RELEMBRANDO A ORQUESTRA DE CÂMERA DO PARÁ


A extinta Orquestra de Câmera do Pará, que durante os anos de existência, foi um dos melhores grupos camerísticos do Brasil, com sua qualidade reconhecida tanto pelo público quanto pela crítica, ainda hoje causa saudade naqueles que como eu tiveram o prazer (imenso) de ouvi-la tocar.
Ela foi formada no primeiro semestre de 1988, pouco antes da criação do então denominado Festival Internacional de Música de Câmera do Pará: em 2000, o festival perdeu a designação de câmera para atender ao seu imenso crescimento e diversificação musical de sua programação.
A orquestra teve como spalla e regente o búlgaro Eugeni Ratchev, que veio diretamente para Belém em 1987 a convite da Fundação Carlos Gomes (igualmente recém criada) para trabalhar como professor de violino no Conservatório Carlos Gomes juntamente com seus compatriotas Haralampi Mitkov e Petar Saraliev. Os três juntaram-se ao violinista paraense Afonso Barros e formaram o Quarteto de Cordas Belém; sendo esse o embrião da Orquestra de Câmera do Pará.
A OCP foi um dos grupos criadores do Festival Internacional de Música de Câmera do Pará, fazendo sua primeira apresentação na história desse que é o maior festival musical do norte e nordeste do Brasil na noite de 24 de maio de 1998, isto é, a segunda noite do Festival. A OCP voltou a se apresentar na noite de 1 de junho juntamente com todos os grupos participantes para a apresentação da primeira Orquestra do Festival, uma tradição que só foi interrompida vinte anos depois quando o governo Ana Júlia Carepa não permitiu a formação dessa orquestra por conta da redução da verba liberada para o Festival, e logicamente aliada a total falta de prática que o Partido dos Trabalhadores tem em lidar com a cultura de modo geral.
Mesmo depois da criação da Orquestra de Câmera do Pará o Quarteto Belém continuou suas atividades em paralelo às da orquestra para mais a frente ser desfeito. O Quarteto Belém também se apresentou ao lado da OCP no 1º Festival Internacional de Música de Câmera do Pará.

A primeira formação da OCP contava com os seguintes músicos:

Violinos: Eugeni Ratchev, Nildo Baía, Corina Brito, Jorge Catete, Afonso Barros, Flávio Costa, Edir Duarte.

Violas: Haralampi Mitkov, Jairo Chaves

Violoncelos: Petar Saraliev, Milene Aliverti

Cembalo: Irina Ratchev

Contrabaixo: Marin Iliev

A OCP teve depois vários outros músicos integrantes e continuou sua trajetória de sucesso em Belém até que em 1993, ano do 6º Festival, ela tomou um rumo totalmente inovador na música erudita paraense. Nesse Festival, a FCG já cogitava a possibilidade de firmar convênio com o governo paraibano para a formação de uma orquestra que pertenceria aos dois estados, apresentar-se-ia neles e nos outros do Brasil, mas a história andou em outro rumo. O então governador do Pará, Jader Barbalho, apoiou a causa da Fundação Carlos Gomes e as insistências de Glória Caputo (então presidenta da Fundação) nesse caminho. Doou instrumentos à FCG e com as cordas da Orquestra de Câmera do Pará criaram a Sinfonieta que depois foi transformada na Orquestra Sinfônica do Teatro da Paz. E assim, a lacuna sinfônica no Pará estava finalmente preenchida. Mas perdemos uma das maiores glórias musicais que o Pará teve em todo a sua história.

Embora a Orquestra de Câmera do Pará tenha sido extinta, e um dos motivos de sua extinção foi a criação da Orquestra Sinfônica do Teatro da Paz, a sua sonoridade ficou registrada em um CD gravado sob patrocínio do Governo do Estado do Pará, via Secult, e Companhia Vale do Rio Doce em 1992, sendo lançado na abertura do VI FIMCAMP em 24 de maio de 1993 no Teatro da Paz. É este CD que o link abaixo oferece a possibilidade de download. Ouçam a pureza da música dessa orquestra que deveria ser lembrada por todos aqui em Belém, mas que a memória curta dos brasileiros não permite ser lembrada.

O CD foi editado por Otto Drechsler, que também fez a direção de gravação e edição do disco. Pecado mortal foi deixar as obras de Tchaikovsky e Janacek sem a divisão dos movimentos; cada obra foi gravado numa única faixa, o que impossibilita a escolha direta dos movimentos da Serenata para Cordas de Tchaikovsky e da Suite para Orquestra de Cordas de Janacek, ambas executadas ao vivo mais de uma fez pela OCP. Sendo esta edição "em bloco" a única objeção que faço ao disco. Bom mesmo é ouvir essa única gravação de uma orquestra única na história do Pará. Para aqueles que nunca visitaram Belém, somente um adendo. Na contra capa o teatro informado é o Margarida Schiwazzappa, mas a foto foi feita na escada do saguão do Teatro da Paz.

CD - Orquestra de Câmara do Pará


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