sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

A HORA E A VEZ DO JAZZ

O LIBERAL, Belém, Sexta-feira, 6 de junho de 1997 3
Dentro da programação do festival de música de câmara do Pará, o trio Pentagrama se apresenta amanhã no Núcleo de Arte da UFPA
O Pentagrama se apresenta amanhã à meia-noite no Núcleo de Arte da Universidade Federal do Pará, na Praça da República. O espetáculo é parte do X Festival Internacional de Música de Câmara do Pará, que acontece desde o dia 1º e encerrará neste domingo. O show é imperdível para os amantes do jazz. O trio jazzístico formado pelo pianista Nelson Neves, pelo baixista Adelbert Carneiro e pelo baterista José Sagica, todos músicos de primeira linha, foi formado em 1989 e tem a proposta de desenvolver uma linguagem própria. No programa: “Some Day My Prince Will Came” *”Um Dia Meu Príncipe Chegará”), de Churchill, um tema de Branca de Neve; “Tamba Tajá”, do maestro Waldemar Henrique, que ganhou o devido tratamento para ser encaixada como jazz; “Emily”, de Johny Mandel; “Super Blue”, de Bernard Ighner; e duas composições de Nelson Neves: “Ballad for Lucila” e “Find Out”.
Na “Meia-noite de Música” o público paraense terá a oportunidade ímpar de conhecer o suingue negro do jazz, um tipo de música que não admite meio termo: ou se gosta ou não se gosta. Nelson, 38 anos, que leciona piano no Conservatório Carlos Gomes, tem uma formação clássica. Ele começou a tocar aos quatro anos e nunca mais parou. Foi bolsista do governo nos Estados do Rio de Janeiro e São Paulo, onde aprimorou seus conhecimentos e viveu nos Estados Unidos, estudando música na Universidade de Columbia, em Missouri. Para ele, não há formação melhor para o músico de jazz que a erudita. “É imprescindível. É nesta formação que se adquire a técnica”.
Nelson sempre gostou de música popular, mas seu contato mais detido com o jazz foi no final da década de 70, no Rio de Janeiro. Ouviu Bill Evans, “um branco que conseguiu entrar no mundo negro do jazz e que foi considerado um gênio pela crítica americana”, e nunca mais largou o ritmo. Desde então, se apaixonou pelo jazz. E se depender do músico esse romance é para a vida toda.
O pianista fala com empolgação do ritmo que elegeu para marcar sua carreira: “O suingue é o elemento vivo do jazz. Vinte músicos de uma big band podem tocar uma nota curta em frações de segundos e às vezes ela nem pode ser escrita. Ou seja, ou você sente o momento ou você está por fora do jazz. O jazz não é algo que se toca, ele é “como se toca”. É ritmo, fraseado... Improviso! E com improviso vem a liberdade”. Para Nelson, o músico clássico consegue a técnica e interpreta. “Agora, o jazz é ao mesmo tempo três coisas: composição, interpretação e improvisação. Um barato e tanto”.
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SERVIÇO – O show do Pentagrama acontece a partir de meia-noite de sábado no Núcleo de Arte da UFPA, na Praça da República, como parte do X Festival Internacional de Música de Câmara do Pará. Deve durar de uma hora a uma hora e meia.
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GAFES EM NOITES DE ERUDIÇÃO

POUCO FAMILIARIZADA COM A ROTINA DOS CONCERTOS PLATÉIA AINDA NÃO SABE COMO SE COMPORTAR DURANTE UMA AUDIÇÃO

ANA CARINA SANTOS

A primeira vez que Zé foi a um concerto significou mais que um frio na barriga ou um encantamento pela beleza musical e plástica dos quase 100 instrumentos reunidos no palco. Houve gafes, aplausos nas horas erradas, duvidas e um programa com nomes complicados de compositores nas mãos e informações que seriam tocadas. Quando a orquestra tocou a última nota e finalmente vieram os aplausos “da hora certa”, Zé saiu pensando em contratar um professor de música para lhe explicar tudo o que queria e não queria saber sobre o concerto, ou nunca mais pôr os pés no teatro para ver uma sinfônica.

Pode ser que o Zé seja apenas um personagem fictício, mas a situação é bem real e sentida todos os anos no Festival Internacional de Música de Câmara do Pará. Depois de uma década do evento, claro que muitos já estão familiarizados com as rotinas das sessões eruditas e estes precisam conviver, na mesma platéia, com os que estão chegando agora à praia dos sons clássicos.

Por isso, nunca é demais destrinchar essas noites “de gala” cada vez mais populares entre os paraenses, que já têm até uma Orquestra Sinfônica que se apresenta todos os meses no Teatro da Paz de graça (oportunidade de ouro para praticar). Foi para ir em socorro dessas pessoas que o “Cartaz” ouviu o superintendente da Fundação Carlos Gomes e pianista Paulo José Campos de Melo para explicar, Tim-tim por Tim-tim, tudo o que pode significar alguma dúvida dentro do universo da música erudita.

Para começo de conversa, Paulo Campos Melo lembra que ninguém tem obrigação de ser profundo conhecedor de música para assistir a uma audição e, portanto, não tem motivos de sentir vergonha quando não conhece a obra a ser executada. Os programas distribuídos antes do início da apresentação foram criados para informar as pessoas sobre o que vai acontecer naquela noite. “Por isso é importante que as pessoas não cheguem atrasadas para ter tempo de ler o programa e também para observar o comportamento de outras pessoas na platéia que aparentem estar mais seguras”, ensina. “Com o programa em mãos qualquer pessoa pode acompanhar o concerto sem cometer gafes”. E como entender o programa?

Não há mistérios. Um programa padrão traz na sua primeira parte, em textos sucintos, informações sobre os autores das peças que serão tocadas e sobre os músicos que irão tocar – se é duo, quinteto, orquestra, os instrumentos etc.

Numa segunda parte, há o roteiro da noite, que deve ser observado com atenção. Em destaque, ao lado esquerdo da página, está o nome do autor da peça. Na coluna da direita está o nome da obra, por exemplo, “suíte para Quarteto de Sopros”. Logo abaixo do titulo da obra, estão especificados os movimentos da peça, no caso da “Suíte...”, são três: “Valsa”, “Marcha” e “Galop”.

CONCENTRAÇÃO – É aí que mora o perigo. Quando a obra possui um movimento único, tão logo os músicos parem, todos aplaudem e ponto final. Quando há mais de um movimento, porém, a convenção é que o aplauso só deve vir quando todos tiverem sido executados e que nos momentos de pausa prolongadas entre cada movimento, o silêncio deve imperar. Por quê? Campos Melo explica que um movimento é como se fosse um capítulo de um livro, ou um ato de um espetáculo teatral. Faz parte de um contexto, de uma obra inteira, que precisa ser ouvida para ser compreendida (ainda que os movimentos possam ser executados isoladamente). O aplauso não deve acontecer, porque quebra a ligação entre os movimentos, tira a concentração dos músicos e atrapalha a execução. “A música é menos flexível que uma peça de teatro, onde um aplauso em cena aberta é considerado glorioso. Se o músico perde a concentração, é como se tivesse que recomeçar do zero a execução da obra, perdendo tudo o que tinha conquistado antes”.

A explicação convence, mas Campos Melo também lembra que esse aplauso fora de hora nem sempre é negativo. Pode ser o efeito de quebrar o gelo entre os músicos e uma platéia desconhecida, acabando com a tensão e, conseqüentemente, melhorando o desempenho do artista. “Não é o pior crime. Pode acontecer, desde que não se torne insistente, atrapalhando a música”, diz. “Também temos que lembrar que o público brasileiro e ainda mais o de Belém, porque muito jovem, é impulsivo. Existe uma cultura do barulho. Quanto mais barulho a platéia faz, mais gostou”.

Resumindo, quando tiver dúvidas, dê uma olhadinha no programa, que está ali para salvar os desavisados das gafes. E se o que você ouviu foi fantástico demais para que se contenha, pode aplaudir e até gritar um “bravo”, desde que com moderação. E para os radicais, é bom lembrar que os “ssshiiisss” para pedir silencio são piores do que os aplausos.

Campos Melo também dá outra dica para saber a hora exata de ovacionar os artistas: os sinais dos músicos no palco. Segundo ele, em toda apresentação, os artistas sempre dão sinais de quando a execução da peça chegou ao fim ou de quando é somente uma pausa entre movimentos. “O músico só olha para a platéia quando termina a peça. Antes, por mais que existe o instrumento ou relaxe a postura, esta sempre “dentro” da obra, olhando para a partitura, concentrado”, descreve.

Outros sinais bem claros podem ser “lidos” durante o concerto: o regente de uma orquestra só abaixa os braços quando termina tudo. Os músicos, sempre que terminam uma obra, se erguem para receber os aplausos do público. O pianista só tira as mãos do teclado quando acaba a peça e o violinista só tira o instrumento do ombro quando termina, por exemplo. Observar esses detalhes não significa que o espectador vá ficar tenso na cadeira, sem sequer piscar, só para descobrir qual a hora de aplaudir, pelo contrário, contrário, poderá dar outra dimensão à audição, mais plástica e visual.

NÃO ERRE MAIS

Verbetes ajudam a compreender

Descubra agora o que significam os verbetes mais comuns dos programas de audições clássicas:

· Concerto: É uma obra composta por três movimentos, que alternam tempos e ritmos (graves, rápidos e lentos). O concerto é sempre produzido para um solista e uma orquestra, podendo acontecer, ainda que raramente, um concerto em que a própria orquestra é solista. Um concerto pode durar de 20 minutos a uma hora.

· Movimento: São peças que podem ser tocadas isoladamente, mas fazem parte do contexto de uma obra inteira mais ampla. Apesar da independência entre si, foram compostas pelo artista com o pensamento de unidade da obra.

· Tempo: É a pulsação da música, a velocidade com que é tocada, sempre designado a partir das classificações dadas pelo compositor na partitura para cada um dos movimentos lentos, vivos, rápidos ou graves.

· Allegro, Allegretto, Allegro vivace: São ritmos vivos e rápidos da música.

· Andante, Adagio, Adantino, Largo, Adagio: São os ritmos mais trágicos, calmos e lentos dos movimentos.

· Graves: São movimentos curtos, que anunciam ou um grand finale ou um grand início. Dificilmente se encontra um movimento inteiro com tom grave.

· Presto, Prestissimo: São os muitos alegres, rapidíssimos e os mais livres movimentos.

· Suítes: Foram criadas para a diversão das cortes. É uma obra composta por vários movimentos dispostos por vários movimentos de ritmos dançantes (rondó, minuetos, valsas, prelúdios, courante, gavotes, gigas, etc.). O número de movimentos é limitado, mas segue sempre a mesma estrutura de alternância de tempo entre os movimentos do concerto.

· Sonata: Este gênero musical atingiu seu apogeu na era romântica. Uma sonata clássica tem três movimentos, mas existem composições com dois, quatro e até um único movimento. A sonata é uma obra composta para poucos instrumentos, apenas dois ou três.

· Prelúdios: Peças musicais pequenas que são independentes mas que podem fazer uma introdução a uma obra. Geralmente anunciam as fugas.

· Fuga: É um tema (sequencia) musical que se repete durante toda a peça, trabalhando em diversas tonalidades encadeadas.

· Baladas: É a mesma coisa que as baladas populares conhecidas hoje, em versão clássica. Atingiram seu apogeu no romantismo.

· Tocatas: Peças pequenas, mais agressivas e rítmicas.

· Sinfonia: É uma sonata feita para uma grande orquestra. O que difere uma sinfonia de um concerto é que, na sinfonia, não existe a figura do solista e os momentos de solo são divididos entre os naipes musicais.

· Naipes: São as classes de instrumentos que compõem a orquestra. Cordas, sopro de madeira, metais e percussão.

· Ópera: É o drama ou comédia musicados. Os personagens, em vez de falarem, cantam e são acompanhados por uma orquestra.

· Orquestra: É a reunião de um grande número de músicos no palco. Existem orquestras de naipes específicos, tipo orquestra de cordas, orquestra de metais etc. as orquestras sinfônicas reúnem todos os naipes existentes. Pode-se classificar de orquestra a partir de oito instrumentos, em alguns casos, mas uma sinfônica precisa ter, no mínimo, 50 instrumentos em sua composição.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Paixão em todos os tons

O LIBERAL, Belém, 4 junho 1997. Caderno Cartaz, p. 8.
Romena naturalizada americana há 25 anos, a violinista Eva Szekely, 46 anos, conhece Belém há mais de 15 anos. Acompanha o Festival de Música de Câmara do Pará desde sua primeira edição, em 1988, encantada com o entusiasmo do público jovem de Belém pela música erudita e pela beleza do Teatro da Paz. Szekely está em Belém para participar do X Festival de Música de Câmera.
A música erudita em sua vida é herança de família, já que o pai era músico amador que tocava viola e chegou a compor uma orquestra por um curto período de tempo. Todos os membros da família sempre tiveram mergulhados em óperas, sinfonias e sons. O violino, instrumento que Szekely adotou como seu, foi presente de Natal quando tinha seis anos, momento que ela considera como marco de sua carreira. Szekely diz que não tem lembrança de uma época em que tenha pensado em fazer outra coisa a não ser música. Começou aí seus estudos musicais. Aliás, tradição pouca é bobagem: o violino que utiliza em suas apresentações e carrega para cima e para baixo em todas as viagens que faz foi feito há 309 anos, em 1689.
Na década de 70, a família Szekely imigra para a América, fugindo da opressão comunista romena. Escolhe a cidade de Nova York para garantir os estudos musicais da filha única. Aos 22 anos, Eva Szekely já é profissional, e hoje, depois de 24 anos de carreira, é professora da Universidade de Missouri e já viajou pelo Canadá, Europa, França, Grã-Bretanha, Itália, Áustria, Argentina, Paraguai, Chile e Venezuela. No Brasil, a cidade que mais conhece é Belém, mas já tocou em Brasília e Londrina, onde deverá dar um curso no mês de julho, durante o festival de música da cidade (uma turma de estudantes do Conservatório Carlos Gomes já prepara as malas para acompanhar e aprender com a mestra).
Seu “caso de amor” com Belém e o Festival de Música de Câmara do Pará começou graças a um convênio existente entre os Estados “irmãos” do Pará e Missouri, que fazem parte da Organização Companheiros da América, grupo voluntário criado com o objetivo de estreitar laços e promover o intercâmbio cultural no continente americano. Hoje, porém, o casamento já é completamente independente e dá sinais de ter vida longa. Foi num dos festivais paraenses, há 3 anos, que Eva Szekely conheceu o violoncelista paulista Antonio del Claro e com ele e o pianista Daniel Schene formou o Trio Américas (que se apresentou ontem no Teatro da Paz). Eva Szekely, instrumentista e professora, é a nosso perfilada da semana.
Música – É a única linguagem universal, capaz de comunicar sem palavras. É beleza, emoção e amor.
Ritmo – É dança, energia e disciplina. Eu gosto muito de dançar. O início da música é o ritmo; acredito que lá na pré-história o ritmo já existia antes da palavra como expressão do homem. É a coisa mais fundamental da música.
Preferências – Sou grande amadora de jazz, principalmente da década de 40. Gosto dos outros ritmos e das outras épocas também, mas em especial este porque os músicos que surgiram, Armstrong, Ella Fitzgerald, tinham altíssimo nível. Gosto de música – seja erudita, seja popular -, basta que tenha qualidade.
MPB – Acho que é a maior exportação brasileira, tem altíssimo nível e é muito forte no mundo. Do Brasil tem duas coisas conhecidas lá fora: a Música Popular Brasileira e o café (ri). Para mim, o talento do Brasil é o entusiasmo pela música. O brasileiro canta e dança sempre, não é uma pessoa presa. Gosto do Gilberto Gil, do Tom Jobim e ouvi falar da Maria Bethânia.
Primeiro contato com Belém – Não era a idéia de vir tocar no Brasil, mas na Amazônia. Isso me parecia excêntrico. Eu realmente não esperava uma cidade tão grande, pensava nela menor, dentro da Amazônia. Foi uma surpresa.
Teatro da Paz – Este foi a grande, a maior surpresa. É um dos teatros mais lindos do mundo e, sem dúvida, é o mais bonito a América do Sul. É sempre um grande prazer tocar nele durante os festivais.
O Festival – Tem um nível bastante alto e está cada vez melhor. Os profissionais daqui são muito bons e os convidados são sempre grandes nomes da música. O Festival de Música de Câmara do Pará já tem um nome e uma tradição no continente. Quando fomos à Argentina, por exemplo, perguntamos e todos os músicos sabiam e respeitavam o festival. O melhor, porém, está na característica de ser um festival de música de câmara. A música que se escuta aqui é de grupos de câmara: trios, quartetos, quintetos, quintetos, sinfônicas. Não só duos e solos, como é mais comum.
Público – O Brasil, especialmente Belém, tem a peculiaridade de um público jovem com entusiasmo e interesse pela música. Na Europa e Estados Unidos, a média de idade do público amante de música clássica é de mais de 50 anos. O festival teve essa missão de abrir a porta da música para gente jovem, de formar um público. Para nós, músicos, a coisa mais importante é fazer a música interessar a nova geração.
Reações e aplausos fora de hora – O público de Belém é muito simpático e entusiasta. As reações são sempre de instinto, muito honestas. Quando toco aqui, é como se o público estivesse envolvido, unido em cada uma das notas junto comigo. Esse tipo de interesse é natural dos estudantes de música, mas no Festival não são apenas os estudantes de música que estão na platéia; é geral.
Tocar ou ensinar – Sem dúvida, gosto mais de tocar, é expressão pessoal. Mas o trabalho de ensinar é uma obrigação ética, artística, porque estou interessada em passar a música para a nova geração, como meus professores passaram para mim. Às vezes eu acho que a importância do meu trabalho está mais em ensinar e que tocar também é como ensinar para o público. É como abrir uma porta para uma pessoa que nunca teve contato antes com a música. É preciso cativar, apresentar para ela a música de maneira que queira voltar para assistir outro concerto, e outro e outro.
Festival abre espaço para a MPP
PROJETO “MEIA-NOITE DE MÚSICA” PROSSEGUE HOJE NO NÚCLEO DE ARTE COM WALTER BANDEIRA E PAULO JOSÉ CAMPOS DE MELO
Popular num festival erudito, por que não? Pela primeira vez, em 10 anos, a Fundação Carlos Gomes incluiu na programação do Festival Internacional de Música de Câmara um projeto dedicado à música popular. O “Meio-Noite de Música” começou ontem, no Núcleo de Arte da UFPA, com a apresentação de Salomão Habib, seu violão e seus convidados.
Os shows acontecerão sempre à meia-noite e têm estrutura pequena, de dois músicos, perfeita para ser adaptada em bares. O superintendente da Fundação Carlos Gomes, Paulo José Campos de Melo, justifica dizendo que o “Meia-noite...” é uma experiência piloto para descobrir se há público para o projeto e se vale a pena investir em sua ampliação.
Campos Melo conta que o projeto de música popular surgiu de uma idéia do jornalista Nélio Palheta (Imprensa Oficial do Estado) para aproveitar o potencial turístico do Festival. A princípio, o “Meia-noite...” envolveria todos os bares de Belém, com programações especiais de shows dos músicos paraenses que tocam na noite. “Há um grande potencial turístico, em que eu acredito. Durante o Festival, os acompanhantes dos músicos, ou os músicos que não estão ensaiando nem tocando e não queiram assistir à programação oficial, no teatro, fazem o quê? Saem, vão se divertir nos bares, vão dançar”, diz Campos Melo.
A idéia também serviria para valorizar os músicos paraenses, cultivando uma nova forma do público de barzinho encarar a música. “Eu não fico num bar onde o volume da música seja tão alto que não dá para conversar. O que acontece é que as pessoas vão para os bares e não se interessam pela música e pelos músicos. Daí que o barulho é cada vez maior e o volume do som também aumenta, prejudicando a qualidade musical do artista”, analisa.
Outra conseqüência natural do circuito de shows populares nos bares como programação do festival, segundo Campos Melo, é o envolvimento da cidade, tornando o Festival Internacional de Música de Câmara um evento menos restrito. “Temos um público cativo, mas ele ainda é limitado às pessoas que gostam de música clássica. As apresentações em bares fariam com que a cidade entendesse a importância desse festival, que já tem uma tradição e está quase grande demais para as possibilidades de realização da Fundação Carlos Gomes”, diz o superintendente.
Com limites de recursos financeiros e humanos, já que a Fundação não tem uma equipe de produção de eventos, ficou impossível realizar o “Meia-noite...” nos bares. “Mesmo assim, insisti na idéia e programei as apresentações no Núcleo de Arte para testar”, conta Campos Melo. “Nos bares, teria que haver uma mudança de costumes também. As pessoas teriam que se predispor a sair de casa para assistir a uma apresentação musical durante, pelo menos, uma hora. Os donos dos bares, por exemplo, não deveriam colocar música mecânica no mínimo durante meia hora antes da apresentação, ou as pessoas não percebem quando o músico entra”, opina.
O próprio superintendente vestiu a camisa do projeto e foi à luta. Participa de duas apresentações no Núcleo de Artes: hoje à noite, acompanha no piano o cantor Walter Bandeira e diz que está “provocando os limites do cantor, com músicas que exigem mais a voz e menos o showman”. Na sexta-feira, acompanha a cantora e esposa Angelika Campos Melo, especialista em canções de língua românicas (português, espanhol, Frances, italiano, canções cubanas e do folclore calabrês). “É um projeto que eu acredito que tem futuro”, diz.

O momento das palmas

O Liberal, Belém, 15 junho 1996. Caderno Cartaz, p. 7.

GAFES E LIÇÕES SOBRE O MOMENTO DE APLAUDIR NUM CONCERTO DE MÚSICA ERUDITA

Você sai de seu trabalho, num dia estafante, e resolve ir ao teatro para ver aquele velho concerto erudito que você nunca tinha se permitido conhecer. Senta na poltrona, escuta uma sineta – tirando a atenção da novidade que vai da palhinha da cadeira até o lustre do teto do teatro – e vê entrar aquele grupo sóbrio de engravatados e seus instrumentos.

Tudo corre bem. Com os olhos num tal “Verdi” sob o papel, você até se sente chique e chega a apreciar aquela música com o folheto do “programa” nas mãos. “Mas que beleza...Mas que maravilha. Vai terminar, terminou...Ah, mas eu vou bater...”, pensa você, quando de repente se vê batendo palmas sozinho sob severos “- chhiiisss” de um pessoal nada amistoso sentado nas cadeiras da fileira inteira de trás: “Ainda não era hora. Só faça isto depois do último movimento garoto”, cutuca com o guarda chuva uma anciã, por cima dos óculos.

Antes que o vermelho das faces dê lugar a um suicídio – e também a algumas manchas vermelhas no chão e no preciso veludo do teatro -, vale saber que você não é a única pessoa do mundo – quem acompanhou a programação da última versão do concorridíssimo Festival Internacional de Música de Câmara comprovou – e que existem várias opiniões sobre a gafe.

“Eu acho tudo isto muito legal, apesar dos constrangimentos e discussões a respeito. É um sinal de que um público novo, que não está acostumado com os rituais e regras do meio, está freqüentando os eventos”, diz o compositor Pablo K., que, como certa parcela do público do festival, esteve presente em quase todas as noites do evento.

“Eu já fiz muito isto. Freqüento o festival desde a sua terceira ou quarta edição”, comenta o músico Rogério Silva, 23, que já chegou a compor a Orquestra Jovem e se iniciou no universo erudito ainda em 1991, quando entrou para a Escola de Música da UFPA. “Foi antes de começar a estudar música. Depois parei de bater palmas e saquei como aquele silêncio, a pausa, é importantíssimo”, diz ele, que, claro, passou a defender aposição dos músicos com respeito ao assunto, mas sem maiores traumas. “Fico constrangido e incomodado pelos próprios músicos que estão no palco, mas é uma espécie de ignorância que não há como condenar. A reação da platéia é verdadeira, espontânea”.

“Não se pode cobrar de um público que não tem formação européia atitudes de primeiro mundo. Até porque não existe informação nem formação para isto. É claro que há o fato de que às vezes se termina apenas um terço da música e a platéia a interrompe com as palmas, até porque o silêncio também é música. Mas também cabe ao músico explicar a essa platéia como as coisas são. O principal objetivo do músico são as palmas, não há dúvida. O que se quer é que aconteçam no momento certo, e acho que explicações são fundamentais”, opina o violonista Salomão Habib.

PÚBLICO – E quando as palmas rompem, antes da hora, no meio daquela sonata? “Se as palmas vierem à tona, o músico tem que agradecer e se portar normalmente. O público merece respeito”, diz o violonista Salomão Habib, que garante não se incomodar ao extremo com o fato. “Graças a Deus tenho uma concentração grande. Acho que as palmas atrapalham apenas o próprio público: se o silêncio é cortado, as ondas sonoras que ainda ficariam por um bom tempo ressoando no teatro, por exemplo, até entrar em harmonia com os átomos, têm este processo interrompido pelo estalar das palmas. No meio de uma obra, é como se te acordassem, mas é perfeitamente contornável”, diz o violonista.

“certamente é um corte, mas eu não sei o que é pior: as palmas ou os psius pedindo silêncio, que fazem até um barulho maior e acabam atrapalhando o músico de qualquer maneira”, diz o tenor paraense João Augusto Ó de Almeida, que fez sua última apresentação no Teatro da Paz por conta do lançamento do CD do compositor Wilson Fonseca.

“É fato que, apesar de haver os que batem palmas na hora errada, tem-se notado que aumentou consideravelmente o número de pessoas que fazem psiu”, comenta Rogério Silva sobre o fato que pode apontar para uma formação de platéia nos últimos anos, mas há quem não afine com o coro.

“O Festival Internacional de Música de Câmara já fez a sua nona versão e sempre teve uma participação que lota o teatro. Mas há a impressão de que não se trata do mesmo público ao longo dos anos. Se se fizesse uma pesquisa, certamente se veria que o público não é o mesmo que freqüentou os últimos festivais, nos anos passados. Se fosse, certamente já saberia o momento certo de aplaudir. Existe sim uma platéia cativa, mas acho que na verdade o grande público é flutuante”, diz o tenor Ó de Almeida, que acredita também que tão importante quanto formar uma platéia freqüente é dar oportunidade e informação para que esta possa aproveitar mais os programas. “Seria bom se os concertistas explicassem o que é um concerto, ou uma sonata... Falta mesmo uma informação maior e também dinheiro. Os próprios folhetos com os programas são muito sumários”.

“É preciso ter humildade e passar dados para as pessoas. Muita gente só aplaude na hora certa porque fica esperando pelas cobras criadas dos concertos”, comenta o pianista e professor Eduardo Franco, que é vencedor de vários prêmios e há três anos dirige uma escola própria. Concorda com ele o músico Rogério Silva, que ainda acrescenta: “Deveria haver mais concertos didáticos ainda, para se explicar ao público como funciona uma orquestra, o que é um movimento etc”.

FESTIVAL – Com programações que mereceram casas cheias durante todos os sete dias de realização, o último Festival Internacional de Música de Câmara do Pará realizado pela Fundação Carlos Gomes – assim com os últimos – deixou pelo menos um indício para os atentos aos circuito erudito da cidade: o público de Belém tem particularidades fortes com relação às outras praças.

“Este público não existe no país inteiro. É uma platéia que tem uma vocação musical impressionante. Além disso, a faixa etária é baixíssima”, disse empolgado o músico Samuel Espinoza, que integra com sua viola o Quinteto da Paraíba, uma das participações mais tradicionais do festival de Belém.

“Há uma empatia enorme. Se considerarmos mesmo diferentes gêneros e grupos, a acolhida no final das contas é excepcional, fora do comum. Por mais que a falta de informação ou as palmas fora de hora incomodem um pouco, as pessoas que por aqui passam ficam completamente encantadas. Certa vez um quarteto de cordas tcheco teve que fazer seis extras em um concerto. Os que vêm até aqui tocam com gosto e até entendem. No final o saldo é positivo”, comenta o tenor João Augusto Ó de Almeida.


ENTENDA MAIS O UNIVERSO ERUDITO

À cappella – Qualquer execução vocal sem acompanhamento de instrumentos musicais.

Concerto – Composição musical para orquestra e solista. Também se usa o termo para eventos com a participação apenas do solista. O público deve aplaudir apenas após o último movimento.

Movimento – Integra um concerto. Exemplo: a Sonata nº 7 em ré de Carlos Gomes é composta pelos movimentos “Allegro Animato”, “Allegro Sherzoso” (sic), “Largo – adagio lento e calmo” e “Vivace”. A platéia deve esperar o fim do último para expor suas palmas, pois as quatro partes citadas fazem parte de uma só obra.

Orquestra – Reunião de vários instrumentos estabelecidos, lógica e esteticamente, em um mesmo grupo homogêneo (exemplo: Orquestra de Violões do Pará).

Duo: Composição para duas vozes ou dois instrumentos.

Sinfonia – composição musical escrita para toda a orquestra, sem participação de solista.


domingo, 2 de janeiro de 2011

ENART 2010: Vídeos

Aqui estão alguns vídeos de uma das noites de apresentação do ENART 2010 dada no Teatro da Paz na capital paraense. Estas vídeos mostram o trabalho diversificado da Escola de Música da Universidade Federal do Pará (EMUFPA) que há mais de três décadas vem contribuindo significativamente para a formação de músicos eruditos e populares no estado do Pará, diferentemente do Conservatório Carlos Gomes que somente lida com a formação erudita e semi-erudita.
Criado, pelo já falecido, pianista, compositor e educador-musical Altino Pimenta o evento acontece sempre no segundo semestre no mês de outubro em clima de quadra nazarena: o que já dá um ar todo especial para o momento.


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