FORMA E ESTRUTURA NA ÓPERA: CENA III - ESTRUTURAÇÃO DE UMA ÓPERA

A ópera durante sua evolução , teve várias maneiras de ser organizada dentro dos tipos fixos de gêneros que foram surgindo, chegando ao século XX de uma maneira bem mais livre, senão, totalmente livre, na sua elaboração cênica e construção musical, fazendo, assim, que viessem à tona novas maneiras de se pensar a ópera; mas nenhuma delas se atreveram a superar sua maneira mais tradicional de estruturação: em atos e cenas.
A cena é a reunião das ações de uma personagem em determinado período de tempo ou local especifico: chamá-la-ei de “pequena cena“. Assim toda a primeira cena de Hans Sachs no terceiro ato dos Mestres Cantores de Nuremberg, é constituída pelo diálogo entre David e Sachs e o consequente monólogo do sapateiro-filósofo, o “Monólogo da Ilusão“, enquanto que no início da Aída, a cena de Radamés é constituída pelo diálogo do jovem soldado egípcio com o sumo-sacerdote Ramphis e sua ária “Celeste Aída“.
A cena também pode ser a parte de um ato que se passa em local específico, com cenário próprio e um número pequeno e invariável de personagens e ações, sendo o seu material musical menos importante que nas árias, duetos, concertantes etc: chamá-la-ei de “grande cena“. Dessa maneira toda a primeira cena do primeiro ato de Rigoletto passa-se no salão de festas do Palácio ducal, enquanto que na segunda cena vemos uma rua próxima ao palácio do Conde Ceprano.
O ato, ao contrário da cena, é de maior extensão, contendo um número maior de personagens. A unidade de ação é mais completa e complexa, podendo subdividir-se em várias partes (as cenas), para melhor organizar a compreensão do drama por parte do público.
Para um melhor entendimento descrevo a seguir o esquema de duas óperas: uma estruturada em ato simples e outra em ato subdividido em ce­nas.

Ópera estruturada em ato simples.

O  Matrimonio Secreto, de Domenico Cimarosa

(Carolina; filha do comerciante Jeronimo casou-se às escondidas com o jovem secretário de seu pai, Paulino. Os jovens estão muito apaixonados e temem que alguma desgraça possa cair sobre eles, caso alguém descubra o seu segredo. Mas o que acontece são momentos hilários com grandes confusões, apaixonadas cenas de amor e um final feliz).

ABERTURA
I ATO
Dueto: Cara, non dubitar
Interlúdio
Dueto: lo ti lascio
Ária: Udite, tutti udite, le orecchie spalancate
Terceto: Le faccio un inchino
Ária: É vero che in cada io sone la padrona
Cavatina:          Senza tante cerimonie
Quarteto: Sento in Petto
Ária: Brillar mi sento il core
Dueto:      Signor, deh concedete
Finale: Vaudeville (Quarteto, dueto, quarteto, sexteto)



II ATO
Dueto: Se fiato in copo
Terceto: Sento, ahime!
Ária: Pria che spunti in ciel l’aurora
Dueto:      Son lunatico, bilioso
Terceto: Cosa farete? Via, su, parlate
Quinteto: Deh! lasciate ch’io respiri
Ária: Se son vendicata
Finale: Vaudeville (Dueto, dueto, terceto, sexteto)

Todos os trechos musicais nesta ópera são entremeados por recitativos e diálogos, inclusive um recitativo acompanhado para Carolina, antes do quinteto, no segundo ato.

    Ópera estruturada em ato subdividido em cenas.

Salomé, de Richard Strauss

(Salomé, princesa da Galiléia, é uma jovem bela e atraente. Tornou-se mulher há pouco e ainda não se apercebeu do desejo que desperta nos homens; entre eles o capitão da guarda, Narraboth, e o seu tio Herodes Antipas que tomou sua mãe, Herodíades como esposa. Salomé apaixonou-se por Jokanaan (João Batista) apenas ao ouvir sua voz, mas é repelida por este. Sem conseguir realizar o seu desejo de possuí-lo faz com que seja assassinado a mando de Herodes e enlouquecida, suscita sua própria morte).
A ópera é estruturada em ato único, subdividido em quatro cenas, to­das passadas no terraço do palácio de Herodes, em Tibéria.
Para um melhor reconhecimento da estrutura formal de Salomé, reprodu­ziremos o esquema feito por Gonzalo Badanes Masó, em sua análise comenta­da da ópera:

Exposição Temática: 1ª.,2ª. e 3ª. Cenas, mais o 1º. Interlúdio
Desenvolvimento Temático:  do Confronto Salomé-Jokanaan até  ao 3º. Interlúdio
Reexposição Temática; do Assassinato de Jokanaan à morte de Salomé.

            a) Introdução (1ª., 2ª. cenas
         1º. Interlúdio                                              
      b) Confronto Salomé-Jokanaan
     (3ª. cena)
    Suicídio de Narraboth
2º. interlúdio
    c) Herodes e Salomé
            (Galanteio Frustado)
                                                              
           Quinteto de Judeus
        
d) Herodes e Salomé
               (Galanteio e Dança dos Sete Véus)
     Assassinato de Jokanaan                                                                                  
  3º. Interlúdio                                                     
      e) Monólogo de Salomé perante
          a cabeça de Jokanaan
       f) Desenlace: Morte de Salomé                                

“Nota-se claramente que as estruturas dramáticas e musical se acham agrupadas em dois blocos simétricos em relação ao “Quinteto de Judeus“. Mas, para além disso, os quatro grandes momentos de clímax também se organizam de acordo com esse princípio de simetria axial“.
Badenes Masó apud D’Ávila

Os exemplos apresentados denotam as diferenças sofridas na estruturação de uma ópera entre os séculos XVIII (O Matrimônio Secreto) e XX (Salomé). A estrutura fixa da primeira e a maleabilidade da segunda, são na­da mais que consequências das caracterizações de épocas, com costumes, pensamentos, gostos e práticas artísticas diferentes; e isso denota que a ópera não é um gênero aprisionado em convenções fixas e imutáveis, mas sim que em si mesma já suscita a sua própria mudança, o que ocorre desde a época de seu surgimento.

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