GAFES EM NOITES DE ERUDIÇÃO

POUCO FAMILIARIZADA COM A ROTINA DOS CONCERTOS PLATÉIA AINDA NÃO SABE COMO SE COMPORTAR DURANTE UMA AUDIÇÃO

ANA CARINA SANTOS

A primeira vez que Zé foi a um concerto significou mais que um frio na barriga ou um encantamento pela beleza musical e plástica dos quase 100 instrumentos reunidos no palco. Houve gafes, aplausos nas horas erradas, duvidas e um programa com nomes complicados de compositores nas mãos e informações que seriam tocadas. Quando a orquestra tocou a última nota e finalmente vieram os aplausos “da hora certa”, Zé saiu pensando em contratar um professor de música para lhe explicar tudo o que queria e não queria saber sobre o concerto, ou nunca mais pôr os pés no teatro para ver uma sinfônica.

Pode ser que o Zé seja apenas um personagem fictício, mas a situação é bem real e sentida todos os anos no Festival Internacional de Música de Câmara do Pará. Depois de uma década do evento, claro que muitos já estão familiarizados com as rotinas das sessões eruditas e estes precisam conviver, na mesma platéia, com os que estão chegando agora à praia dos sons clássicos.

Por isso, nunca é demais destrinchar essas noites “de gala” cada vez mais populares entre os paraenses, que já têm até uma Orquestra Sinfônica que se apresenta todos os meses no Teatro da Paz de graça (oportunidade de ouro para praticar). Foi para ir em socorro dessas pessoas que o “Cartaz” ouviu o superintendente da Fundação Carlos Gomes e pianista Paulo José Campos de Melo para explicar, Tim-tim por Tim-tim, tudo o que pode significar alguma dúvida dentro do universo da música erudita.

Para começo de conversa, Paulo Campos Melo lembra que ninguém tem obrigação de ser profundo conhecedor de música para assistir a uma audição e, portanto, não tem motivos de sentir vergonha quando não conhece a obra a ser executada. Os programas distribuídos antes do início da apresentação foram criados para informar as pessoas sobre o que vai acontecer naquela noite. “Por isso é importante que as pessoas não cheguem atrasadas para ter tempo de ler o programa e também para observar o comportamento de outras pessoas na platéia que aparentem estar mais seguras”, ensina. “Com o programa em mãos qualquer pessoa pode acompanhar o concerto sem cometer gafes”. E como entender o programa?

Não há mistérios. Um programa padrão traz na sua primeira parte, em textos sucintos, informações sobre os autores das peças que serão tocadas e sobre os músicos que irão tocar – se é duo, quinteto, orquestra, os instrumentos etc.

Numa segunda parte, há o roteiro da noite, que deve ser observado com atenção. Em destaque, ao lado esquerdo da página, está o nome do autor da peça. Na coluna da direita está o nome da obra, por exemplo, “suíte para Quarteto de Sopros”. Logo abaixo do titulo da obra, estão especificados os movimentos da peça, no caso da “Suíte...”, são três: “Valsa”, “Marcha” e “Galop”.

CONCENTRAÇÃO – É aí que mora o perigo. Quando a obra possui um movimento único, tão logo os músicos parem, todos aplaudem e ponto final. Quando há mais de um movimento, porém, a convenção é que o aplauso só deve vir quando todos tiverem sido executados e que nos momentos de pausa prolongadas entre cada movimento, o silêncio deve imperar. Por quê? Campos Melo explica que um movimento é como se fosse um capítulo de um livro, ou um ato de um espetáculo teatral. Faz parte de um contexto, de uma obra inteira, que precisa ser ouvida para ser compreendida (ainda que os movimentos possam ser executados isoladamente). O aplauso não deve acontecer, porque quebra a ligação entre os movimentos, tira a concentração dos músicos e atrapalha a execução. “A música é menos flexível que uma peça de teatro, onde um aplauso em cena aberta é considerado glorioso. Se o músico perde a concentração, é como se tivesse que recomeçar do zero a execução da obra, perdendo tudo o que tinha conquistado antes”.

A explicação convence, mas Campos Melo também lembra que esse aplauso fora de hora nem sempre é negativo. Pode ser o efeito de quebrar o gelo entre os músicos e uma platéia desconhecida, acabando com a tensão e, conseqüentemente, melhorando o desempenho do artista. “Não é o pior crime. Pode acontecer, desde que não se torne insistente, atrapalhando a música”, diz. “Também temos que lembrar que o público brasileiro e ainda mais o de Belém, porque muito jovem, é impulsivo. Existe uma cultura do barulho. Quanto mais barulho a platéia faz, mais gostou”.

Resumindo, quando tiver dúvidas, dê uma olhadinha no programa, que está ali para salvar os desavisados das gafes. E se o que você ouviu foi fantástico demais para que se contenha, pode aplaudir e até gritar um “bravo”, desde que com moderação. E para os radicais, é bom lembrar que os “ssshiiisss” para pedir silencio são piores do que os aplausos.

Campos Melo também dá outra dica para saber a hora exata de ovacionar os artistas: os sinais dos músicos no palco. Segundo ele, em toda apresentação, os artistas sempre dão sinais de quando a execução da peça chegou ao fim ou de quando é somente uma pausa entre movimentos. “O músico só olha para a platéia quando termina a peça. Antes, por mais que existe o instrumento ou relaxe a postura, esta sempre “dentro” da obra, olhando para a partitura, concentrado”, descreve.

Outros sinais bem claros podem ser “lidos” durante o concerto: o regente de uma orquestra só abaixa os braços quando termina tudo. Os músicos, sempre que terminam uma obra, se erguem para receber os aplausos do público. O pianista só tira as mãos do teclado quando acaba a peça e o violinista só tira o instrumento do ombro quando termina, por exemplo. Observar esses detalhes não significa que o espectador vá ficar tenso na cadeira, sem sequer piscar, só para descobrir qual a hora de aplaudir, pelo contrário, contrário, poderá dar outra dimensão à audição, mais plástica e visual.

NÃO ERRE MAIS

Verbetes ajudam a compreender

Descubra agora o que significam os verbetes mais comuns dos programas de audições clássicas:

· Concerto: É uma obra composta por três movimentos, que alternam tempos e ritmos (graves, rápidos e lentos). O concerto é sempre produzido para um solista e uma orquestra, podendo acontecer, ainda que raramente, um concerto em que a própria orquestra é solista. Um concerto pode durar de 20 minutos a uma hora.

· Movimento: São peças que podem ser tocadas isoladamente, mas fazem parte do contexto de uma obra inteira mais ampla. Apesar da independência entre si, foram compostas pelo artista com o pensamento de unidade da obra.

· Tempo: É a pulsação da música, a velocidade com que é tocada, sempre designado a partir das classificações dadas pelo compositor na partitura para cada um dos movimentos lentos, vivos, rápidos ou graves.

· Allegro, Allegretto, Allegro vivace: São ritmos vivos e rápidos da música.

· Andante, Adagio, Adantino, Largo, Adagio: São os ritmos mais trágicos, calmos e lentos dos movimentos.

· Graves: São movimentos curtos, que anunciam ou um grand finale ou um grand início. Dificilmente se encontra um movimento inteiro com tom grave.

· Presto, Prestissimo: São os muitos alegres, rapidíssimos e os mais livres movimentos.

· Suítes: Foram criadas para a diversão das cortes. É uma obra composta por vários movimentos dispostos por vários movimentos de ritmos dançantes (rondó, minuetos, valsas, prelúdios, courante, gavotes, gigas, etc.). O número de movimentos é limitado, mas segue sempre a mesma estrutura de alternância de tempo entre os movimentos do concerto.

· Sonata: Este gênero musical atingiu seu apogeu na era romântica. Uma sonata clássica tem três movimentos, mas existem composições com dois, quatro e até um único movimento. A sonata é uma obra composta para poucos instrumentos, apenas dois ou três.

· Prelúdios: Peças musicais pequenas que são independentes mas que podem fazer uma introdução a uma obra. Geralmente anunciam as fugas.

· Fuga: É um tema (sequencia) musical que se repete durante toda a peça, trabalhando em diversas tonalidades encadeadas.

· Baladas: É a mesma coisa que as baladas populares conhecidas hoje, em versão clássica. Atingiram seu apogeu no romantismo.

· Tocatas: Peças pequenas, mais agressivas e rítmicas.

· Sinfonia: É uma sonata feita para uma grande orquestra. O que difere uma sinfonia de um concerto é que, na sinfonia, não existe a figura do solista e os momentos de solo são divididos entre os naipes musicais.

· Naipes: São as classes de instrumentos que compõem a orquestra. Cordas, sopro de madeira, metais e percussão.

· Ópera: É o drama ou comédia musicados. Os personagens, em vez de falarem, cantam e são acompanhados por uma orquestra.

· Orquestra: É a reunião de um grande número de músicos no palco. Existem orquestras de naipes específicos, tipo orquestra de cordas, orquestra de metais etc. as orquestras sinfônicas reúnem todos os naipes existentes. Pode-se classificar de orquestra a partir de oito instrumentos, em alguns casos, mas uma sinfônica precisa ter, no mínimo, 50 instrumentos em sua composição.

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