SIBERIAN VIRTUOSI

Na noite de 16 de novembro de 2009 a Orquestra de Câmera Siberian Virtuosi, liderada pelo maestro Fabio Mastrangelo, fez uma apresentação em Belém na Sala Augusto Meira Filho pela Série Concertos para Belém II, realização da Musikart Produções com patrocínio da Vale e apoio do MinC (pela Lei Rouanet). O programa foi o seguinte: Barber: Adagio para Cordas, Mozart: Divertimento em F maior K. 138, Berlioz: Marcha Húngara de A Danação de Fausto, Elgar: Serenade, Villa-Lobos: Prelúdio das Bachianas Brasileiras nº. 4, Holtz: Suíte St. Paul. Houve um bis com uma peça que me é desconhecida.

A orquestra foi formada em 1995 em Novosibirsk, capital da Sibéria. A maioria de seus 14 integrantes também compõem a Sociedade Filarmônica Estatal de Novosibirsk. O repertório apresentado privilegiou duas cores distintas: a luminosa, das obras de Mozart, Berlioz e Holst e a opaca das intimistas obras de Barber e Villa-Lobos e da sóbria (ma non troppo) Serenade de Sir Elgar.

O concerto iniciou com o célebre Adagio para Cordas de Samuel Barber. Já o ouvi várias vezes em diversas gravações, mas esta foi a primeira vez ao vivo. Este adágio de Barber pertence ao grupo de obras com uma escrita tão transparente que qualquer dedo fora do lugar é claramente denunciado, de modo que colocá-la no início do concerto denunciou a coragem dos músicos russos de não temerem causar uma primeira má impressão. Mesmo sendo intimista e de cores opacas, o seu clímax alcança a luminosidade (nas gravações), mas ao vivo este clímax não foi tão luminoso. Mas relembro que música gravada e ao vivo tem um oceano de distância e os engenheiros de som que fazem tudo melhorar, com a ajuda dos músicos, é claro. Mas aqui o que ouvimos é a sinceridade da música sem maquiagem.

Uma grande distância na sonoridade deu-se já na segunda obra: o Divertimento K. 138 de Mozart. Para ele, deveria, de fato, seu um divertimento compô-los de tão alegres, leves e luminosos que são. Embora eu considere os divertimentos nº. 11 e 17 bem mais agradáveis, este K. 138 não fica devendo nos quesitos luminosidade, prazeirosidade e beleza. Para este Divertimento a orquestra deu um salto substancial: tocou com vivacidade, luminosidade, leveza e a graciosidade próprias de Mozart.

A primeira parte do concerto terminou com um arranjo para cordas da Marcha Húngara de Berlioz. Os músicos demonstraram entrosamento e leitura centrada, ou seja, souberam dar vida a um arranjo para cordas de uma música pensada para a orquestra.

Após o intervalo, Sir Edward Elgar foi executado com aquela sobriedade própria dos ingleses e um lirismo próprio do estilo romântico. A música é muito bonita como vocês podem conferir nos vídeos anexados e a Siberian Virtuosi fez jus à sonoridade da Serenade, sobretudo, nas cores mais escuras (e tristes) sentidas por Sir Elgar para o segundo movimento. O terceiro movimento, para mim, não chega a ser alegre, mas não retorna à tristeza do segundo. É mais música de caráter tranqüilo do que alegre.

Eu não sei o porquê de Villa-Lobos ter sido incluído no programa. Pode ter sido uma lembrança pelos 50 anos de falecimento do nosso maior compositor. Se ele foi incluído no programa como homenagem pela passagem, em 2009, de meio século sem Villa, os russos estão de parabéns, pois Villa-Lobos está sendo virtualmente ignorado nas salas de concerto de Belém, que andam prestando mais atenção ao Ano da França no Brasil do que nas cinco décadas de falecimento daquele que deu uma certidão de nascimento à música brasileira de concerto. A orquestra não apresentou as Bachianas Brasileiras nº. 4 na íntegra, apenas uma versão reduzida do primeiro movimento, em andamento mais rápido que o habitual. Mas apesar de corrida, a execução foi boa e com evidente compreensão da partitura de Villa. Isso somente confirma a universalidade de Villa-Lobos como compositor. Apesar de brasileiríssimo, ele soube usar as técnicas de composição vanguardistas de sua época sem deixar “aquele som brasileiro” se perder nas suas obras mais internacionalista.

Gustav Holst e sua St. Paul Suite foram incluídos no programa pelos músicos da orquestra de última hora, considerando-se que no programa estava prevista as Bachianas Brasileiras nº. 9 e não a nº. 4 como última peça. Essa suíte de Holst é bem alegre e multifacetada quanto a paleta de cores. Holst era inglês, mas estranhamente eu senti o primeiro movimento como sendo a descrição de uma alegre cavalgada no velho oeste norte-americano.

Holst é desses compositores cuja imaginação musical combinava o melodismo popular com o erudito de forma tão equilibrada que em algumas paginas dá para duvidar da classificação de sua música: devemos classificá-las como popular ou erudita? Ou mesmo semi-erudita? O pouco que conheço de sua obra me leva a classificá-lo como compositor erudito, mas em determinados momentos a “puxada” para a música popular é tão evidente que acho melhor classificá-lo como compositor de “música de concerto”. Essa St. Paul Suíte, para mim, cabe bem nessa classificação. Ouçam-na completa nos anexos e tirem suas próprias conclusões. Eu, a priori, destaco os primeiro e último movimentos por estarem bem dentro dessa dúvida de classificação musical.

O concerto terminou com uma alegre obra que desconheço como bis.

Samuel Barber: Adagio para Cordas


Mozart: Divertimento nº. 3 em F maior KV 138 - 1º Allegro


Mozart: Divertimento nº. 3 em F maior KV 138 - 2º Adagio


Mozart: Divertimento nº. 3 em F maior KV 138 - 3º Presto



Berlioz: Marcha Húngara (A Danação de Fausto)



Elgar: Serenade


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

ESSA NEGRA FULÔ: ANÁLISE

FORMA E ESTRUTURA NA ÓPERA: CENA III - ESTRUTURAÇÃO DE UMA ÓPERA

Mozart: Bastião e Bastiana em português e com sotaque paraense