Orquestra Jovem Vale Música: Concerto pré-carnaval

ORQUESTRA JOVEM VALE MÚSICA
Numa tarde de domingo em 27 de fevereiro de 2010, a Orquestra Jovem Vale Música apresentou um variado e excelente concerto na Sala Augusto Meira em Belém do Pará. Sempre com o patrocínio da Vale, apoio do Minc (Lei Rouanet) e realização da Musikart Produções o programa foi organizado somente com excertos de compositores cujas estéticas estão bem proximas: Mozart, Beethoven, Schubert e o Villa-Lobos da vertente neoclássica; o que lhe aproxima dos demais compositores. Como se vê, um programa bem organizado.
Segundo o regente Miguel Campos Neto, essa orquestra iniciou suas atividades como uma orquestra operística executando O Viajante das Lendas Amazônicas do violista e compositor russo Sergei Firsanov, radicado em Belém a mais de uma década. Em seguida, participaram do Festival de Ópera da Amazônia, onde executaram La Cambiale di Matrimonio de Rossini, numa montagem já saudosa para aqueles (como eu) que assistiram. Uma montagem que merece um bis. Portanto, não foi novidade para os adolescentes que formam a orquestra executar a abertura de A Flauta Mágica de Mozart, sendo uma das principais aberturas operísticas do repertório concertante internacional. O único porém para a execução dessa abertura foi o espaço físico da Sala Augusto Meira Filho, pois ela foi projetada para música de câmera e não sinfônica. Desse modo, a música de Mozart ganhou dimensões wagnerianas para nós que estávamos na platéia. Mas, pode ser, que Mozart talvez aprovasse o grande volume sonoro nessa execução, considerando-se que sua orquestração do final de vida já era apontada para uma massa sonora bastante volumosa para os padrões de sua época, vide a sonoridade da Júpiter para confirmar o que digo.
A Sinfonia nº. 8 em B menor de Schubert, a célebre Inacabada teve o seu bombástico primeiro movimento executado de forma violenta como deve ser para essa sinfonia tão sofrida e de sentimentalismo tão perturbado. Destaque para os metais: simplesmente tenebrosos. Palmas.
Villa-Lobos trabalhou sua música em diferentes estéticas musicais, o que foi praxe entre os compositores novecentistas, em sua maioria dedicados a vários estilos musicais e não direcionados somente a um. Como viveu vários anos na França e participou da vanguarda musical da Cidade Luz nada mais natural que Villa desenvolve-se um gosto natural pelo neoclassicismo novecentista criado por Stravisnky, que desde sempre foi bastante apreciado pelos vanguardistas franceses. O Grupo dos Seis foi o carro-chefe desse movimento na França. Soma-se a isso a paixão de Villa pela música de Bach e sua polifonia, o resultado foi a série de nove bachianas escritas pelo compositor fluminense; as mais executadas de todo o seu catálogo neoclássico. Uma nota 10 vai para a execução de O Trenzinho do Caipira, que certamente estava se dirigindo para “Sumpaulo” de tão sofisticado que é. Já ouvi várias gravações dessa magistral obra sinfônica, mesmo ao vivo, mas até agora nenhuma se comparou à execução dessa tarde domingueira. A orquestra foi ouvida em sua plenitude, inteira, sem cortes. Fui surpreendido por dissonâncias que jamais havia ouvido. Os instrumentos de sopro foram-me uma revelação, pois são muito pouco destacados nas gravações discográficas, chegando a serem engolidos pela massa sonora das cordas. A sessão final do trenzinho chegando na estação foi um deslumbre auditivo. Os ruídos da chegada foram reais. Dava para “ver” o trenzinho freando. Como se dizia antigamente: foi do balacubaco.
A Fuga(Conversa) das Bachianas Brasileiras nº. 7 mostram que há música sinfônica brasileira sim, embora alguns puxa-sacos da música européia digam que não ou não queiram reconhecê-la. Esse Andante de Villa-Lobos é de grande beleza e lirismo. Um pedaço do Brasil posto em música.
Para finalizar o batidíssimo 4º. movimento da 5ª Sinfonia de Beethoven, que tem sua beleza e seus valores musicais e históricos, mas acho que deve passar uns 200 anos sem ser executada para ganhar um ar de novidade novamente. Música muito repetido cansa. Mas a orquestra e Miguel parecem gostar bastante dela, então é fácil perceber a paixão deles ao executá-la. De qualquer forma foi um grande final para um grande concerto.

VÍDEOS:

Mozart: Abertura da ópera A Flauta Mágica

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Schubert: Sinfonia n. 8 "Inacabada" 1º movimento: Allegro moderato

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Villa-Lobos: Bachianas Brasileiras n. 2: IV - O Trenzinho do Caipira


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Villa-Lobos: Bachianas Brasilerias n. 7 - Fuga (conversa)

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Beethoven: 5ª Sinfonia: IV - Allegro

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