EDITORIAL DE OUTUBRO

                Quando fiz o mestrado na UFPR, entre outros temas, escolhi o Festival Internacional de Música de Câmera do Pará, hoje desprovido do termo de câmera dada a sua diversidade musical que abrange quase todos os gêneros musicais existentes.
                Nesse trabalho acadêmico pude estudar detidamente a evolução histórica do Festival Internacional de Música do Pará desde sua criação em 1988 com Glória Caputo na superintendência da Fundação Carlos Gomes, portanto, sua criadora oficial até o início da primeira superintendência de Paulo José Campos de Melo – responsável pelos anos de ouro do Festival. Embora tenha estudado e escrito somente sobre os dez primeiros anos dele, levantei material sobre as suas duas primeiras décadas de existência, e assim, pude ter uma noção geral e profunda de quase tudo o que foi feito no decorrer de sua história, considerando-se que vários documentos importantes como programas de concertos foram perdidos e notícias em jornais foram escasseando na segunda década de sua realização.
                Mas um fator deve ser registrado e aplaudido no decorrer dos seus vinte primeiros anos: o FIMP nessas duas décadas foi uma realização crescente que saiu de um festivalzinho para um festivalzão não somente em tamanho, mas também no alcance de áreas diversas e pretensões de público igualmente diversificado. Batendo o pé na questão da gratuidade o FIMP formou na sua primeira década de existência um imenso público para a audição da música erudita na capital paraense e acostumou tal público a esperar o melhor do melhor nessa área musical. Acostumou-se a ver e ouvir de perto alguns dos melhores músicos da Europa, da América, da Ásia tocando em Belém.
                Acostumou-se a ver os músicos eruditos paraenses tocando a sua melhor música e mostrando a todos que nós paraenses temos muita música (boa) para dar a qualquer público que nos queira ouvir. Esse público durante duas décadas viu Belém se tornar de uma quase silenciosa cidade em uma metrópole barulhenta em todos os aspectos e bairros para o bem, e principalmente, para o mau de nossos ouvidos devido à poluição sonora de carros e festas de aparelhagens.
                Mas voltando a questão do FIMP os últimos quatro anos viram o que não deveria e poderia ter acontecido com o nosso festival: a sua total e completa decadência. De um festival que chegou a ter 11 dias de duração e que apresentou alguns dos melhores grupos musicais da Europa; recordes de público e momentos históricos como a confusão na distribuição dos ingressos para a apresentação de Carmina Burana; tamanho foi o público que acorreu ao Teatro da Paz para ouvir a célebre obra de Carl Orff. Cheguei a ver a apresentação da Camerata do Festival com um Teatro da Paz quase vazio quando somente alguns anos antes quase não consegui entrar devido a lotação do mesmo. Coisa triste.
                Mas essa fatídica fase tem nome e responsável: o governo Ana Júlia Carepa que juntamente com seu Partido dos Trabalhadores deixou que o nosso festival saísse de uma grande luminária incandescente para uma velinha de brilho apagado que mal conseguiu iluminar um quartinho.
                Agora em 2011, novamente sob a capitania de Paulo José Campos de Melo, e contando com a ajuda do governador Simão Jatene, o FIMP iniciou o seu retorno a vida resurgindo das cinzas deixadas pelos petistas: tanto que a medalha Fênix foi entregue para o governador Jatene e algumas outras importantes personalidades. Nome mais apropriado a medalha não poderia ter, pois somente a mitológica ave renasce de suas próprias cinzas; o que aconteceu este ano com O FIMP.
                Este ano retornou a Belém o VAlerius Ensemble que durante os anos petistas foi afastado da programação e o festival voltou a ter estrutura internacional para fazer valer o seu nome. Espero que no ano que vem, com a Fênix já renascida, o nosso festival posso voar alto como nos dourados anos de sua história.

RICCARDO D’ÁVILA

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

ESSA NEGRA FULÔ: ANÁLISE

FORMA E ESTRUTURA NA ÓPERA: CENA III - ESTRUTURAÇÃO DE UMA ÓPERA

Mozart: Bastião e Bastiana em português e com sotaque paraense