O ENCERRAMENTO DO IV FESTIVAL INTERNACIONAL DE ÓPERA DA AMAZÔNIA

Na calorenta noite de 2 de outubro de 2010, já em pleno clima de Círio de Nazaré, o IV Festival Internacional de Ópera da Amazônia encerrou sua parca e fajuta programação, certamente ganhando o título de pior ano do Festival de ópera.

A programação contou com somente uma ópera montada e alguns recitais líricos na Igreja de St. Alexandre e Museu do Estado do Pará, totalizando quatro récitas contra uma dada no Teatro da Paz, excluindo a montagem de La Traviata, pois essa deve figurar na categoria montagem.

Os concertos líricos foram os dados por Carol Hill (soprano) e o pianista David Hill, Rosana Schiavi e a pianista paraense Adriana Azulay; ambos em St. Alexandre e o Concerto Lírico usado para reabrir o Teatro da Paz após a sua breve e ligeira reforma, feita às pressas após a queda do foro do saguão de entrada no primeiro semestre deste ano.

Além destes concertos fechados no lírico, João Augusto Ó de Almeida, tenor paraense, apresentou a integral do ciclo O Amor do Poeta, contando novamente com a competência do pianista paraense Davi Martins, ex-aluno de Selma Chaves. Concerto oportunista e para encher programação já que de operístico nada teve.

Mas oportunista mesmo foi usar o concerto da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais dentro da programação do festival, já que este concerto é da turnê 2010 desta orquestra por várias capitais brasileiras, e claro, nada de operístico teve: novamente.

Uma palestra com Sérgio Casoy e o lançamento do livro “Histórias Invisíveis do Theatro da Paz” completaram a programação que deve ser esquecida para não passarmos vergonha e lembrada somente na hora de não cometer novamente tal erro primário de profissionalismo na área de produção cultural.

Mas agora irei para o concerto de encerramento dado, como já é tradição, em frente ao Teatro da Paz com os solistas e a orquestra, literalmente, fazendo música ao vento; o que não é de mais e sim de menos, pois o calor belenense está insuportável.

Cheguei a tempo de ouvir a abertura-fantasia Romeu e Julieta de Tchaikovsky na sua sessão final. Novamente música não operística sendo usada: será que as cabeças que programam os festivais ainda não entenderam o que é um festival temático? Creio que não.

Este concerto de encerramento nem de longe lembrou o brilho e a alegria de outros anteriores. Todo mundo cantando com o pé no freio, meios sorrisos, andamentos arrastados, pouco brilho vocal e quase nenhum tesão. Pareceu mais um réquiem. Ópera mesmo, muito pouco.

Manuel Alvarez cantou com gosto a Canção do Toureiro, mas como o coro foi deixado de fora, a ária perdeu muito de seu brilho. E o coro estava sentado lá no pátio do saguão do teatro, só ouvindo o canto de Manuel.

Lyz Nardotto, voltou a ser solista depois de suas participações como comprimária em Romeu e Julieta (2009) e La Traviata este ano. Cantou a Valsa de Julieta com um tal desânimo e peso vocal, deixando o ar juvenil da garotinha veronesa completamente ausente da música de Gounod. Neste momento não sabia se a classificava como um soprano lírico de coloratura ou lírico-ligeiro tão pesada e escura estava a sua voz para um soprano que tem muita coloratura na voz. Coisa esquisita.

Ela voltou depois para cantar com mais propriedade vocal, embora sem muito sentimento, a O mio babbino caro. Aquele sentimento apaixonado da música de Puccini foi com o vento. Literalmente. Garbo mesmo ela aplicou na reprise da segunda ária da Rainha da Noite; mas é visível que sua voz já não atende às exigências da partitura, sabidamente escrita para um soprano coloratura puro, coisa muito difícil de se encontrar há muito tempo.

Alfa de Oliveira, com voz muito mais organizada que nos anos anteriores, voltou a solar, embora a sua participação tenha sido ínfima em La Traviata (como foi a participação de todos os paraenses). A seu favor conta o fator dela ser uma verdadeira cantora lírica, com voz e postura de uma artista da ópera. Contra, estão todas as escolhas erradas feitas por ela que a tiraram da estrada do sucesso e da carreira. Sobrou...bem deixa pra lá.

No vai e vem de solistas o concerto terminou com o manjado Brindisi da Traviata. Tão reprisado em concertos pelo mundo que já perdeu a graça. Prometeram um festival em 2011. Espero um festival de verdade, não um fajuto como este.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

ESSA NEGRA FULÔ: ANÁLISE

FORMA E ESTRUTURA NA ÓPERA: CENA III - ESTRUTURAÇÃO DE UMA ÓPERA

Mozart: Bastião e Bastiana em português e com sotaque paraense