LA CAMBIALE DI MATRIMONIO NO FIOM

Uma das primeiras óperas de Gioacchino Rossini teve montagem correta no III Festival Internacional de Ópera da Amazônia entre as noites de 27, 28 e 29 de agosto de 2009 realizado no Teatro da Paz na capita paraense. À exceção de Manuel Alvarez todo o restante elenco foi paraense. A direção cênica foi de William Ferreira e a cenografia de Carlos Delarmelino Júnior. William Ferreira preparou uma encenação que encheu o palco com os corpos dos atores e suas marcação sempre privilegiaram o equilíbrio de corpos em cena, enquanto que o luminoso cenário desenhado por Delarmelino Júnior deu o brilho necessário a essa engraçada ópera rossiana passada na Inglaterra onde a melhor personagem em cenas é um cowboy canadense totalmente alheios às regras de etiqueta da alta sociedade britânica.
A direção musical e regência foi de Miguel Campos Neto (outro paraense) à frente da Orquestra Sinfônica Vale Música formada por professores e alunos do Projeto Vale Música patrocinado pela Companhia Vale (antiga Vale do Rio Doce, para quem não sabe sob a troca da marca da companhia). Apesar de ser formada na sua maioria por alunos que ainda nem estão perto de concluir os estudos musicais, o som da Sinfônica Vale Música já está bastante avançado para os jovens instrumentistas que há nela, sendo que o trabalho dos professores do projeto merece um louvável 10 como nota. Espero que a Vale continue com esse seu projeto e que essa orquestra, que pode dar frutos bem maduros futuramente, não seja mais uma desfeita na história das orquestras paraenses. Miguel Campos Neto ainda é muito novinho, tanto como homem como quanto regente, mas mostrou um talento consumado para a arte musical e sua leitura da partitura rossiniana merece um bis.
O elenco, quase de todo, merece um elevada nota, sobretudo, Manuel Alvarez, que simplesmente “arrebentou” como o cowboy rústico mas gentil Slook. Foi ele a melhor coisa da montagem, muito melhor que qualquer um dos atores em cena e chegando na cavatina de Slook a chamar mais atenção que a própria orquestra. Barítono com voz de barítono, porte de barítono, ator que sabe se portar em cena e dar vida às personagens que interpreta, ele literalmente “não tem medo de ser feliz”; e foi verdadeiramente em cena, de tão confortável que estava na pele do canadense que procura uma esposa. Repito aqui que ele deve se tornar figurinha repetida nos nossos festivais, sob o perigo de deixá-los sem graça.
E falando em sem graça, lá estava Dione Colares, fazendo “de um tudo” para interpretar a apaixonada e fogosa Fanny, filha do empresário Tobias Mill. Dione tenta, tenta e nada. Nada, nada e morre na beira. Como ela estudou nos Estados Unidos, creio eu, que use a famigerada técnica do sorriso de tanto que vemos os seus dentes enquanto está cantando. Mas se essa técnica é para dar mais brilho à voz, ou deixa a voz de quem a usa mais luminosa, com Dione a técnica não faz nenhum efeito considerando-se que a voz dela continua opaca e com os agudos sempre envoltos num eterno abafador que chega a me incomodar. Parece que os agudos batem na porta, mas a mesma não se abre e os pobres coitados não conseguem entrar. Isso é lamentável, visando que Dione canta com paixão, mas é muito ruim quando o nosso amor pelo canto não tem uma voz para dar-lhe vazão. Logicamente que ela não foi um desastre completo. A sua voz chega aos nossos ouvidos e ela sabe o que faz com suas partes, mas fazendo a conta, noves fora, o resultado final acabou sendo (de novo) um regular para fraco.
Já o Edward Milford interpretado por Antônio Wilson foi mais vistoso, por uma característica técnica simples, direta e muito importante para nós cantores: a voz de Wilson é adequadíssima para a personagem de Milford. Tenor lírico levinho, quase um lírico ligeiro (se não o for, de fato), Antonio Wilson deu asas ao seu canto, fazendo um Milford engraçado e que mais pareceu um bocó apaixonado com algumas crises de fúria e ciúme. Merece vários bis para crescer na personagem e no seu canto.
Ione Carvalho foi prejudicada pela péssima maquiagem de envelhecimento. Visivelmente vimos todos os riscos e traços usados pelo maquiador para envelhecer o seu rosto que ainda é jovem. Em termos vocais ela está longe de ser uma grande voz, mas entra no quesito “se não temos dinheiro para pagar um excelente ficamos contigo que és regular”. Mas sem ofensas é claro. Coloquemos na balança o fato de nossos solistas nesta montagem serem, à exceção de Colares e Alvarez, coralistas com larga experiência em coros e no próprio Festival, mas que muito raramente cantam como solistas. Ser mais uma maçã no barril difere bastante de ser a maçã de ouro no julgamento de Páris. Como dizia Flávio Cavalcante “é cantando que se aprende a cantar” e Dione, que já sabe ser coralista, agora terá que aprender a ser solista também.
Jefferson Luz, baixo-barítono paraense, de fato aparece na montagem cantando uma personagem que privilegia a voz do baixo cantante. Com boa voz, Luz interpretou a contento sua parte, quase sem afetação nos gestos e marcações do mordomo (e alcoviteiro) Norton. Tendo já cantado como solistas em outras montagens operísticas paraenses, Jefferson Luz, é artista que já sabe o que faz no palco.
Por fim, Nilberto Viana, que é coralista a uma década e meia, fez o que pode (e não foi muito) para cantar Sir Tobias Mill. Voz engraçada parece um baixo com crise de barítono ou um barítono com defeito, que por horas acha que é tenor. Em suma, tem várias vozes vindas da mesma garganta, o que é sempre um desastre musical. Mas os seus jeitos e trejeitos de Sir Tobias foram tão engraçados que ele merece uma média regular pela sua encenação.

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