quinta-feira, 25 de março de 2010

TIAGO COSTA: UMA VOZ, UMA NOVA PROMESSA PARAENSE

Ser cantor lírico no Brasil não é fácil. Ser cantor lírico no Pará é quase impossível. A falta de profissionalismo, de ética na formação dos cantores, o favoritismo dos professores que escolhem alguns para serem “os seus cantores líricos” em detrimento dos outros que, de fato, querem cantar; caso contrário não procurariam o curso de canto e por fim a falta de estrutura tanto no Conservatório quanto na EMUFPA para a formação de bons cantores líricos fazem a tarefa de abrir a boca para a cantoria no Pará uma atividade hercúlea e de muito amor à música. E é na categoria dos apaixonados pelo canto lírico, como tantos outros aqui em Belém, que se encontra o tenor Tiago Costa.
Pois bem, Tiago – que não nasceu em berço esplêndido como a maioria de nós – já saiu do Brasil para fazer algumas audições no exterior e desta vez precisa se dirigir ao exterior para novas audições: 1º) no Conservatório de Lice, Espanha para tentar uma vaga na pós-graduação em canto lírico, 2º) na Alemanha, para pleitear participações em montagens operísticas nesse pais germânico, onde Adriane Queiroz já está fazendo carreira regular na Ópera Estatal de Berlim. Pois bem, Tiago precisa das passagens e para consegui-las, Maria Antonia Jiménez, sugeriu-lhe fazer um recital para angariar fundos através de um livro de ouro, e foi esse recital dado na noite de 8 de março de 2010 na Igreja de Santo Alexandre, onde Tiago contou com a ajuda muito especial de outro paraense que fez carreira na Alemanha: o pianista Paulo José Campos de Melo.
O recital de Tiago foi muito bom para alguém da idade dele e ainda sem carreira regular como solista (já é regular como coralista). Ele iniciou cantando a ária We shall I seek the charming fair cantada por Acys na ópera (na verdade, mas uma pastoral) Acys e Galatea. Foi uma escolha inteligente. É uma ária que favorece a voz sem agredi-la. Bom fraseado, boa colocação vocal. Força vocal controlada. A afinação derrapou em uma ou outra nota, mas nada que comprometesse o todo.
No recitativo Stay, Sheperd, Stay seguido da ária Sheperd, what art thau pursaing? Cantada por Banon já houve um melhor resultado vocal, colocação vocal mais adequada e ornamentos realizados sem medo. Houve uma ótima leitura do estilo barroco e apesar do acompanhamento com piano, o som barroco de Haendel foi garantido. Somente senti uma força acentuada na voz que prejudica a leveza da ária de Haendel, leveza fácil de encontrar nos especialistas do repertório barroco.
Mas heis que o programa abandona o barroco e vai para o clacissismo austríaco de Mozart com as árias Il mio tesoro intanto de D. Otavio (D. Giovanni) e Un’aura amorosa de Ferrando (Così fan tutte). A força presente em Haendel se fez explicar na ária de D. Otavio. A voz de Tiago aqui “aconteceu” plenamente. Brilhou, simplesmente brilhou. Quem conhece Francisco Araiza lembrará de sua interpretação desta ária: forte, vigorosa, mas extremamente apaixonada. Lógico que Tiago ainda está aquém de alcançar o nível de Araiza, mas os elementes básicos já estão todos lá. Sentindo muito bem a interpretação, o público retribuiu com uma pequena ovação.
Se a voz de Tiago não foi 100% no Haendel, no Mozart foi 200%. A ária de Ferrando, apaixonada, melodiosa, e requerente de muita musicalidade do intérprete não é, por isso, uma ária fácil de ser cantada. Nela, Tiago repetiu o bom desempenho da ária anterior. Provavelmente teremos, no futuro, um grande intérprete de Mozart, pois sua voz encaixa perfeitamente na escrita do gênio austríaco. É só estudar muito com alguém que entenda de canto e saiba preparar um grande cantor mozartiano. O rosto fica por conta de um bom agente.
Do classicismo mozartiano para o romantismo do “velho rococó” Gioachino Rossini. Aqui a ária apresentada foi uma jóia para a voz de tenor lírico-ligeiro: a ária Languir per uma bella cantada por Lindoro na Italiana na Argélia. Rossini não está muito longe, em termos de sonoridade (intensidade do som) do Mozart da maturidade, mas certamente é mais exigente em termos vocais. Rossini é desses operistas que todos querem cantar mas poucos, de fato, cantam: é um compositor para especialistas. Sua rica ornamentação vocal, sua rítmica peculiar, sua visão particular e muito técnica do teatro operístico exigem o sentar e estudar. Tiago, que já cantou Rossini anteriormente, encarou o “velho rococó” com bastante coragem. Voz ágil – embora tenha quebrado levemente em alguns agudos -, clara, com a força típica da ópera italiana e com a leggerezza própria de Rossini. Em suma, uma grande interpretação para um tenor lírico-ligeiro na sua idade e no seu nível, lembrando sempre que Tiago atua mais como coralista que como solista.
Passado o rápido intervalo entrou em cena Franz Schubert com duas pérolas do lied alemão: Die Forelle (A Truta) e Am Feierabend (do ciclo “A Bela Moleira”, Op. 25). Die Forelle foi bem cantada, porém muito técnica. Faltou a leveza e desenvoltura no canto. Ouçam Fritz Wunderlich nesta canção: é mais que ouvir música; é um acontecimento religioso, pois merece reverência. Já Am Feierabend foi melhor pelo seu caráter apaixonado. A voz de Tiago se adequa melhor ao repertório vocal que exige um canto forte; no suave, ele deixa a desejar. É uma questão de adequação vocal ao repertório.
Oh! Quand je dor é uma poética canção de Liszt, própria daqueles momentos apaixonados do belo húngaro. Música romântica para não se botar defeitos (mesmo porque ela não os têm); é dessas canções que só homens apaixonados escrevem e só homens apaixonados cantam. Tiago foi apaixonadíssimo ao cantá-la.
Tem muito brasileiro que prefere cantar europeus e deixar o lied brasileiro de lado. Coisa de explicação complexa para mim, pois envolve não somente gostos musicais, mas a (des)valorização da música brasileira (da qual Villa-Lobos é bandeira) frente a música estrangeira, sobretudo a européia, que muitos dos nossos (ainda) insistem em impingir à nossa música. É a febre dos importados frente o produto nacional que prejudica um julgamento honesto da nossa música perante a Europa.
Tiago Costa deixou de lado essa contenda histórica e cantou o Lundu da Marquesa de Santos de Villa-Lobos (aquele danadinho!) de forma tão lírica que o momento simplesmente brilhou.
A Serenata; igualmente de Villa-Lobos, é música séria (no caráter) e de grande envergadura emocional. Aqui as cores escuras predominam e fazem o seu caráter ser quase operístico mas, na verdade, é a velha tragédia brasileira posta em música. Tiago e Paulo José fizeram aqui uma grande interpretação. Música de conjunto mesmo.
Joaquim Turina finalizou o recital com sua Homenage a Lopez de Vega, Op. 90 contendo os lieder Cuando tan hermosa os miro (de la Discuta enamorada), Si con mis deseos (de la Estrella de Sevilha) e Al val de fuente ovejuna (de la Fuente Ovejuna). Os três lieder foram cantados de cor por Tiago que visivelmente buscou imprimir uma grande interpretação aos três com muita força de espírito e sentimentos. Estes lieder foram um grand-finale ao recital.
Muito aplaudido, Tiago voltou e surpreendeu-nos com o bis: a ária O lêve-toi soleil da ópera Romeu e Julieta do francês Gounod. Ópera de repertório e uma ária sempre executada em concertos e gravada pelo mais diversos tenores. É música apaixonada, própria para um tenor lírico de ópera, não de coro. Tiago cantou muito bem e me surpreendeu com a interpretação cheia de força, vivacidade, brilho vocal; em suma, cantou com gosto esta bela ária do repertório operístico tradicional. Um grande bis.

2ª. Parte:

Schubert: Die Forelle


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Schubert: Am Feierabend


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Liszt: Oh! Quand je dors


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Villa-Lobos: Lundu da Marquesa de Santos


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Villa-Lobos: Serenata

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Turina: Homenage a Lopes de Vega Op. 90
I. Cuando tan hermosa os miro (de la Discuta Enamorada)

II. Si con mis deseos (de la Estrella de Sevilla)

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1ª Parte:

Haendel: We shall I seek the charming fair - ária de Acys (Acys e Galatea)

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Haendel: Stay, sheperd, stay...Shperd, what art thau pursaing? Ária de Banon


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Mozart: Il mio tesoro intanto (ária de D. Otavio - D. Giovanni)

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Mozart: Un'aura amorosa (ária de Ferrando - Così fan tutte)


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Rossini: Languir per una bella (ária de Lindoro - L'italiana in Algeri)


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