quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Paixão em todos os tons

O LIBERAL, Belém, 4 junho 1997. Caderno Cartaz, p. 8.
Romena naturalizada americana há 25 anos, a violinista Eva Szekely, 46 anos, conhece Belém há mais de 15 anos. Acompanha o Festival de Música de Câmara do Pará desde sua primeira edição, em 1988, encantada com o entusiasmo do público jovem de Belém pela música erudita e pela beleza do Teatro da Paz. Szekely está em Belém para participar do X Festival de Música de Câmera.
A música erudita em sua vida é herança de família, já que o pai era músico amador que tocava viola e chegou a compor uma orquestra por um curto período de tempo. Todos os membros da família sempre tiveram mergulhados em óperas, sinfonias e sons. O violino, instrumento que Szekely adotou como seu, foi presente de Natal quando tinha seis anos, momento que ela considera como marco de sua carreira. Szekely diz que não tem lembrança de uma época em que tenha pensado em fazer outra coisa a não ser música. Começou aí seus estudos musicais. Aliás, tradição pouca é bobagem: o violino que utiliza em suas apresentações e carrega para cima e para baixo em todas as viagens que faz foi feito há 309 anos, em 1689.
Na década de 70, a família Szekely imigra para a América, fugindo da opressão comunista romena. Escolhe a cidade de Nova York para garantir os estudos musicais da filha única. Aos 22 anos, Eva Szekely já é profissional, e hoje, depois de 24 anos de carreira, é professora da Universidade de Missouri e já viajou pelo Canadá, Europa, França, Grã-Bretanha, Itália, Áustria, Argentina, Paraguai, Chile e Venezuela. No Brasil, a cidade que mais conhece é Belém, mas já tocou em Brasília e Londrina, onde deverá dar um curso no mês de julho, durante o festival de música da cidade (uma turma de estudantes do Conservatório Carlos Gomes já prepara as malas para acompanhar e aprender com a mestra).
Seu “caso de amor” com Belém e o Festival de Música de Câmara do Pará começou graças a um convênio existente entre os Estados “irmãos” do Pará e Missouri, que fazem parte da Organização Companheiros da América, grupo voluntário criado com o objetivo de estreitar laços e promover o intercâmbio cultural no continente americano. Hoje, porém, o casamento já é completamente independente e dá sinais de ter vida longa. Foi num dos festivais paraenses, há 3 anos, que Eva Szekely conheceu o violoncelista paulista Antonio del Claro e com ele e o pianista Daniel Schene formou o Trio Américas (que se apresentou ontem no Teatro da Paz). Eva Szekely, instrumentista e professora, é a nosso perfilada da semana.
Música – É a única linguagem universal, capaz de comunicar sem palavras. É beleza, emoção e amor.
Ritmo – É dança, energia e disciplina. Eu gosto muito de dançar. O início da música é o ritmo; acredito que lá na pré-história o ritmo já existia antes da palavra como expressão do homem. É a coisa mais fundamental da música.
Preferências – Sou grande amadora de jazz, principalmente da década de 40. Gosto dos outros ritmos e das outras épocas também, mas em especial este porque os músicos que surgiram, Armstrong, Ella Fitzgerald, tinham altíssimo nível. Gosto de música – seja erudita, seja popular -, basta que tenha qualidade.
MPB – Acho que é a maior exportação brasileira, tem altíssimo nível e é muito forte no mundo. Do Brasil tem duas coisas conhecidas lá fora: a Música Popular Brasileira e o café (ri). Para mim, o talento do Brasil é o entusiasmo pela música. O brasileiro canta e dança sempre, não é uma pessoa presa. Gosto do Gilberto Gil, do Tom Jobim e ouvi falar da Maria Bethânia.
Primeiro contato com Belém – Não era a idéia de vir tocar no Brasil, mas na Amazônia. Isso me parecia excêntrico. Eu realmente não esperava uma cidade tão grande, pensava nela menor, dentro da Amazônia. Foi uma surpresa.
Teatro da Paz – Este foi a grande, a maior surpresa. É um dos teatros mais lindos do mundo e, sem dúvida, é o mais bonito a América do Sul. É sempre um grande prazer tocar nele durante os festivais.
O Festival – Tem um nível bastante alto e está cada vez melhor. Os profissionais daqui são muito bons e os convidados são sempre grandes nomes da música. O Festival de Música de Câmara do Pará já tem um nome e uma tradição no continente. Quando fomos à Argentina, por exemplo, perguntamos e todos os músicos sabiam e respeitavam o festival. O melhor, porém, está na característica de ser um festival de música de câmara. A música que se escuta aqui é de grupos de câmara: trios, quartetos, quintetos, quintetos, sinfônicas. Não só duos e solos, como é mais comum.
Público – O Brasil, especialmente Belém, tem a peculiaridade de um público jovem com entusiasmo e interesse pela música. Na Europa e Estados Unidos, a média de idade do público amante de música clássica é de mais de 50 anos. O festival teve essa missão de abrir a porta da música para gente jovem, de formar um público. Para nós, músicos, a coisa mais importante é fazer a música interessar a nova geração.
Reações e aplausos fora de hora – O público de Belém é muito simpático e entusiasta. As reações são sempre de instinto, muito honestas. Quando toco aqui, é como se o público estivesse envolvido, unido em cada uma das notas junto comigo. Esse tipo de interesse é natural dos estudantes de música, mas no Festival não são apenas os estudantes de música que estão na platéia; é geral.
Tocar ou ensinar – Sem dúvida, gosto mais de tocar, é expressão pessoal. Mas o trabalho de ensinar é uma obrigação ética, artística, porque estou interessada em passar a música para a nova geração, como meus professores passaram para mim. Às vezes eu acho que a importância do meu trabalho está mais em ensinar e que tocar também é como ensinar para o público. É como abrir uma porta para uma pessoa que nunca teve contato antes com a música. É preciso cativar, apresentar para ela a música de maneira que queira voltar para assistir outro concerto, e outro e outro.
Festival abre espaço para a MPP
PROJETO “MEIA-NOITE DE MÚSICA” PROSSEGUE HOJE NO NÚCLEO DE ARTE COM WALTER BANDEIRA E PAULO JOSÉ CAMPOS DE MELO
Popular num festival erudito, por que não? Pela primeira vez, em 10 anos, a Fundação Carlos Gomes incluiu na programação do Festival Internacional de Música de Câmara um projeto dedicado à música popular. O “Meio-Noite de Música” começou ontem, no Núcleo de Arte da UFPA, com a apresentação de Salomão Habib, seu violão e seus convidados.
Os shows acontecerão sempre à meia-noite e têm estrutura pequena, de dois músicos, perfeita para ser adaptada em bares. O superintendente da Fundação Carlos Gomes, Paulo José Campos de Melo, justifica dizendo que o “Meia-noite...” é uma experiência piloto para descobrir se há público para o projeto e se vale a pena investir em sua ampliação.
Campos Melo conta que o projeto de música popular surgiu de uma idéia do jornalista Nélio Palheta (Imprensa Oficial do Estado) para aproveitar o potencial turístico do Festival. A princípio, o “Meia-noite...” envolveria todos os bares de Belém, com programações especiais de shows dos músicos paraenses que tocam na noite. “Há um grande potencial turístico, em que eu acredito. Durante o Festival, os acompanhantes dos músicos, ou os músicos que não estão ensaiando nem tocando e não queiram assistir à programação oficial, no teatro, fazem o quê? Saem, vão se divertir nos bares, vão dançar”, diz Campos Melo.
A idéia também serviria para valorizar os músicos paraenses, cultivando uma nova forma do público de barzinho encarar a música. “Eu não fico num bar onde o volume da música seja tão alto que não dá para conversar. O que acontece é que as pessoas vão para os bares e não se interessam pela música e pelos músicos. Daí que o barulho é cada vez maior e o volume do som também aumenta, prejudicando a qualidade musical do artista”, analisa.
Outra conseqüência natural do circuito de shows populares nos bares como programação do festival, segundo Campos Melo, é o envolvimento da cidade, tornando o Festival Internacional de Música de Câmara um evento menos restrito. “Temos um público cativo, mas ele ainda é limitado às pessoas que gostam de música clássica. As apresentações em bares fariam com que a cidade entendesse a importância desse festival, que já tem uma tradição e está quase grande demais para as possibilidades de realização da Fundação Carlos Gomes”, diz o superintendente.
Com limites de recursos financeiros e humanos, já que a Fundação não tem uma equipe de produção de eventos, ficou impossível realizar o “Meia-noite...” nos bares. “Mesmo assim, insisti na idéia e programei as apresentações no Núcleo de Arte para testar”, conta Campos Melo. “Nos bares, teria que haver uma mudança de costumes também. As pessoas teriam que se predispor a sair de casa para assistir a uma apresentação musical durante, pelo menos, uma hora. Os donos dos bares, por exemplo, não deveriam colocar música mecânica no mínimo durante meia hora antes da apresentação, ou as pessoas não percebem quando o músico entra”, opina.
O próprio superintendente vestiu a camisa do projeto e foi à luta. Participa de duas apresentações no Núcleo de Artes: hoje à noite, acompanha no piano o cantor Walter Bandeira e diz que está “provocando os limites do cantor, com músicas que exigem mais a voz e menos o showman”. Na sexta-feira, acompanha a cantora e esposa Angelika Campos Melo, especialista em canções de língua românicas (português, espanhol, Frances, italiano, canções cubanas e do folclore calabrês). “É um projeto que eu acredito que tem futuro”, diz.

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