O momento das palmas

O Liberal, Belém, 15 junho 1996. Caderno Cartaz, p. 7.

GAFES E LIÇÕES SOBRE O MOMENTO DE APLAUDIR NUM CONCERTO DE MÚSICA ERUDITA

Você sai de seu trabalho, num dia estafante, e resolve ir ao teatro para ver aquele velho concerto erudito que você nunca tinha se permitido conhecer. Senta na poltrona, escuta uma sineta – tirando a atenção da novidade que vai da palhinha da cadeira até o lustre do teto do teatro – e vê entrar aquele grupo sóbrio de engravatados e seus instrumentos.

Tudo corre bem. Com os olhos num tal “Verdi” sob o papel, você até se sente chique e chega a apreciar aquela música com o folheto do “programa” nas mãos. “Mas que beleza...Mas que maravilha. Vai terminar, terminou...Ah, mas eu vou bater...”, pensa você, quando de repente se vê batendo palmas sozinho sob severos “- chhiiisss” de um pessoal nada amistoso sentado nas cadeiras da fileira inteira de trás: “Ainda não era hora. Só faça isto depois do último movimento garoto”, cutuca com o guarda chuva uma anciã, por cima dos óculos.

Antes que o vermelho das faces dê lugar a um suicídio – e também a algumas manchas vermelhas no chão e no preciso veludo do teatro -, vale saber que você não é a única pessoa do mundo – quem acompanhou a programação da última versão do concorridíssimo Festival Internacional de Música de Câmara comprovou – e que existem várias opiniões sobre a gafe.

“Eu acho tudo isto muito legal, apesar dos constrangimentos e discussões a respeito. É um sinal de que um público novo, que não está acostumado com os rituais e regras do meio, está freqüentando os eventos”, diz o compositor Pablo K., que, como certa parcela do público do festival, esteve presente em quase todas as noites do evento.

“Eu já fiz muito isto. Freqüento o festival desde a sua terceira ou quarta edição”, comenta o músico Rogério Silva, 23, que já chegou a compor a Orquestra Jovem e se iniciou no universo erudito ainda em 1991, quando entrou para a Escola de Música da UFPA. “Foi antes de começar a estudar música. Depois parei de bater palmas e saquei como aquele silêncio, a pausa, é importantíssimo”, diz ele, que, claro, passou a defender aposição dos músicos com respeito ao assunto, mas sem maiores traumas. “Fico constrangido e incomodado pelos próprios músicos que estão no palco, mas é uma espécie de ignorância que não há como condenar. A reação da platéia é verdadeira, espontânea”.

“Não se pode cobrar de um público que não tem formação européia atitudes de primeiro mundo. Até porque não existe informação nem formação para isto. É claro que há o fato de que às vezes se termina apenas um terço da música e a platéia a interrompe com as palmas, até porque o silêncio também é música. Mas também cabe ao músico explicar a essa platéia como as coisas são. O principal objetivo do músico são as palmas, não há dúvida. O que se quer é que aconteçam no momento certo, e acho que explicações são fundamentais”, opina o violonista Salomão Habib.

PÚBLICO – E quando as palmas rompem, antes da hora, no meio daquela sonata? “Se as palmas vierem à tona, o músico tem que agradecer e se portar normalmente. O público merece respeito”, diz o violonista Salomão Habib, que garante não se incomodar ao extremo com o fato. “Graças a Deus tenho uma concentração grande. Acho que as palmas atrapalham apenas o próprio público: se o silêncio é cortado, as ondas sonoras que ainda ficariam por um bom tempo ressoando no teatro, por exemplo, até entrar em harmonia com os átomos, têm este processo interrompido pelo estalar das palmas. No meio de uma obra, é como se te acordassem, mas é perfeitamente contornável”, diz o violonista.

“certamente é um corte, mas eu não sei o que é pior: as palmas ou os psius pedindo silêncio, que fazem até um barulho maior e acabam atrapalhando o músico de qualquer maneira”, diz o tenor paraense João Augusto Ó de Almeida, que fez sua última apresentação no Teatro da Paz por conta do lançamento do CD do compositor Wilson Fonseca.

“É fato que, apesar de haver os que batem palmas na hora errada, tem-se notado que aumentou consideravelmente o número de pessoas que fazem psiu”, comenta Rogério Silva sobre o fato que pode apontar para uma formação de platéia nos últimos anos, mas há quem não afine com o coro.

“O Festival Internacional de Música de Câmara já fez a sua nona versão e sempre teve uma participação que lota o teatro. Mas há a impressão de que não se trata do mesmo público ao longo dos anos. Se se fizesse uma pesquisa, certamente se veria que o público não é o mesmo que freqüentou os últimos festivais, nos anos passados. Se fosse, certamente já saberia o momento certo de aplaudir. Existe sim uma platéia cativa, mas acho que na verdade o grande público é flutuante”, diz o tenor Ó de Almeida, que acredita também que tão importante quanto formar uma platéia freqüente é dar oportunidade e informação para que esta possa aproveitar mais os programas. “Seria bom se os concertistas explicassem o que é um concerto, ou uma sonata... Falta mesmo uma informação maior e também dinheiro. Os próprios folhetos com os programas são muito sumários”.

“É preciso ter humildade e passar dados para as pessoas. Muita gente só aplaude na hora certa porque fica esperando pelas cobras criadas dos concertos”, comenta o pianista e professor Eduardo Franco, que é vencedor de vários prêmios e há três anos dirige uma escola própria. Concorda com ele o músico Rogério Silva, que ainda acrescenta: “Deveria haver mais concertos didáticos ainda, para se explicar ao público como funciona uma orquestra, o que é um movimento etc”.

FESTIVAL – Com programações que mereceram casas cheias durante todos os sete dias de realização, o último Festival Internacional de Música de Câmara do Pará realizado pela Fundação Carlos Gomes – assim com os últimos – deixou pelo menos um indício para os atentos aos circuito erudito da cidade: o público de Belém tem particularidades fortes com relação às outras praças.

“Este público não existe no país inteiro. É uma platéia que tem uma vocação musical impressionante. Além disso, a faixa etária é baixíssima”, disse empolgado o músico Samuel Espinoza, que integra com sua viola o Quinteto da Paraíba, uma das participações mais tradicionais do festival de Belém.

“Há uma empatia enorme. Se considerarmos mesmo diferentes gêneros e grupos, a acolhida no final das contas é excepcional, fora do comum. Por mais que a falta de informação ou as palmas fora de hora incomodem um pouco, as pessoas que por aqui passam ficam completamente encantadas. Certa vez um quarteto de cordas tcheco teve que fazer seis extras em um concerto. Os que vêm até aqui tocam com gosto e até entendem. No final o saldo é positivo”, comenta o tenor João Augusto Ó de Almeida.


ENTENDA MAIS O UNIVERSO ERUDITO

À cappella – Qualquer execução vocal sem acompanhamento de instrumentos musicais.

Concerto – Composição musical para orquestra e solista. Também se usa o termo para eventos com a participação apenas do solista. O público deve aplaudir apenas após o último movimento.

Movimento – Integra um concerto. Exemplo: a Sonata nº 7 em ré de Carlos Gomes é composta pelos movimentos “Allegro Animato”, “Allegro Sherzoso” (sic), “Largo – adagio lento e calmo” e “Vivace”. A platéia deve esperar o fim do último para expor suas palmas, pois as quatro partes citadas fazem parte de uma só obra.

Orquestra – Reunião de vários instrumentos estabelecidos, lógica e esteticamente, em um mesmo grupo homogêneo (exemplo: Orquestra de Violões do Pará).

Duo: Composição para duas vozes ou dois instrumentos.

Sinfonia – composição musical escrita para toda a orquestra, sem participação de solista.


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