TUBAS EM BELÉM DO PARÁ

RECITAL DE TUBA E PIANO NO ARTE DOCE HALL

Na noite de 17 de novembro de 2009 na Sala Augusto Meira Filho no Arte Doce Hall a Fundação Carlos Gomes apresentou, com apoio da FAM, um recital um tanto inusitado de tubistas acompanhados por piano. Os tubistas foram Alessandro Dias, Fábio Moraes e Wilthon Martins, enquanto que Paulo José Campos de Melo fez os acompanhamentos ao piano. Por um problema técnico não houve distribuição de programa, extremamente necessários em um recital com obras quase nunca executadas em recital. A própria tuba como solista é um fato surpreendente, considerando-se que a maioria de nós estamos acostumados a velas trabalhando na orquestra.

Esse recital foi deveras importante. Importante pelo fato de dar visualização (e audição) a instrumentos muito pouco ouvido enquanto solistas, ou até mesmo nunca ouvidos enquanto solistas para alguns; pois sempre estão nas orquestras escondidos entre a elegância das madeiras e a barulheira da percussão e quase sempre tratados como acompanhantes.

A peça de Dimas Sedícias que iniciou o recital é nacionalista, embora ele tenha procurado imprimir suas impressões sobre o Brasil, para mim (em primeira audição) foi quase impossível perceber algum traço de brasilidade nela.

Já a peça de David Cuba é mais palatável pela própria construção musical mais tradicional e melodia mais “cantável” com uma sonoridade puxando claramente para o estilo romântico.

A peça de Anthony Tomasi sobre o monólogo “Ser ou não ser” do Hamlet Shakespeariano é de sonoridade novecentista e por isso mesmo alia as dissonâncias musicais aos descompassos sentimentais do perturbado príncipe dinamarquês. A voz grave da tuba foi a cor apropriada para essa tragédia clássica.

A peça de Osvaldo Lacerda “Canto e Rondó” reuniu o brilho do piano e da tuba em uma melodia que vai do grave ao agudo com grande desenvoltura, embora os maciços e dissonantes acordes que dão início à obra me fizeram pensar se tratar de uma obra serialista, mas no fim se revelou uma obra do nacionalismo musical brasileiro.

As Árias e Variações Belzebu iniciam com uma melodia bem consonante e cantábile, bastante encantadora e incapaz de assustar o ouvinte, apesar do seu nome. O piano tem uma participação importante nessa peça e faz um belo dueto com a tuba, igualmente encantadora na sua parte cheia de melodismo.

O Concerto para Tuba e Orquestra de Vaugham Williams é um bom exemplo de como os compositores novecentistas preferiram trabalhar com a estranheza musical, compondo para instrumentos e formações que os compositores românticos nem chegaram a cogitar ou alguém conhece um concerto para tuba escrito durante o romantismo oitocentista? Eu não conheço e se ele existe, claro, quero conhecê-lo.

Esse concerto de Vaugham Williams não tem nada de assustador na sua estrutura musical, bastante coerente por sinal. É um concerto como tantos outros escritos durante o século XX, isto é, tem três movimentos mais não obedece a estrutura clássica com introdução orquestral, repetição temática do solista, 1º e 2º temas, cadenza, contrastes entre orquestra e solista. A orquetra - aqui reduzida para piano – ora canta com a tuba, ora a acompanha. Vaugham Williams foi um dos compositores ingleses com mais sólida formação teórica e isso se reflete no pulso firme de sua escrita musical, aliás muito bem interpretada por Paulo José Campos de Melo e Wilthon Martins, hoje radicado em Porto Alegre onde compõe a Orquestra Sinfônica.

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