RECITAL DO DUO FREIRE-ROSSELINI

Na noite de 18 de fevereiro, portanto, logo após o carnaval 2010, o duo de flauta e piano formado pelos ótimos Maurício Freire (piano) e Miguel Rosselini (piano). O duo cumpriu o programa divulgado sem nenhuma alteração e brindou o público com um movimento de uma sonata para flauta e piano que Mozart escreveu aos 7 anos de idade, logicamente, sob a orientação de Leopold; o que foi comum na formação do milagre salzburguês e um noturno do brasileiro Ary Ferreira.
Instrumentistas de sólida formação musical, ambos tocam com a firmeza própria dos músicos com sólida formação técnica. Som límpido, esclarecido, sem sujeira, bem articulado e evidente compreensão da linguagem musical dos compositores escolhidos.
O programa manteve uma linearidade na sonoridade, do início ao fim, não destoando quase nada, embora os compositores escolhidos sejam de estéticas distintas: o romântico Schumann, o brasileiro Brenno Blauth e o moderno Prokofiev. Bom para os nossos ouvidos que não sofreram com choques sonoros bruscos pela agressiva mudança estilística de alguns programas mal elaborados; o que não foi o caso.
Os três romances Op. 94 de Schumann são um primor da poética musical do compositor saxão. Maurício Freire tocou sua flauta com tal limpeza sonora que mais parecia ser a reprodução de um CD, acompanhado corretamente por Miguel Rosselini.
Brenno Blauth foi executado logo a seguir com a sua Sonata T. 5 para flauta e piano. Não conheço a obra desse compositor que viveu entre 1931 e 1993, assim não posso fazer considerações estilísticas sobre sua obra. A música tem uma sonoridade claramente tonal, mais ligada ao modernismo brasileiro que às vanguardas dissonantes da Europa.
O programa terminou com um obra neoclássica de Prokofiev: a Sonata para flauta e piano nº. 2 que esperando ser cheia da boa acidez de Prokofiev antes de retornar à URSS revelou-se uma música tranquila, cálida onde o modernismo do compositor russo se fez mais presente na estrutura da sonata: é uma sonata clássica ao contrário com alteração no último movimento da estrutura padrão usada no período clássico. Ao invez de construir sua sonata na seguinte ordem 1) Allegro 2) Andante 3) Scherzo ou Minuetto 4) Rondó ou Allegro, Prokofiev a estruturou assim: 1) Moderato 2) Scherzo 3) Andante 4) Allegro con brio. Como se pode ver a estrutura da sonata-clássica está invertida, dando a sensação de ouvirmos uma sonata clássica do último para o primeiro movimento. Uma concepção simples, porém genial na minha opinião. Uma obra de porte galante para finalizar esse recital único no início da temporada de concertos 2010 em Belém do Pará.
Como bis foram apresentadas o Allegro da já referida sonata para flauta do menino Mozart e um bonito noturno de Ary Ferreira. Infelizmente. não fiz gravações nem em áudio nem em vídeo dessa bonita apresentação. Fica para uma próxima vez.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

ESSA NEGRA FULÔ: ANÁLISE

FORMA E ESTRUTURA NA ÓPERA: CENA III - ESTRUTURAÇÃO DE UMA ÓPERA

Mozart: Bastião e Bastiana em português e com sotaque paraense