, luminosas na medida certa, prazerosas de se ouvir; e o que é melhor: vozes verdadeiras. Nada de barítonos que não parecem barítonos ou tenor se esguelando para cantar os agudos. Atalla Ayan, depois de cursos nos EUA e na Itália, está com a voz muito melhor que há um ano atrás e em franco crescimento. Agora posso afirmar que o Pará tem um outro grande tenor, um verdadeiro tenor (não esqueçamos de Reginaldo Pinheiro). Cantando também fora do Brasil, mas ainda em início de carreira, ele é o segundo dos nossos cantores com uma verdadeira carreira internacional. É claro que ainda falta muito para Atalla “chegar lá”; mas a partida já foi dada e ele estava na pole. Como Adriane Queiroz, Carmen Monarcha e Reginaldo Pinheiro já estão lá, é torcer para a carreira de Atalla crescer que assim teremos quatro grandes cantores levando o canto paraense para o mundo.
Manuel Alvarez, outra voz verdadeira, é um barítono com voz, corpo, aparência e postura de barítono. Falar o quanto Manuel é maravilhoso ao cantor acabará por se tornar uma redundância, já que isto é evidente ao vê-lo e ouvi-lo cantar. Presença cênica forte, voz que se ouve de longe. Foi um Lorde Capuleto pra lá de agradável. A partir de agora Festival Internacional de Ópera da Amazônia sem Manuel Alvarez não será um festival completo.
O Mercúcio de Amadeu Gois foi a terceira certeza da nossa superioridade em relação à gravação que me serve de base para este ensaio. O Mercúcio feito por Françoix Le Roux está muito abaixo de Amadeu pelo fato de Amadeu ser um outro barítono verdadeiro, enquanto que Le Roux (pelo menos neste DVD) mais parece um tenor com crise de barítono. Céus! Existe de tudo neste mundo. Arri égua!
Em um ponto nos comparamos com a montagem inglesa: tanto lá quanto aqui os intérpretes de Mercúcio foram muito fracos, embora o Tebaldo de Paul Charles Clarke não tenha sido tão desagradável quanto o feito por Márcio Carvalho; que ainda precisa tomar muitas pípulas de canto lírico para se curar da voz mal preparada e da desafinação. Como Milton Monte quase não abriu a boca não dá para falar nada; a não ser que ele foi impecável na interpretação do Conde Paris, que todos sabemos ser o maior otário das estórias de amor.
Valentina Vaduva bem que vale um ingresso com preço mais elevado, só para nos dar o prazer de ouvi-la cantar ao vivo. Se tivesse vindo teria nos poupado de ouvir Isabelle Sabrié, que apesar de ser bonita está longe de ter uma voz bonita e agradável. Soprano lírico de coloratura que não busca o brilho vocal e que nos agudos “nunca chega lá”; pois eles são opacos, sem ânimo, sem nada. Havia um bebezinho que só chorava quando ela cantava. Tadinho! Sem saber já está com um bom ouvido desde o colo. O opaco da sua voz ficava mais evidente quando ela cantava com Atalla, que cheio de garbo vocal, passou por cima dela em todas as tonalidades possíveis. Bernadette Heyne tem uma boa voz de mezzo, mas a escrita de Gounod não lhe permite mostra tudo o que tem de melhor. Mesmo caso ocorrido com Lyz Nardotto. Cantou o jovem Stefano e nem de perto parecia a Lyz de outros Festivais. Voz com pouco volume, opaca, sem causar nenhuma impressão. Todos nós sabemos que Lyz tem muito mais voz do que mostrou. Sabe-se lá o porquê disso ter acontecido. Mas nem tudo foi perdido. Ouvimo-la sim, mas sem o garbo vocal da Rainha da Noite ou mesmo de Gilda. Apesar do desempenho regular para fraco nesta noite, Lyz ainda é uma boa cantora que pela juventude só tem a crescer mais à frente. Ela é outra que deve estar no nosso Festival sempre para não deixá-lo incompleto.
Por fim o cenário preparado por Carlos Delarmelino Junior teve aquela aparência retrô que deixou as cenas com cara de século XIX. Dizem que o dinheiro foi pouco para esta montagem. Já que não tinha um caixa poupudo para gastar em cenários mais vistosos Carlos Delarmelino Junior jogou com a criatividade e com a inventividade e apresentou um cenário simples mais bastante funcional e com aparência de velho cenário reutilisado mais que ainda não perdeu seu interesse e assim ficou com um charme retro todo especial. Já os figurinos desenhados por Fernando Leite não chegaram lá de todo, sobretudo, a ridícula roupa desenhada para Julieta no 1º ato: aquelas mangas horrorosas mais pareciam asas de algum pássaro exótico que roupa de uma menina de 14 anos.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

FILHO DE PEIXE: LEON KEUFFER EM RECITAL

O jovem (e promissor) violinista paraense Leon Keuffer, filho de Paulo e Cecília Keuffer, apresentou um esplêndido recital de violino e piano, acompanhado por Adriana Azulay (uma grande pianista paraense) na noite de 30 de julho de 2009 na Sala Arugusto Meira Filho no Arte Doce Hall de Glorinha Caputo. Tocou Telemann, Wieniawski, Glück e Bloch. Arrasou em todas, sempre muito bem acompanhado pela eficiência de Adriana Azulay, mostrando mais uma vez que os músicos paraenses quando querem são mestres na música de câmera.
Leon Kueffer ainda é muito jovem, mas já demonstra, sem medo, um talento assombroso para o violino, já tendo realizado algumas composições, executadas pela Sinfônica da EMUFPA onde estudou. O presente recital foi em tom de despedida pois no próximo setembro ele se fixará na Inglaterra onde foi aceito como aluno na Chethams School of Music em Manchester.
Leon já tem uma técnica apurada, som limpo, fraseado bem executado e apesar da evidente destreza técnica toca com sentimento as peças escolhidas. Filho de peixe, peixinho é diz o ditado popular. Leon é mais um a confirmar este dito, sendo filho de outro músico paraense talentoso, o spalla da Orquestra Sinfônica do Teatro da Paz, Paulo Keuffer só repete o talento que veio de sangue. Sua mãe Cecília também tem veia musical, é cantora lírica de formação. O vídeo mostra o bis de Leon tocando o último movimento do Concerto nº. 2 de Wieniawski.

Programa:

Telemann: Fantasia n. 3 para violino solo em fá menor
Wieniawski: Concerto nº. 2 em ré menor Op. 22
a) Allegro moderato
b) Romance
c) Allegro con fuoco
d) Allegro moderato (à la Zingara)
Glück: Melodia "Orfeu e Eurídice"
Bloch: Nigun video