MADRIGAL DA UEPA: CÍRIO 2009

O Madrigal da UEPA, apresentou-se no Museu Paraense de Arte Sacra na noite de 06 de outubro, já dentro da programação de concertos realizados em Belém durante a quadra nazarena. Sendo gentil: foi um recital mediano. Não por culpa do regente Milton Monte, mas por alguns participantes do coro que passaram a apresentação visivelmente na mais pura dublagem, isto é, fingiram que cantaram. Embora alguns concordarão com o fato de que se alguns coralistas chegaram à apresentação dublando o regente tem sim muita culpa no cartório. O resultado não poderia ser animador para o conjunto de coralista - alguns já com bastante experiência no ramo coral, e que por isso levaram o recital a cabo sem se deixar abalar por eventuais dublagens dos seus colegas.
O recital teve apenas uma parte, porém o coro deu uma pausa de cinco minutos para a água, sempre necessária para cantores na hora do trabalho. Apesar de estruturado em um blocão, o recital foi distintamente dividido em dois gêneros musicais: o popular e o erudito, iniciando e terminando com o gênero erudito.
Cantaram Vivaldi, Mozart, Purcell (homenagem aos 250 anos de nascimento!), Baden Powell, Villa-Lobos, Banchieri, ou seja, na sua maioria o programa foi dedicado à grande paixão de Milton Monte: a música antiga, em especial a música barroca. Por isso o recital teve um ar de mão na luva, pois música barroca em uma Igreja barroca, dá uma impressão para quem assiste - e claro tem conhecimento musical e arquitetônico - de que o ambiente proporciona uma completa apreciação do período barroco, ou seja, a música barroca sendo ouvida em um local barroco para o qual ela foi pensada à época.
Mas em termos extritamente musicais o recital foi desequilibrado: a parte erudita fraca e a popular mais satisfatória. A parte erudita, com obras de grande beleza, sobretudo a semi-ópera de Purcell, Rei Artur, não foi bem aproveitada pelo evidente desequilíbrio vocal entre os cantores: uns cantando, outros não; uns experientes, outros neófitos, um visivelmente dublando, e o regente deixando passar tudo pelo bem do espetáculo. De fato, fica muito feio o regente ter que parar a apresentação para afinar os cantores ou consertar as entradas. Monte mandou seguir como eu faria, mas no dia seguinte quarenta chibatadas seriam pouco para colocar o coro em ordem e até mesmo uma auto-fragelação do regente é favorável. Mas se os coralistas continuam com visíveis problemas vocais que o preparador vocal não consegue resolver ou não pode resolver, é melhor como Bach: jogar a peruca no aluno e mandá-lo ser sapateiro. Mas creio eu que, salvo o dublador, os integrantes do Madrigal da UEPA, não precisam comprar solas e cola de sapateiro para mudar de ramo. Com estudo e técnica tudo se resolve. É só trabalhar para por o coro em nível de igualdade vocal e pensamento musical unitário para o grupo. Como eu digo: o coro é uma só voz saída de várias gargantas.
Outro quesito deve ser levado em consideração: o Madrigal da UEPA é formado por amadores e não profissionais. E aqui entendam cantores profissionais pelo sentido lato da expressão: aquele que se sustenta com seu canto: o que ainda é um sonho distante no Pará. E claro, não se analisa amadores como profissionais. Cantar todo dia difere substancialmente de cantar de vez em quando e para piorar com um repertório sempre mutável, como é de hábito entre os amadores, o que não permite o necessário amadurecimento dos intérpretes.

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