O QUEBRA-NOZES DE ANA UNGER



Final de ano letivo é hora de fazer apresentação dos alunos como culminância de um ano de trabalho e o Centro de Danças Ana Unger não foge a essa regra. A bailarina e coreógrafa paraense, também uma das grandes agitadoras culturais da capital do Pará, este ano fez apresentar no Teatro da Paz uma bela montagem do bailado top de linha escrito por Tchaikovsky e coreografado por Lev Ivanon (Petipa estava doente) em 1892, meses antes da morte do compositor russo.
A montagem contou com a participação de praticamente todo o Centro de Danças, vista a quantidade enorme de bailarinas no palco, acrescida de alguns rapazes abnegados e dedicados ao balé nesta machista terra paraense; dentre eles André Teixeira e Ronilson Cruz que se alternaram na interpretação do Príncipe Quebra-Nozes. Aliás, como não conheço nenhum dos dois bailarinos não sei quem participou na noite de domingo quando assiti e registrei a apresentação.
Visualmente a montagem foi deslumbrante. Os cenários foram bem simples, porém usaram cores vivas e vibrantes para ressaltar o clima de alegria da estória, mas o que, de fato, contribuiu o deslumbre visual foi a iluminação, verdadeiramente bem pensada para ressaltar tanto o cenário quanto os figurinos. esses o maior trunfo da montagem.
Mas tanta beleza plástica esbarrou numa decisão infeliz de Ana Unger responsável pela direção geral do espetáculo: as danças do segundo ato, na maioria, foram reprisadas mais de uma vez (foram feitas edições nas faixas da gravação usada), que de modo que elas ficaram por demais alargadas e para os bons conhecedores do bailado de Tchaikovsky a linearidade e a narrativa econômica da música foram totalmente perdidas.
Já foi escrito que os bailados de Tchaikovsky são verdadeiros bailados de ação. Pois bem, nesta montagem de Ana Unger a ação do mesmo foi totalmente interrompida e prejudicada para que números de sapateado irlandês e espanhol (com castanholas) fossem apresentados parando e alargando a duração da encenação várias vezes. Pensado para ter cerca de hora e meia de encenação, esta versão de Unger teve cerca de uma hora a mais. Certamente não daria para apresentar depois a ópera Iolanta, composta para fazer programa duplo com o bailado em 1892, pois assim sairíamos do Teatro da Paz passada a meia-noite.
A montagem não pode ser considerada profissional pela enormidade de alunos no palco e nem amadora, já que são bailarinos em formação que se apresentaram. Mas o que me incomoda neste tipo de apresentação são os alunos que não sabem para onde ir no palco comprometendo a fluidez da encenação.
Os números de sapateado foram um engodo difícil de engolir, apesar das soluções inteligentes de Ana: eles foram colocados na cena da Batalha e na Dança Espanhola. O grande problema foi que pararam totalmente a ação dramática para as alunas poderem exibir seus dotes coreográficos que, infelizmente, não são primordiais. Ainda faltam muitos toc-toc para elas alcançarem a perfeição. Mas o estágio atual já dá para o gasto.
O espetáculo teve o patrocínio do Super Formosa através da lei SEMEAR e apoio cultural de várias empresas e mais o dinheiro particular das alunas, financiador de suas indumentárias segundo informação dada por uma professora de dança, minha conhecida. Só de olhar dá para perceber que muito dinheiro foi gasto na encenação, confirmando a visão de muitos de nós da área cultural: Belém tem condições de ser um centro cultural de referência. Não é porque a iniciativa privada (detentora da maior fatia de dinheiro) acha um desperdício patrocinar cultura e arte, sobretudo, arte erudita. Público para ela tem.
Como em outras ocasiões, nesta o Teatro da Paz ficou totalmente lotado. A superlotação se repetiu no segundo dia de apresentação com a Orquestra Sinfônica do Teatro da Paz sob regência do paraense Enaldo Oliveira. Nestas duas noites a entrada foi franqueada ao público.

Ato I, Cena I, nº. 1: A Árvore de Natal


Sapateado dos soldadinhos de chumbo



Ato I, Cena, nº. 7: A Batalha; nº 8: A Floresta de pinheiros no inverno




Ato II, Cena 2, nº. 10: Divertissement a) Chocolate - Dança Espanhola



Ato II, Cena 2, nº. 13: Valsa das Flores




FOTOS:

















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