quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Bailados de Stravinsky 1: Suítes de Petrushka, Pulcinella e O Pássaro de Fogo

Hoje começo a fazer postagens de gravações completas de várias formas e gêneros musicais que tenho na minha discoteca. Para começar, três suítes de bailados de Igor Stravinsky, maior compositor do gênero após Tchaikovsky, de quem também foi grande admirador.

Os bailados em formato de suítes são Petruska, Pulcinella e O Pássaro de Fogo, regidos pelo próprio compositor e relançados em disco pela Sony em uma edição integral da obra do grande compositor russso. O link abaixo é para os que desejarem baixar esta gravação. Este é o terceiro volume da referida integral do célebre selo, onde Stravinsky registrou suas obras com o auxílio da Orquestra Sinfônica Colúmbia. Em próximas postagens darei continuidade às postagens dos restantes bailados desse compositor em versões integrais regidas por ele.





segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

ATALLA AYAN E MARÍLIA CAPUTO: RECITAL DE ANO NOVO 2009

A Sala Augusto Meira Filho ficou lotada para assistir o recital dos paraenses Atalla Ayan (tenor) e Marília Caputo (pianista) na noite de 29 de dezembro de 2009. O recital foi preparado pelos ótimos músicos paraenses para a série musical Concertos para Belém II e como foi o último recital da série em 2009 teve aquele clima de ano novo. A grande novidade da noite ficou por conta de Atalla em seu primeiro recital em Belém após a participação em Romeu e Julieta de Gounod durante o III Festival Internacional de Ópera da Amazônia e o início de seu curso de ópera na Ópera Metropolitana de Nova York, portanto, a novidade concentra-se na voz de Atalla após o início de seus estudos em Nova York.
O programa foi enxuto e totalmente camerístico, à exceção das duas árias operísticas nele incluídas. Uma outra novidade para nossos dias foi a execução de uma peça instrumental no programa; coisa que há décadas não é comum, pelo menos em Belém do Pará.
Adelaide de Beethoven foi a peça inicial que revelou uma voz mais amadurecida e com um passagio sem problemas: a voz de Atalla passa pelos três registros vocais sem aquela tensão de quem tem problemas no passagio e parece ter três vozes vindas da mesma garganta. O estudo operístico se faz mais presente e bem mais forte, o que no caso de Beethoven ajuda pois, apesar de ser uma canção, Adelaide mais parece uma ária operística devido ao seu evidente caráter sinfônico, embora escreita "apenas" para voz e piano.
Malinconia, ninfa gentile trouxe a canção de câmera belliana ao programa. Aqui, todos sabem, a ópera se faz mais presente na composição embora nesta canção, especificamente, Bellini parece ter tirado um pouco a ópera da cabeça, pensando uma música essencialmente camerística, assim como Bella rosa fortunata, que na minha opinião é ainda mais camerística que Malinconia..., porém aqui Atalla tropeçou na interpretação operística e no vozeirão quando a canção naturalmente pede uma vozinha de serenata. Procurem a gravação de Cecilia Bartoli desta canção e então vocês entederão o meu ponto de vista. Bella rosa fortunata é destas canções para ser cantada com aquela voz confidencial quase ao estilo bossanovista que fez a glória deste gênero musical brasileiro. Usar uma voz operística é simplesmente voz demais.

Widmung de Schumann é poesia musical e nela, novamente, a ópera se fez presente quando a câmera deveria imperar. A interpretação, apesar de bonita, teve mais voz do que o necessário, embora Ich grolle nicht requeira naturalmente uma interpretação mais dramática e, consequentemente, uma voz operística se bem empregada pode obter um ótimo resultado vocal e musical. Mas Atalla sente bem Ich grolle nicht; o que já é meio caminho andado.

O Lundu da Marquesa de Santos pelo fato de ser brasileira é uma canção que chega mais perto de nós e, creio eu, esse foi o fator de corte no controle vocal empregado por Atalla. A sonoridade aqui sob medida, sem força, sem gritaria. Afinal, cantar em português é bem complicado, devido ao nosso idioma se projetar muito na máscara; o que pode deixar o canto pontudo e com luminosidade além do necessário.

Benedetti sia Il giorno, Il mese, l’ano mostra bem porque eu não morro de amores por Liszt. Reconheço que ele foi gênio, mas acho que sua música não tem tesão, apesar de bem escrita. Ela não tem aquele ardor de amante latino e pianista desvairado que dizem que Liszt foi.

Já Paolo Tosti é um italiano que combinou na medida certa o ardor operístico com o comedido da música camerística. Mestre das gradações lembra-me Haendel ao usar as tonalidades para expressar sentimentos e Tchaikovsky no manipular da dinâmica para obter o sublime nas suas músicas. Pois bem, Atalla Ayan cantando Tosti é um acontecimento, sobretudo L’alba separa dalla luce l’ombra, uma canção que bem poderia fazer parte de uma ópera sem causar estranheza de tão operística que é. Non t’amo più e Vorrei morire são canções ouvidas em primeira audição para mim, mas Ideale – que o próprio Atalla já cantara anteriormente – subiu mais um ponto em meu conceito: pela beleza e pela interpretação de Atalla e Marília que nela simplesmente brilharam.

As Impressões Seresteiras não foram executadas por Marília Caputo, pois sua mãe, Glória, achou não ser de bom tom música instrumental em um recital de canto e piano. Pois bem, Glória certamente desconhece os programas de concerto e recitais dados em Belém na 1ª metade do século XX quando peças instrumentais eram executadas nesses recitais para dar um descanso aos cantores. Marília prometeu que em outra ocasião executa a peça de Villa-Lobos.

As árias operísticas No puede ser (La Tabernera del puerto /Sorozabal) e Kuda, Kuda vi udalilis (Eugênio Oneguine/Tchaikovsky) terminaram o programa com música pra lá de sentimental, amorosa e de beleza encantadora, sobretudo, a célebre ária de Lensky cantada no III ato da ópera de Tchaikovsky; que para os bons conhecedores de história da música foi gênio supremo no cantar os sentimentos humanos.

Bom, o trabalho dos professores de canto do MET é muito bom, pois Atalla está agora com uma visão operística mais profunda, mais centrado na sua interpretação e com uma voz essencialmente operística, o que por um lado é bom (ópera), mas por outro é ruim (câmera).

Explico-me. Atalla montou um recital com canções e só duas árias operísticas para “economizar voz”; mas o que ouvimos foi um canto a plenos pulmões com um volume sonoro próprio para um teatro operístico, mas inapropriado para uma sala de concerto como a Augusto Meira Filho. Resultado: gastou voz desnecessariamente e dos nossos ouvidos (dos que estavam nas primeiras fileiras) foram bombardeados com muito som. Ao final do recital o meu ouvido direito parecia ter passado por um concerto de trompete executado, digamos, ao pé do meu ouvido. Infelizmente, não fiz gravação do recital desta vez para vocês poderem conferir. Falha minha. Quem não foi perdeu um belíssimo recital de canto e piano que foi quase um concerto sinfônico.

Para finalizar chamo a atenção dos músicos para um problema de ordem técnica: a ordem das peças no programa foi totalmente alterada, o que sempre é um problema. Para o público que não conhece as peças fica a desorientação ao seguir a ordem das músicas. Para musicólogos que trabalham com repertório, como eu, ficam registradas historicamente as peças na ordem impressa. Desta feita, caso as alterações não estejam anotadas nos programas, quem neles pesquisar tomará a tal ordem como verdade, sem nem imaginar, que na realidade, a ordem das músicas apresentadas não foi a impressa.