domingo, 23 de dezembro de 2012

José Maurício Nunes Garcia: apontamentos

     Este ensaio biográfico é de autoria de Manuel de Araújo Porto Alegre publicado originalmente em 1856. Ele versa sobre dados biográficos do músico e padre brasileiro José Maurício, um dos gigantes da música no Brasil, profundamente estudado pela musicóloga brasileira Cleofe Person de Mattos e que, ainda, necessita obter o seu merecido reconhecimento e lugar adequado às grandes mentes brasileiras dispensados pelo povo brasileiro aos seus grandes nomes, porém mais comumente dado nas últimas décadas aos seus atletas e profissionais de televisão que esbanjam celebridade nacional mas que, na maioria, carecem de verdadeiro valor nacional. 




APONTAMENTOS SOBRE A VIDA E OBRAS 
DO PADRE JOSÉ MAURÍCIO NUNES GARCIA


                                                                    Manuel Araújo Porto Alegre



     O grande artista de que vamos ocupar foi um homem singular na arte de Gui d'Arezzo; foi uma organização especial, foi uma organização especial, que ultrapassou a época em que viveu, e dominou por largos anos o campo que invadiu com o poderio do seu engenho, com a sua fecundidade, e com a revolução que causou nos ânimos que conquistara.
   Antes da sua aparição, houve nesta cidade um outro músico não menos notável pelo seu espírito ascético, e pelas composições sagradas que escreveu, as quais ainda se cantam, e fazem a admiração de todos os artistas e amadores que apreciam a música do Santuário; mas este músico, o padre Manuel da Silva Rosa, compositor da célebre música da Paixão de Jesus Cristo, que se canta na capela imperial e no convento de S. Francisco,nada influiu na educação de José Maurício. Fâmulo do bispo Fr. Antônio do Desterro, viveu sempre retirado, e não me consta que fizesse alguém coparticipante do seu admirável talento[1].
     Nasceu José Maurício nesta ilustre cidade do Rio de Janeiro a 22 de setembro de 1767, filho legítimo de Apolinário Nunes Garcia e Victoria Maria da Cruz. Sabemos pela sentença de habilitação do genere, passada em seu favor a 27 de junho de 1791 pelo padre Manoel dos Santos e Souza, secretário da câmara episcopal, e assinada pelo Dr. Francisco Gomes Villas-Boas, deão da Sé, vigário geral e provisor do bispado, que José Maurício fora batizado na antiga catedral, hoje igreja do Rosário; e que seu pai era natural da ilha do Governador, freguesia de Nossa Senhora d’Ajuda, e sua mãe batizada na capela de S. Gonçalo do Monte, filial da matriz de Nossa Senhora do Rosário, freguesia da Cachoeira, do bispado de Mariana; pelo lado paterno descendia de uma família estabelecida em Irajá, e pelo materno de uma crioula de Guiné.
     Na idade de seis anos teve a desgraça de perder seu pai, porém achou nas virtudes e no trabalho de sua mãe e de uma tia, que o amava extremosamente, todos os recursos, amparo e direção da sua primeira educação.
     Desde a mais tenra infância manifestou uma inteira vocação pela música. Tinha uma belíssima voz, cantava admiravelmente, improvisava melodias, e tocava viola e cravo sem jamais ter aprendido. Muitas vezes assombrou os homens profissionais, não só com os seus improvisos, e reflexões, como também pela prodigiosa memória que tinha em reproduzir fielmente tudo quanto ouvia executar.
     Mandado para a escola de Salvador José, aí, se houve com tão rápida inteligência, que em poucos meses excedeu a todos os seus colegas, e foi considerado por aquele músico o primeiro e o melhor de seus discípulos, e o único de por si só poder continuar os estudos de uma arte, que requer, além dos dons naturais, uma prática não interrompida.
     Naquela alma de artista, naquela força da natureza, não existia somente a predisposição para compreender altamente os belos segredos da harmonia e melodia, havia mais que isso: havia uma poderosa dualidade como à que assinala todo o homem superior.
     De seu motu próprio foi assentar-se nos bancos da aula do padre Elias, mestre régio de latim, e aí adquirir com igual facilidade aquela chave d’ouro que abre os tesouros da antiguidade clássica, da filosofia, da história, da eloquência profana, e da sagrada com que mais tarde se adornou. Os seus progressos em latinidade foram tão extraordinários naqueles tempos, que no fim dos três anos seu próprio mestre o declarou em estado de o poder substituir. Igual triunfo obteve na aula do Dr. Goulão com quem aprendeu filosofia racional e moral, e por quem foi proposto para substituto da cadeira régia, ao que Jose Maurício se escusou, por não cortar os seus estudos artísticos, e a cultura de uma arte que já o punha a abrigo das maiores privações, e com ela ajudava a viver mais fartamente sua mãe e sua tia. Apesar desta recusa, Jose Mauricio lecionou alguns tempos depois, contando no número de seus discípulos o cônego Luiz Gonçalves dos Santos, autor de umas memórias bem conhecidas, e de alguns escritos a favor da unidade do dogma e disciplina da igreja católica romana, pelos anos de 28 a 30.
     Naquelas eras, a segurança individual, esteio das famílias pobres, e o amor materno, só achavam um asilo seguro e inviolável na igreja, e por isso, e pelo espírito religioso da época, as famílias tinham necessidade de que um filho ao menos as amparasse das violências tenebrosas do santo ofício, das vinganças e fanatismo de seus terríveis familiares, da prepotência dos maiores da terra, e das crueldades do recrutamento. O padre era a âncora de salvação da casa, o homem predileto, o filho mais querido, o laço da harmonia, o que nobilitava a família, e a tornava privilegiada e coparticipante de todos os prazeres públicos de então, que se limitavam nas festas da igreja, e nas que a família celebrava de harmonia com as do culto. Naquela época de fanatismo e poderio monacal, as vestes religiosas tinham o prestígio e o privilégio de serem respeitadas desde a sala do vice-rei até a mais podre habitação: o hábito substituía a idade, o nascimento, a riqueza e o saber.
     As vestes eclesiásticas que tão bem exornavam as qualidades do espírito e coração de Jose Mauricio, o habilitavam para dignamente entrar no seio e confiança das famílias mais gradas do país, cujo chefes lhe confiavam suas filhas, com quem passava horas inteiras no ensino e exercícios da música.
     Nesta vida de estudo e ensino, adquiriu ele essa grandiosa execução que conservou sempre; e igualmente a amizade de todos os que o chamavam, entre as quais a do abastado negociante Thomaz Gonçalves, que lhe fez patrimônio, e o pôs em estado de receber as ordens de diácono, e cantar missa solene no ano de 1792; e de obter licença para pregar no de 1798 antes mesmo de haver estudado retórica com o Dr. Manoel Ignácio da Silva Alvarenga, o que sucedeu de 1802 a 1804, como claramente se expressa o mesmo mestre, quando dele diz e atesta “que frequentou a sua aula por espaço de dois anos, e que nela fez rápidos progressos, que raras vezes se encontram.”
     Ao muito ilustre e virtuoso bispo do Rio de Janeiro, D. José Caetano da Silva Coutinho, ouvi muitas vezes elogiar o padre José Mauricio, não como artista, mas como um sacerdote dos mais ilustrados da sua diocese, e quem sobejavam talentos fora da música. Ele foi do número d’aquelas palestras literárias que esse grande bispo fazia em seu palácio, das quais eram membros efetivos o padre Caldas, o Marquez de Maricá e outros escolhidos, os quais cessaram na época da independência, por haver sido mal-intencionadamente espiado o seu palácio por ordem do governo.[2]
     Ouçamos a respeito do mérito literário de José Maurício ao nosso Januário da Cunha Barbosa, juiz competente, e seu amigo; ouçamos o que disse no Diário Fluminense de 7 de maio de 1830: “José Maurício juntava a todos estes estudos (os necessários para o presbiterato), vastos e profundos conhecimentos de geografia e de história tanto profana como sagrada, e das línguas francesa, e italiana, não sendo hóspede na inglesa e grega, que também estudava, mas não com tanto afinco”.
     Ao entrar nos trinta anos de idade, por morte do reverendo João Lopes Ferreira, mestre de capela da antiga Catedral e Sé, foi ele nomeado, como se vê do termo lavrado pelo beneficiado João Gonçalves da Silva Campos a 2 de junho de 1798, com o ordenado de seiscentos mil-réis anuais. Organista e compositor, aumentou o coro da catedral com um grande número de discípulos escolhidos, e o brilho do culto com novas e variadas composições.
     Com o ensino público gratuito, e também com o particular, donde tirava a maior parte da sua subsistência, com suas obras, espalhou o gosto da música na futura capital, e o enraizou de tal maneira, que a cidade do Rio de Janeiro se pode hoje chamar a cidade dos pianos.
     Nos dez anos que serviu este novo emprego, foi que o grande artista começou a revelar-se altamente, e a dilatar-se no horizonte de suas criações; mas tão pobre ainda era, que não podia possuir um cravo, pois que ensinava os preceitos e a prática da harmonia com uma viola de cordas metálicas na sua escola da Rua das Marrecas.
     II
     Em 1808, a chegada da família real, estava então ele na força da idade e do talento. O príncipe regente, grande conhecedor da música e de todas as práticas do culto, o admirou tanto, que sem a menor relutância nomeou-o, por decreto de 26 de novembro do mesmo ano, inspetor da música da real capela, com o mesmo ordenado de seiscentos mil-réis! E neste decreto vem mencionada a aula de música e o ensino gratuito que exercera José Maurício!!! Desta aula saíram a maior parte dos cantores e instrumentistas que fizeram a orquestra da capela real, e alguns compositores, entre os quais muito se distinguiram Francisco Manoel da Silva, Francisco da Luz e Cândido Ignácio da Silva; entre os instrumentistas, que ainda vivem, o padre Manoel Alves, Francisco da Motta, e alguns poucos valetudinários. Logo que em 1813 chegou de Lisboa o famoso Marcos Portugal, e com ele um bom número de vozes e instrumentos, as funções eclesiásticas subiram ao ponto das da patriarcal de Lisboa, que eram copiadas fielmente das de S. Pedro em Roma, no que era possível em um tempo onde não pontificava o papa rodeado do sagrado colégio.
     Nessas festas tão repetidas e prolongadas, nas contínuas vigílias, ordenadas pela exigência real, nessas horas do trabalho do engenho, horas criadoras, porem fatais à vida, se foi pouco a pouco estragando aquela constituição robusta.
     Obrigado a compor, a ensaiar e a residir, já em 1816 sofria, como ele mesmo o diz num requerimento ao bispo, em que pede licença para dizer missa em casa.
     Para se avaliar o poderio e a força do talento de José Maurício, basta dizer que el-rei o chamava o novo Marcos, antes que este célebre compositor tivesse chegado ao Brasil; e, que a despeito da sua cor mestiça, era tolerado na corte, nessa corte onde o auto de nascimento formava o maior merecimento do homem, dava direito a todas as simpatias, e onde o ser Brasileiro, e mormente mulato; bastava para alienar de si todos os favores, e mesmo muitos direitos.
     O Senhor D. João VI era o único que de coração nunca distinguiu no homem incidentes ou acidentes: pai e príncipe havia nascido acima de todos os preconceitos da inveja, ou da moral de uma nação em decadência, cujo egoísmo e incapacidade se encastelavam no privilégio do acaso de ter nascido em Portugal.
     Fora da atmosfera da presença de el-rei, José Maurício sofreu muitas invectivas bem dignas da estupidez altanada; porém sua alma nunca se dobrou a uma represália.
     Em uma dessas grandes festividades, sentiu-se el-rei tão arrebatado de entusiasmo, que, acabada a festa, mandou chamar ao paço o padre José Maurício, e em plena corte, tirando a farda do Visconde de Villa Nova da Rainha o hábito de Cristo, colocou-o com sua própria mão no peito do seu músico, dizendo-lhe ao mesmo tempo as coisas as mais lisonjeiras. Este fato memorável para a glória do artista, e para a do seu rei, aconteceu no ano de 1810 pouco antes de fevereiro; porque professou em 17 de março, tendo por padrinhos a Francisco José Rufino de Souza, o mesmo Visconde de Villa Nova da Rainha, então barão, e Fr. José Marcelino Gonçalves, seu discípulo e filho do seu antigo protetor Thomaz Gonçalves.
     Foi este ato de el-rei a Salvação de José Maurício.
     Pouco tempo depois, mandou-lhe dar uma ração de criado particular, a qual foi convertida em uma mensalidade de 32$000rs. a requerimento do músico, à vista dos embaraços que sofria na Ucharia dos empregados do paço.
     El-rei, convencido dos incômodos de José Maurício, provenientes da vida sedentária, ordenou que se lhe mandasse dar um cavalo todos os dias. A ordem executou-se, pois que todas as tardes vinha um moço com cavalo, mas este era de tal natureza que o mestre, e nem o próprio moço ousavam ensaiá-lo por um minuto. Parece que o estribeiro menor daqueles tempos julgava iguais talentos o de mestre de capela e o de mestre de equitação.
     Na fragata que nos trouxe a arquiduquesa, primeira imperatriz do Brasil, veio uma banda de música digna de acompanhar e suavizar a longa viagem daquela saudosa princesa. José Maurício até então não havia visto essa precisão mecânica, essa igualdade de execução que é um dos privilégios dos compatriotas de Mozart e Beethoven, e nem tão pouco conhecia os novos instrumentos que ela trouxe. Tão enamorado ficou de ouvir aquela banda musical, que para ela improvisou doze divertimentos, que são doze peças admiráveis de inspiração. Durante os ensaios destas obras, o povo ia ouvi-los no largo de S. Jorge, defronte da casa de José Maurício.
     Algum tempo depois, e por ordem de el-rei, escreveu para o real teatro de São João uma ópera, intitulada Le due Gemelle, cujas partituras se perderam, uma no incêndio do mesmo teatro e a outra o original, no pais de Marcos Portugal, que foram vendidos a peso aos fogueteiros e taverneiros; pois que uma nota escrita pelo próprio punho de José Maurício feita no inventário da música do real tesouro em 1821, se acha o seguinte: “Le Due Gemelle, drama em música por José Maurício: com instrumental e partes cantantes: a partitura se acha em casa do Sr. Marcos Portugal.”
     Algumas pessoas dizem que esta ópera nunca fora à cena, porém outras afirmam que o fora, mas que a mônita secreta a separava do teatro, afim de que somente Marcos Portugal ficasse em campo. Que este grande compositor era ciumento temos mais de um fato, e muitos salientes foram os que ele preparou para anular Neukomm, e o jovem Francisco Manuel da Silva, a quem o príncipe real, o senhor D. Pedro I, havia prometido mandar à Itália[3].
     Com o regresso d’el-rei, as festas da capela foram modificadas, como se vê da provisão episcopal de 17 de maio de 1822, onde o bispo declara: “já não ser possível celebrarem-se os ofícios divinos com o mesmo rigor de forma e residência, e solenidade de cantorias, que fora da sua primitiva instituição.” Os ministros da igreja se haviam retirado, e com eles alguns artistas, ficando se haviam retirado, e com eles alguns artistas, ficando entretanto os principais, porque o príncipe regente também era músico, e havia já composto alguma coisa, conquanto não fosse tão intimamente apaixonado pelo cantochão, cerimônias e outras disciplinas próprias de uma catedral altamente luxuosa.

III

     A musa de José Maurício não se revelou na independência, por que, como dizia ele, o príncipe queria fazer tudo.
     Se à nova face dos acontecimentos políticos juntarmos trinta e três anos de trabalho assíduo, e a privação de uma parte de seus vencimentos à natural melancolia de um homem cansado, e que só havia existido para a sua arte e o serviço do seu rei, não estranharemos o grande abatimento em que caiu. Nos últimos tempos da sua vida só viveu para a arte, porque a ela consagrou todas as horas que não sofria cruelmente. É dessa época a famosa missa de Santa Cecília, cuja partitura está no arquivo do Instituto Histórico, e a qual não se pode executar hoje por falta de vozes.
     Ouçamos ainda o cônego Januário: José Maurício começou a sofrer enfermidades, que muito se agravaram pelo trabalho a que se dava no desempenho das suas obrigações, perdendo muitas vezes noites inteiras em longas composições que o Sr. D. João VI queria concluídas com a maior presteza; a sua vida se foi gradualmente enfraquecendo, até que em um ataque mais forte, e quase repentino, teve seu termo”.
     El-rei acostumado aos milagres da musa do nosso artista, já não media o tempo, só marcava o termo; e todos nós podemos avaliar as horas de agonia por que passou aquela celebridade, vendo o tempo correr, e perigar a sua reputação se acaso a inspiração falhasse, ou se um desses sonos artísticos a que estão sujeitos todos os homens inspirados lhe viesse roubar o tempo preciso e entregá-lo à implacável injustiça dos seus colegas, prontos à escuta, postados à mira para aniquilá-lo. E para ele os perigos duplicavam, porque estava só, e nem ao menos tinha o privilégio do nascimento, que o escudaria com todas as prevenções favoráveis. Por toda a parte se ouvia murmurar um desfavor após um fato brilhante. Estes ecos da parcialidade precisavam de ser cobertos e abafados com novas harmonias, com amplas e severas composições, e com hinos que entoassem o triunfo do próprio artista.
     Oh! É muito ingrata a sorte do homem a quem sufocam, e que procura a vida; é por extremo dolorosa a situação do artista que tem consciência de si mesmo, que conhece o seu valor, o clarão do seu lume, e a quem rodeiam de trevas, que ele vence, mas que se não extinguem. Se não tivera el-rei por seu lado, mil vezes estalaria de dor: o que eu tenho sofrido daquela gente, dizia ele, só Deus sabe.
     Há soberanos que são seguidos nas suas jornadas por seus monteiros, pelos seus cães, e pelos seus cavalos; outros pelos seus atores e histriões; muitos pelos seus soldados, e alguns pelos seus bufos e parasitas: o senhor D. João VI era acompanhado pelos seus padres e pelos seus músicos. O espírito e práticas eclesiásticas estavam sempre com ele. Num corredor estreito de São Cristovão celebravam-se cerimoniosas festas, com músicas novas, e com as prédicas de um São Carlos, de um Sampaio, e de um Monte-Alverne. Na fazenda de Santa-Cruz, onde havia mais espaço, se executaram magníficas composições, escritas lá mesmo, quase sempre improvisadas pelos seus mestres de capela. Numa dessas jornadas, escreveu José Maurício a sua famosa missa da degolação de São João Batista, e outras obras de que ele mesmo se esqueceu. Foi esta missa a que pôs termo a todas as invectivas dos músicos da real câmara, porque esta obra, a grande instrumental, foi toda escrita no espaço de vinte dias, havendo Marcos Portugal gastado um mês em compor as matinas, a órgão e duas vozes.
     Para se avaliar a presteza e fecundidade deste mestre, basta enumerar as obras que escrevem até o ano de 1811, cuja lista extraí de um borrão do inventário das músicas existentes na capela real, feito pelo próprio punho de José Maurício: sobem acima de 200 peças mencionadas. Espero com o tempo merecer de alguém a quem ultimamente me dirigi o poder completar este catalogo, assim como o das obras de Marcos Portugal, em muito perfeito estado até certo tempo, porque possuo o autógrafo.
     Há uma modéstia d’alma que coloca o homem num mundo de torturas, ou num contínuo naufrágio quando a sua origem provém de uma estulta vaidade: esta moléstia é a inveja. Os invejosos pulam ao céu de contentes quando acham uma palavra para abater o mérito alheio para torná-lo ao menos duvidoso na consciência, dos inexperientes. Não tem gosto; era a ponta do punhal com que feriam José Maurício; não tem gosto, nunca saiu d’aqui, não viu nada, não foi à Itália, não aprendeu, não teve mestre, não frequentou os conservatórios! Tal era a ladainha estudada e uníssono de homens que nunca passaram do papel que representa o tubo de um órgão, e a quem a natureza havia negado o dom de combinar algumas notas e compor uns dês compassos. O tufão da morte os arrojou no mais perfeito esquecimento, e se algum existe hoje, só é conhecido por si mesmo.
     Depois da retirada de el-rei e consumada a independência, foi que Marcos Portugal conheceu o belo e nobre caráter de José Maurício, e tanto o admirou, que morreu seu grande defensor e amigo.
     Os acontecimentos políticos mudaram a situação dos brasileiros, e retraíram as expansões e os atos ostensivos da maior parte dos homens que até então se julgavam os senhores da terra, e como tal superiores em todas as faculdades humanas, apesar de que o médico da rainha, o Dr. Manoel Luiz, repetisse sempre: que em Portugal nasciam os músculos da nação portuguesa, e no Brasil os nervos.
     José Maurício viveu sempre na intimidade dos grandes mestres. Fazia gosto ouvi-lo analisar uma partitura como um retórico analisa uma oração. Senhor de uma prodigiosa memória, possuía a mais vasta erudição musical que é possível; nada lhe escapava: limitação, ou furto, ele indicava, e logo a obra e o lugar preciso. Por aquela gratidão artística, e espírito de justiça aos seus favoritos mestres da Alemanha e Itália, o vimos uma vez afligir-se e queixar-se da versatilidade dos seus companheiros d’arte, que escureciam os velhos mestres para darem a Joaquim Rossini o cetro da arte musical. Levado de indignação, começou a desfiar as óperas do cisne de Pésaro, a despir essas criações melódicas, essas belezas harmônicas, e a mostrar a sua origem, a fonte pura d’onde emanavam mais ou menos disfarçadas; mas ao chegar a um ponto, e era na ópera de Mathilde, parou, e sorrindo-se exclamou: não, isto é novo, isto é sublime; é um homem imenso, é um gênio que há de ir longe: já escreveu a ária da calúnia, e mais dois pedaços concertantes que admiro! E Joaquim Rossini ainda não tinha dado ao mundo o Moises, ainda não tinha mimoseado o seu século com o Guilherme Tell, e o Stabat Mater.
     Era maior a sua probidade artística do que aquela irritação; o seu entusiasmo para com Mozart, Haydn e Beethoven era justíssimo, porque nesta tríade estava toda a gloria da arte germânica, e aquela escola severa que plantou nos ásperos climas do norte uma arte cientifica, bela e proprietária de infinitos primores.
     O célebre Neukomm, discípulo de Haydn, que veio para esta corte como lente de música quando veio à colônia artística dirigida por Lebreton para fundar a Academia das Belas Artes, e que foi vítima da parcialidade que invectivava José Maurício, me disse, em Paris, a propósito do mestre brasileiro, que ele era o primeiro improvisador do mundo. Lamentou a sorte do artista no Brasil, louvou seu caráter, e apreciou as agonias do autor da famosa missa de Réquiem; e a propósito narrou-se o seguinte fato, que no meu regresso à pátria foi confirmado pelo cantor Fasciotti, que o testemunhara igualmente.
     “Em uma daquelas reuniões que se faziam em casa do marques de Santo Amaro, fizemos prova de algumas músicas que me chegaram da Europa. Todas as vezes que se tratava de cantar, cedia o piano ao padre-mestre, porque melhor do que ele nunca vi acompanhar. Entre várias fantasias, Fasciotti cantou uma barcarola que foi freneticamente aplaudida e repetida. José Maurício, que estava no piano, como que para descansar, começou a variar sobre o motivo, e com os nossos aplausos a crescer e multiplicar-se em formosas novidades. Suspensos e interrompendo a nossa admiração com ovações contínuas, ali ficamos até que o toque da alvorada nos viesse surpreender. Ah! Os brasileiros nunca souberam o valor do homem que tinham, valor tanto mais precioso pois que era todo fruto dos seus próprios recursos! E como o saberiam? Eu, o discípulo favorito de Haydn, o que completou por ordem sua as obras que deixara incompletas, escrevi no Rio de Janeiro uma missa, que foi entregue à censura de uma comissão composta daquele pobre Mazziotti e do irmão de Marcos Portugal, missa que nunca se executou, porque não era deles.
     “Alguns tempos depois, entrando eu na capela real por acaso, ouvi tocar no órgão umas harmonias que me não eram estranhas; pouco a pouco, fui reconhecendo pedaços da minha desgraçada missa; subi ao coro, e dou com José Maurício, tendo à vista a minha partitura, e a transpô-la de improviso para o seu órgão. Aproximei-me dele, e fiquei algum tempo a admirar a fidelidade e valentia da execução daquele grande mestre; nada lhe escapava do essencial... não pude resistir, abracei-o quando ia acabar, e choramos ambos sem nada dizer.”
     Neukomm foi compositor daquele concerto monstruoso, composto de três mil artistas, que se executou na inauguração da estátua de Guttenberg! Neukomm veio para o Brasil em companhia de João Batista Debret, de Nicolau Taunay e de Gradjean de Montigny, na qualidade de mestre de contraponto. Nunca ensinou: apenas deu algumas lições particulares a Francisco Manuel da Silva, e talvez que estas lições fossem a causa de ser este jovem perseguido artista e maquiavelicamente por Marcos Portugal logo que lhe apresentou o primeiro Te Deum de sua feitura.
     Havia o nosso artista improvisado tanto e sem descanso, que uma vez entrando pelo coro da então já capela imperial, parou na porta, e perguntou a um de seus discípulos, como que extasiado: De quem é esta bela música?!
     É sua, padre-mestre, pois não se lembra?
     Minha? responde José Maurício!
     - Sim, senhor, sua. – Está-me parecendo agora; mas quando escrevi-a eu, que me não lembra?
     No tempo do rei velho, lhe voltou o discípulo.
     José Maurício calou-se, abateu a cabeça, limpou as lagrimas e disse entre soluços:
     Ah! naqueles tempos, quando me assentava à mesa tinha nos meus olhos el-rei, e nos meus ouvidos uma orquestra imensa e prodigiosa. Muitas noites não pude dormir, porque essa orquestra me acompanhava, e era tal o seu efeito que passava as noites em claro; e infelizmente nunca pude escrever aquilo que claramente ouvia. Hoje, só ouço o cantar dos grilos, os meus gemidos, ou o ganir dos cães que me incomodam e me entristecem.”
     A musa, a famosa e sedutora filha do céu, é como a beleza corporal, que se transforma em asco na velhice, mormente quando a miséria a vem perseguir. O homem de engenho, que viveu no idealismo, se não tem uma pátria agradecida, é a imagem do mais terrível desengano quando a idade lhe extingue o lume do céu, e lhe quebra as forças: é a formosura admirada, a rainha dos prazeres transformada na mulher que expira no catre do hospital.
     Em 1830, o Brasil tinha ainda o seu príncipe, mas nele já não havia o seu defensor perpetuo, o astro do Ipiranga; porque a calúnia e os maus conselhos o haviam precipitado no extremo daquela grande resolução, e daqueles atos que pertencem hoje ao domínio da historia, e à admiração dos homens. A arte e os seus ministros nestas épocas de transição vivem a vida dos proscritos, sobretudo, nos povos onde o príncipe é a força motriz da máquina social.
     Na manhã do dia 18 de abril de 1830, cantando o hino de Nossa Senhora, expirou José Maurício, na casa nº. 18 da rua do Núncio. Chamado por seu filho, o Dr. José Maurício Nunes Garcia, atual lente de anatomia na escola médica desta corte, e então meu companheiro de estudos, fiz tirar-lhe uma máscara em gesso das suas feições, a qual me acompanhou à Europa, e se acha hoje depositada no Museu Nacional com as mascaras de Dante, Tasso, José Bonifácio, Antonio Carlos e Januário Arvellos.
     Quando o cônego Luiz Gonçalves veio para vestir o cadáver, já o achou pronto, porque a esse ato piedoso se prestara seu filho. Ainda me lembra, como se estivera presente, de o ver no leito da morte com as vestes de que usava no interior de sua casa, que eram umas calças e jaqueta de seda roxa; ainda estou vendo a sua mesa, onde se achava o tratado de contraponto e harmonia que havia terminado pouco dias antes de morrer; e sobre uma folha de papel em circulo movediço no qual estavam marcados todos os tons, e que movido em qualquer sentido que fosse, apresentava em roda um sistema completo de harmonia. Este tratado e este engenhoso invento desapareceram da mesa no mesmo dia.
     A irmandade de Santa Cecília, que lhe fez o enterro e funeral, desejou guardar os seus ossos, porém o seu filho cumpriu a vontade paterna, depositando-os na ordem de São Pedro. Hoje se acham na igreja do Sacramento, por uma provisão de monsenhor Narciso.
     Foi José Maurício um homem de estatura mais que ordinária; tinha uma fisionomia nobre, um olhar penetrante, e luminoso quando regia a orquestra, ou falava da arte; as dimensões e saliências ósseas do seu todo, mostravam que havia sido de uma forte constituição. Tinha nos lábios, na forma do nariz, e na saliência dos pômulos os caracteres da raça mista.
     O Dr. Dannesy, frenologista e discípulo fanático de Gall, possui uma cópia da máscara acima referida no seu gabinete em Paris, mas nas suas indagações esganou-se redondamente, o que bem prova a respeito do cérebro e suas protuberâncias externas, que as mais das vezes o miolo é quem decide e não a casca. Estes enganos do mesmo doutor se repetiram em outras vezes na legação brasileira, depois de haver apalpado um grande número de cabeças brasileiras.
     A arte do santuário, depois da morte deste grande músico, ficou sem guia. Pedro Teixeira, homem de talento mas pobre, a prostituiu ao ponto de transformar o canto sagrado em óperas italianas, e o libreto nos hinos da Igreja. Este mau gosto propagou-se até a indecência de há poucos meses aplaudir-se na igreja as árias do Provisório como na sua platéia. A Academia das Belas Artes, à vista de tanta profanação, elevou-se o seu protesto à presença do governo imperial, e dele espera providencias salutares. A época em que vivemos é uma época de reconstrução; a voz do artista já encontra um eco nas sumidades sociais; e a arte um desvelado e espontâneo protetor no príncipe filósofo que preside e protege as sessões e os trabalhos do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.


Extraído de PORTO ALEGRE, Manuel de Araújo.
Apontamentos sobre a vida e obras do Padre José Maurício Nunes Garcia. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Rio de Janeiro, tomo XIX, 3º. trim., p. 354,69, 1856.


[1] Era natural do Rio de Janeiro, e morreu a 15 de maio de 1793.
[2] Como sou devedor de grandes favores a este venerável prelado, que me hospedou no seu palácio com bondade paternal, não desejo nunca que se suponha alguma coisa, a este respeito, por ter sido ele filho de Portugal, e acontecer isto no tempo da independência.
   O general Nóbrega pediu ao Sr. D. José Caetano uma licença franca para que sua família pudesse ir ao convento da Ajuda, e lá passar dias com uma freira sua parenta. A abadessa daqueles tempos tinha pedido ao Sr. Bispo o favor de negar tais licenças, porque pertubavam-lhe a ordem da casa. O Sr. D. José, não querendo dar o motivo por que negava esta licença, para não comprometer a abadessa. Concitou as iras do general, e este foi dizer a José Bonifácio, que sabia de boa fonte, que o bispo fazia clube contra a independência. Imediatamente foi espiado o seu palácio, e o Sr. Bispo sabendo disto mandou fechar as portas às oito horas da noite, ordem que ele conservou severamente até à sua morte em 1833.
    Queixando-me eu da injustiça que houve para com aquele santo prelado, ao falecido conselheiro José Joaquim da Rocha, este contou-me a origem do fato por lhe haver narrado o próprio Nóbrega; o qual ajuntara, que o fizera por caçoada e para privá-lo de sua visitas à noite. José Bonifácio, assim como o SR. D. José, morreram inimizados, e talvez sem saberem da origem de semelhante denúncia.
    
[3] O Sr. Francisco Manoel da Silva, diretor atual do Conservatório de Música, depois de haver estudado com José Maurício, passou a receber lições de Neukomm. Moço ainda, compôs um Te Deum, e ofereceu ao príncipe real, e S. A. ficou tão contente da oferta, que prometeu mandar o jovem compositor para a Itália. O Sr. Francisco Manoel fazia parte da música da real câmara, e com tal estava sujeito a Marcos Portugal, que era o mestre; e este para desviá-lo do gosto e do tempo de compor, passou-o de violoncelo, que era, para violino, ameaçando de o por na rua se não estudasse assiduamente. Para quem tem prática das coisas da vida, e da arte, o caso está bem claro. 

domingo, 2 de dezembro de 2012

Salomé: Festival de Ópera 2012

      Descontando os anos que não assisti ao Festival Internacional do Teatro da Paz durante minha estada em Curitiba, o Festival de 2012 foi, no geral, um dos melhores festivais até este ano. Até agora o festival operístico paraense promovido pela Secretaria Estadual de Cultura, então capitaneada pelo arquiteto paraense Paulo Chaves e com total apoio do então governador Simão Jatene somente exibiu grandes óperas do repertório internacional, fazendo algumas remontagens históricas como das óperas Bug Jargal e Iara do paraense José Cândido da Gama Malcher (1853-1921). Em 2012 não foi diferente em termos de repertório, mas houve um diferencial: quase todos os atores de ópera contratados tem grandes vozes, assim deixando a parte vocal do Festival bem mais uniforme que nos anos anteriores quando algumas óperas foram prejudicadas na sua execução pela qualidade desigual dos principais intérpretes. Os figurinos foram outro quesito a merecer vários comentários desfavoráveis também: quem assistiu a Romeu e Julieta deve lembrar do horroroso figurino desenhado para Julieta no primeiro ato.
     Nesse ano de 2012 quase tudo saiu perfeito. Hänsel e Gretel de Humperdinck, apresentada como João e Maria, devido ao tradicional título usado no Brasil para o conto de fadas dos Irmãos Grimm teve encenação visualmente deslumbrante e musicalmente a dupla de intérpretes principais sustentaram a ópera com  vozes que pedem vários bises. Os atores coadjuvantes também fizeram boas participações, sobretudo, Leonardo Neiva que interpretou o pai com um frescor vocal agradabilíssimo; coisa muito boa considerando que os barítonos desse festival, na maioria, nunca passaram do regular.
    Salomé de Richard Strauss fechou o Festival desse ano com uma marca histórica: todas as três noites com lotação esgotada e o teatro deveras cheio de gente que passou 1 hora e 40 minutos de puro deleite musical compenetrados pela dissonante, histérica e estressada música de Strauss que dá caracterização musical perfeita às personagens de Oscar Wilde cujos adjetivos descritos anteriormente foram traduzidos em música pelo compositor alemão.
   O elenco encabeçado pelo soprano holandês Annemarie Kremer aguentou com bravura a pesada partitura de Richard Strauss e levaram a encenação com a melhor direção cênica que vi até agora no Festival. Parabéns para Mauro Wrona. Cenários (Duda Arruk) e figurinos (Elena Toscano) não deixaram devendo às grandes produções estrangeiras disponíveis em vídeo. 
     A Orquestra Sinfônica do Teatro da Paz teve que receber um reforço de cerca de 50 músicos e uma ampliação do foço para dar conta da massa sonora criada por Strauss. Um detalhe que não fugiu aos olhos de ninguém foi a localização das duas harpas no camarote lateral esquerdo do palco, ou seja, faltou mesmo espaço no foço!
     No final das contas e juntando todos os esforços para levar à cena a montagem de uma ópera heavy metal como essa, noves fora, o resultado foi excelente. Aplausos!!!!

Fotos:

 













 Rodrigo Esteves: Herodes Antipas



 Eu e Mauro Wrona após a saída da segunda récita



     

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Jairo Chaves: Aniversário da Academia da Berliner Philharmoniker

     O grande violista paraense Jairo Chaves enviou-me esta mensagem que pode ser lida abaixo sobre sua participação no aniversário comemorativo das quatro décadas de atividades da Academia Musical da Filarmônica de Berlim criada pelo regente austríaco e conterrâneo de Mozart, Herbert von Karajan. Para Jairo que foi um dos músicos integrantes da extinta Orquestra de Câmara do Pará e há anos derrama o seu talento no Paraná (já que o Pará o deixou escapar com a tantos outros) o meu mais sincero abraço e congratulação por mais esta conquista importantíssima em sua carreira. Viva o músico erudito paraense!

"O músico Paraense Jairo Chaves, atualmente membro da Orquestra Sinfônica da Universidade Estadual de Londrina e da Orquestra de Câmara “Solistas de Londrina” foi convidado para participar do Concerto Comemorativo pelos 40 anos da Academia da Orquestra Filarmônica de Berlim, fundada pelo legendário Maestro Herbert von Karajan. O concerto, que contará com a presença de atuais e antigos bolsistas da Academia, será regido pelo maestro titular da Filarmônica, Sir Simon Rattle. O convite deu-se ao fato do músico ter sido bolsista da Academia em 2003/2004, ocasião em que integrou a Berliner Philharmoniker em dezenas de concertos na Alemanha e também Áustria. O Concerto Comemorativo acontecerá no dia 02 de dezembro na Philharmonie, a famosa sala de concertos residência da Berliner Philharmoniker."

sábado, 17 de novembro de 2012

José Maurício Nunes Garcia: Esboceto biográfico

     O texto a seguir foi extraído da publicação da Missa de réquiem do padre José Maurício e escrito pelo visconde de Taunay. A publicação foi realizada pela Bevilacqua no Rio de Janeiro e São Paulo em 1897.  O texto original teve sua escrita adaptadas aos novos padrões da escrita portuguesa atual feita por mim mesmo.

     A 22 de setembro, dia consagrado pela Igreja a S. Maurício, nasceu em 1767, nesta cidade do Rio de Janeiro, de onde nunca deveria sair, José Maurício Nunes Garcia, fruto único do legítimo consórcio de Apolinário Nunes Garcia, natural da ilha do Governador, e de Victoria Maria da Cruz, do bispado de Marianna (Minas Gerais), ambos de cor, esta filha ou neta de uma negra da Costa d'África (Guiné).
    Na idade de 6 anos, em 1773, teve o infortúnio de perder o pai; mas ficou-lhe para amparo fecundo e poderoso o amor de sua mãe  em extremo laboriosa e inteligente, auxiliada por uma irmã mais velha, cujo nome infelizmente se perdeu, e talvez não mais se possa vir saber.
   Mostrando, desde a mais tenra idade, grande vivacidade de índole, aplicação a qualquer gênero de estudo, possuindo voz muito afinada, extensa e dúctil e patenteando a mais notável inclinação pela música, depois de aprender numa escola régia as primeiras letras, pode José Maurício, graças aos esforços das suas protetoras naturais, ser matriculado na aula de solfejo e rudimentos de harmonia do pardo José, e aí tais progressos fez, que granjeou, a um tempo, a amizade do mestre e o respeito e admiração dos condiscípulos  eram as lições dadas num violão, que passava de mão em mão.
     Pode-se afirmar que, pelos resultados obtidos, estava, desde então, salva a carreira de José Maurício, ficando bem compensados os sacrifícios heroicamente feitos em seu beneficio e para glória da pátria brasileira por aquelas duas humildes criaturas: a mãe e a tia.
     Matriculado, ainda bem jovem, na escola de latim do mestre Elias, em três anos ali demonstrou também tal aproveitamento, que aquele latinista, célebre na época, o declarou em condições de poder sentar-se na cadeira de professor e ensinar aos colegas.
     Igualmente se distinguio por modo excepcional na aula pública de filosofia racional e moral, regida pelo Dr. Goulão, formado em Coimbra, tendo sido até por este proposto para substituto.
     No meio de todos esses estudos e então ajudando com seu trabalho diário a família, a tocar, dos 15 aos 20 anos, instrumentos de corda e de sopro nas bandas de música e orquestras de festas de igreja, continuava José Maurício, com ininterrompido afinco, a cultivar a arte musical, guindando-se, pelo esforço próprio e pela constante meditação dos clássicos, a esferas cada vez mais amplas e elevadas. Também ia subindo, a mais nomeada nas boas rodas do Rio de Janeiro, onde o seu nome, em 1790, já era sobremaneira benquisto e acatado.
     Pensou então em ordenar-se padre e, tendo-lhe sido feita generosa doação pelo seu amigo o negociante Thomaz Gonçalves de uma casinha à rua chamada, a princípio, das Belas Noites e depois crismada das Marrecas, pode, com a constituição desse patrimônio  ser recebido diácono  cantando missa solene no ano de 1792 e obtendo licença para pregar em 1798, embora só depois dessa data tivesse estudado retórica com o Dr. Manoel Ignacio da Silva Alvarenga, cujo atestado de 1804 nos diz: "que frequentara a sua aula por dois anos e nela fizera rápidos progressos, como raras as vezes se encontram".
     Desde aquele ano de 1792, admitido nos melhores círculos da sociedade fluminense, apesar de todos os preconceitos de cor então ferrenhos e que a meiguice e o espirito humanitário dos príncipes de Bragança, desde D. João VI, chegaram entre nós a destruir de todo, era José Maurício muito apreciado pela vastidão e profundeza dos seus conhecimentos em várias ciências e línguas e ainda mais pela maestria com que tocava órgão, cravo e depois piano e neles improvisava, tirando desses instrumentos os mais estupendos efeitos.
     Parece provado, que a sua primeira e grande produção sacra para instrumental data de 1790; e a esta se foram rapidamente sucedendo outras de subido valor, que traziam maravilhados os muitos apreciadores de tao fecundo talento.
    Empregando todas as suas economias em ajuntar a mais vasta coleção de composições musicais de todos os autores alemães  italianos e franceses então existentes, sempre e sempre aumentada  e que em 1816 produzio a maior surpresa a Sigismundo Neukomm, o discípulo querido de Haydn, filiou-se instintivamente à grandiosa e severa escola de Haendel, Haydn, os Bach, Mozart e Beethoven, este já a emergir nos largos horizontes da arte, como astro de inexcedível brilho.
     A 2 de julho de 1798, foi José Maurício nomeado mestre de capela e organista da antiga Catedral e Sé, hoje igreja do Rosário, com o ordenado anual de 600$000.
    Privada então com o ilustrado Bispo do Rio de Janeiro, D. José da Silva Coutinho, prova do seu saber, e fazia ingentes esforços para desenvolver na população o gosto pela música, já dando, por minha retribuição, lições em casas particulares de violão, cravo e espinheta (sic) a meninas e senhoras, já mantendo uma aula gratuita, em que lecionou com a maior dedicação e assiduidade por espaço de 38 anos, quase até vésperas da sua morte!
     No meio de tantas canseira, seguiam-se umas após outras as manifestações do seu gênio produtor com admirável copiosidade, todas ligadas, na máscula e indestrutível contextura, à escola alemã, o que assegura a não poucas delas a imortalidade.
     
II

    A impressão que José Maurício causou ao príncipe Regente D. João e à corte portuguesa, quando aportaram em Janeiro de 1808, à capital da grande colônia foi de verdadeiro pasmo.
      - Como? Pois havia um músico desses em uma simples dependência de Portugal?
      Rodeou-o logo o favor do Príncipe de mostras do mais formal apreço; estas, porém, mais serviram para suscitar e açular a inveja e os ódios, logo nascentes, dos músicos vindos de Portugal, do que para melhorar as condições de existência do artista brasileiro, que, acabrunhado de trabalho, lutava quase com a miséria. O hábito de Cristo em 1810, com a respectiva tença e mais a mensalidade de 32$ vieram, contudo, dar-lhe algum resfôlego e compensação.
    Aumentaram-se-lhe, entretanto, os desgostos e as lutas com a chegada, ao Rio de Janeiro, do célebre Marcos Portugal em 1811, e não 1813, como diz Porto Alegre. A insuportável enfatuação do famigerado maestro português  cujas óperas eram, naquele tempo, representadas nos teatros até da Rússia com ruidoso aplauso, óperas de todo o ponto esquecidas e irressuscitáveis, as rivalidades, sobretudo, da diferença e do antagonismo das escolas seguidas por cada um dos compositores, as inúmeras intrigas e perversos mexericos, tudo isto se tornou para José Maurício, durante não poucos anos, causa de incessantes dissabores, vexames e desfeitas, que ele soube suportar com toda a paciência, meiguice e inquebrantável dignidade.
     Apesar de todo o prestígio, que os repetidos triunfos da Europa asseguravam a Marcos Portugal e das suas regalias de português e homem de sangue limpo, como então se dizia, a intuição musical de D. João VI fazia-o inclinar-se de contínuo para José Maurício, tanto assim que morrendo a rainha mãe  D. Maria I, a 20 de março de 1816, a ele também encomendou o rei a solene missa de exéquias. Que escândalo na Corte!
     A essa prova de elevadíssima confiança, que exasperou Marcos Portugal e a sua camarilha, respondeu o padre brasileiro com uma verdadeira obra-prima, o Requiem, hoje afinal reduzido para piano, órgão e vozes pelo nosso belo e operoso maestro Sr. Alberto Nepomuceno e pronto já para ser entregue aos prelos e ter a maior publicidade.
    Será a primeira produção impressa de José Maurício!... E quanto tropeço a vencer-se para se tornar afinal conhecida uma única das suas quatrocentas e tantas composições!
    Nessa árdua campanha empenhei nada menos de 25 anos de tenaz propaganda, já na Câmara dos Deputados e no Senado, já na imprensa diária e em inúmeros artigos e reiterados apelos a quantos me pudessem ajudar!...
     Esse Requiem, Sigismundo Neukomm não duvidava colocá-lo a par do divino Mozart, tanta solenidade e angustia, tais acentos, tamanha unção e dor nele se condensam e se travam. Também fora escrito com lágrimas bem íntimas e sinceras, pois no mesmo dia da morte da rainha, 20 de março de 1816, perdera José Maurício a extremosa e estremecida mãe, a quem tudo devia.
    Não abrandou e, pelo contrário, mais se exacerbou a fúria dos partidários de Marcos Portugal com a admiração que em todos incutiu a execução do Requiem, precedido de nove longos e inspiradíssimos Responsórios. Nem de nada sérvio a verdadeira homenagem que afinal lhes prestou o mesmo José Maurício, modificando o seu estilo e modo de escrever e adotando infelizmente, como subordinação ao gosto da época, os inúmeros trinados, as volatas, cadência e fioritturas de procedência italiana, até nas peças de mais intenso caráter religioso, afrouxado o vigor da harmonia e polifonia e avassalado tudo a flácidas melodias.
     Por isto, pois, pode dividir-se a obra do grande compositor sacro em dois largos períodos: o primeiro de máxima valia e pureza, oriundo da genuína fonte germânica e que decorre de 1790 a 1816, nada menos de 26 anos; o segundo, já de adulteração e decadência  em que, se, aqui e acolá, fulgem as cintilações do estro e a madureza da ciência  aparecem, não raro, os senais de deplorável depressão, devida à influência do mal gosto e da escola italiana, de que foi o mais ilustre representante Rossini, credor, a princípio, de censuras e justos reparos por parte do maestro brasileiro.
     Vai esse período de 1817 a 1830, isto é, 13 anos; mas nele a fecundidade foi em muito menor escala, podendo-se afirmar, que no primeiro José Maurício compôs mais de trezentos importante spartitos para as solenidades da Igreja, todos por sem dúvida dignos de surgirem do inqualificável ouvido em que foram caindo, quando merecem estar em plena e fulgida luz.
     A proclamação da Independência do Brasil a 7 de setembro de 1822, trazendo obrigatório zelo das finanças da nova nação que se ia organizando, tornou ainda mais difícil a vida ja precária de José Maurício, com fundos e aniquiladores cortes feitos nas largas despesas da Capella Imperial.
     Marcos Portugal, que ficara, não se sabe bem porque, no Brasil deixando de acompanhar D. João VI no regresso a Lisboa, sofreu ainda mais; e aí, na hora do desfavor e da desgraça, foi procurar o companheiro de arte, que o acolheu com o maior carinho e amizade e, com toda a nobreza, esquecido dos antigos e cruéis agravos, o ajudou na medida das parcas forças.
     Para os dois velhos compositores arrastaram-se, desde então, melancólicos e pesados os dias.
    "Hoje, dizia em certa ocasião José Maurício, em vez das grandes orquestras que outrora me acariciavam os ouvidos, só ouço o cantar dos grilos, os meus gemidos e o ganir dos cães, que me incomodam e entristecem."
     Ambos morreram no ano de 1830; José Maurício a 18 de abril, na casa nº. 18 da rua do Nuncio, aos 62 anos de idade e 5 meses incompletos.
     Manoel Araújo Porto Alegre tirou-lhe das feições de Santa Cecília, sendo o corpo enterrado na igreja de S. Pedro, conforme deixara determinado. Depois, porém, transportaram os seus ossos para a igreja do Sacramento, por provisão de monsenhor Narciso, onde ainda se acham.
     Era José Maurício de estatura bastante elevada, fisionomia expressiva, inteligente, olhar penetrante, mas em extremo bondoso, cor amulatada para o claro, um tanto arroxeada na comissura dos lábios, maçãs do rosto salientes, testa larga, com acentuado lobinho do lado direito, nos últimos anos de vida.
     Januário da Cunha Barbosa, seu amigo particular, no artigo necrológico, que a 7 de maio de 1830 lhe consagrou no Diário Fluminense, diz o seguinte: "Juntava a todos os estudos necessários ao presbiterato vastos e profundos conhecimentos de geografia e história, tanto profana como sagrada, e das línguas francesa e italiana, não sendo hóspede da inglesa e grega, que também estudara, não com tanto afinco".
     Foi esse homem incontestavelmente um gênio musical, a quem o Brasil ainda não pagou um ceitil da dívida de admiração e reconhecimento a que tem inconcusso jus, com prejuízo e desprestígio para toda a nação, que assim mostra desconhecer os tesouros que possui  não para José Maurício Nunes Garcia, que assentou sólidas bases aos seus direitos à imortalidade e pode sempre apelar para a mais remota posteridade.


Rio de Janeiro, 22 de setembro de 1896.


Extraído de TAUNAY, visconde de. Introdução. In: GARCIA, José Maurício Nunes. Missa de Requiem 1816. Rio de Janeiro, São Paulo, Bevilacqua, 1897.



     

domingo, 4 de novembro de 2012

Hänsel und Gretel (João e Maria) no Teatro da Paz

    O XI Festival de Ópera do Teatro da Paz apresentou nas noites de 1, 3 e 4 de novembro de 2012 a ópera Hänsel und Gretel do alemão Engelbert Humperdinck (1854-1921) sendo assim a segunda ópera apresentada no festival, pois foi antecedida da Cavalleria Rusticana de Mascagni. Com o título João e Maria foi anunciada e assim vendida devido o conto dos irmãos Grimm ter recebido este título no Brasil. Como se trata de uma ópera baseada em um conto de fadas, também é bastante comum direcioná-la para o público infantil; o que, de fato, acontece em todo o planeta, e Belém do Grão-Pará não foi diferente. Jamil Maluf deu o ponta-pé inicial para essa produção cantada em português (com excelente resultado) em 2002 com a Orquestra Experimental de Repertório. Com direção cênica de Flávio de Souza e cenários (belíssimos) e figurinos (encantadores) de Fernando Anhê a montagem virou um cult conseguindo manter-se por seis temporadas apresentadas no Teatro Municipal de São Paulo, no Municipal do Rio de Janeiro e no Festival Amazonas de Ópera. Neste ano alcançou a capital paraense. Para quem já conhece a música de Humperdinck não há nada a acrescentar. Para os que ainda não a conhecem torna-se obrigatória a sua audição, tão maravilhosa e agradável e a partitura. 
   O elenco que se apresentou no Teatro da Paz foi um dos melhores elencos da história deste festival. Todas as vozes bem treinadas e devidamente encaixadas em suas personagens. A dupla de protagonistas não deixou a peteca cair um momento sequer. Luciana Tavares e Aliane Sousa, mesmo com participações pequenas de suas personagens, marcaram presença. A entrada de Luciana Tavares ficou marcada na minha mente substituindo a versão original alemã que eu já tinha gravada na memória. Em suma: uma grande montagem que não deve ser esquecida como as anteriores e merece um obrigatório bis nos próximos festivais.


Vídeos:

Início do III ato

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Agradecimentos:

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Fotos:
















Todas as fotos por Riccardo Rimas D'Ávila




Cavalleria Rusticana no Teatro da Paz

      Na noite de 17 de outubro de 2012 teve início o 11º Festival de Ópera do Teatro da Paz com a 1ª de 3 récitas da ópera de Leoncavallo que eclipsou todas as outras desse compositor italiano.
     Segundo Gilberto Chaves no programa do festival, essa ópera foi um dos espetáculos mais apresentados no Teatro da Paz na virada do século XIX para o XX "queridos da platéia paraense à época, que, decerto, nossos bisavós tiveram a oportunidade de aproveitar". Portanto, um retorno histórico da partitura verista à cena do da Paz.
     A noite teve vários altos e baixos. O primeiro a saltar aos olhos de quem conhece a ópera foi o cenário, bastante simples e muito inadequado para a ópera. Uma pequena escadaria semicircular encimada por colunas e só. Uma visão cênica bem mais apropriada para uma encenação de Salomé. A vila da Sicília onde se passa a estória da ópera nem de longe foi visualizada. Quando o coro entrou com suas vestes novecentista mais pareceu que dois tempos históricos foram postos em um só lugar.
     Os cantores não contribuíram muito para a grandeza da noite: Laura de Souza é um soprano de muito boa voz, mas perdeu muito na dramaticidade em uma personagem escrita para mezzo-soprano, embora vocalmente tenha sido a melhor solista da noite, pois o tenor Rinaldo Leone deixou-se engolir pela orquestra em vários momentos chegando a não ser ouvido no dueto No, no Turridu. Leone tem boa voz, mas na noite de estréia sua voz ficou fora do palco na maior parte da encenação. Cansaço? Muito esforço nos ensaios? ou sua voz já está "indo embora"?. Não afirmarei nada.
     Alpha de Oliveira fez uma mamma Lucia aceitável, porém como acontece quando ela canta papéis para mezzo sua voz perde bastante volume, sua interpretação ficou bastante pálida. Rodolfo Giugliani garantiu-nos um Alfio de qualidade e até bonachão fazendo uma cena bastante agradável.
     O coro do Festival, para variar, foi a melhor coisa da noite, e aqui cobro novamente uma noite dedicada somente a ele na programação dos próximos festivais. Como no ano passado houve a noite da dança na ópera, já passou o tempo de dar ao coro uma noite só sua. Coros operísticos não faltam para essa noitada musical. Entre prós e contra essa noite ficou com conceito regular para mim.   

sábado, 27 de outubro de 2012

Paolo Bonomini e Kirilo Zvyegintsov: piano e violoncelo

O duo camerístico formado pelos jovens Paolo Bonomini (cello) e Kirilo Zvyegintsov (piano) apresentaram-se em Belém do Grão-Pará na noite de 25 de outubro de 2012 trazidos à capital paraense pelo Fundação Amazônica de Música para mais uma noitada musical da sua temporada 2012 que até o presente só contou com grandes momentos musicais.
Jovens, mas com formação musical sólida, não se intimidaram perante as  exigências digitais dos três compositores incluídos no programa: Mendelssohn, Piatti e César Franck, todos artistas do romantismo musical novecentistas, o que deu à noite uma carga extra de emotividade e lirismo próprios desse estilo musical.
O programa foi muito bem organizado, começando com o baixo romantismo de Mendelssohn e terminando com o alto romantismo de Franck tento Piatti no meio com duas peças curtas e encantadores servindo de intermezzo para as duas grandes sonatas contidas no programa. 
A sonata de Franck, que os melômanos devem conhecer na sua versão violinística encerrou com chave de ouro, que iniciou com quase meia hora de atraso, mas que foi compensada com execuções competentes desses dois promissores artistas.



Informações do programa:

Paolo Bonomini

"Paolo Bonomini nasceu em 1989 e iniciou seus estudos com Perucchetti no Conservatorio 'L. Marenzio' em Brescia, onde obteve o diploma de bacharel com louvor.
Foi premiado em varios concursos, a citar: Concurso Nacional Art Awards Romanini, Concurso Nacional Vittorio Veneto e Menção Honrosa no National Art Awards 2006. Venceu o Concurso Solistas 2009 entre os melhores estudantes das escolas suíças. 
Por cinco vezes recebeu o diploma de merito da Accademia Musicale Chigiana com Antonio Meneses.
Foi agraciado com a bolsa Mario Brunello no período de 2005 a 2010 da Fondazione Romano Romanini Academia de Brescia e da Castelfranco Veneto.
Em junho de 2010 recebeu o Diploma de Concertista na Escola Superior de Arte de Berna na classe do violoncelista Antonio Meneses, com quem também concluiu o mestrado em 2012. Foi o vencedor do prêmio "Tschumi" pelo melhor concerto executado.
Paolo Bonomini colabora com a orquestra de câmara Orchestra d'archi italiana, sob a direção de Mario Brunello e com a orquestra "I solisti di Pavia", dirigida por Enrico Dindo. Integra ainda a "Orchestra Giovanile Luigi Cherubini" conduzida por Riccardo Muti além de ter se apresentado sob a regência dos maestros Claudio Abbado, Alexander Lonquich, Zsolt Nagy, Benjamin Schmid e John Axelrod.
Como solista tem se apresentado em importantes festivais, com importantes grupos de câmara e ao lado de renomados músicos como: Salvatore Accardo, Bruno Giuranna, Antonio Meneses, Sonig Tchkarian, Danilo Rossi, Virtuosi di Praga, Odessa Orquestra de Câmera e Camerata Bern.
Apresentou-se ao vivo na Rádio Rai 3 no Concerti di Palazzo Venezia.

Kirilo Zvyegintsov

Natural da Ucrânia, Kirilo Zvyegintsov, nasceu em 1983 e iniciou seus estudos de piano aos seis anos de idade sob orientação de Boris Archimowitsch na Academia de Música Tschaikowsky em Kiev.
De 2005 a 2008 esteve sob orientação de Tomasz Herbut na Escola Superior de Música em Berna, onde concluiu em 2011 o Mestrado em Performance com nota máxima e distinção. Atualmente prossegue seus estudos na Escola Superior de Música de Basel, onde dedica-se à música contemporânea.
Kirilo Zvyegintsov participa frequentemente de master classes com renomados pianistas dentre eles, Dimitri Bashkirov e Robert Levin.
Premiado em vários concursos, a citar 6º Concurso Internacional J. S. Bach em Würzburg e o "Virtuoses do Futuro" em Crans-Montana.
Desde 1999, tem-se apresentado em recitais como solista, camerista e concertos com orquestra em vários países da Europa, além de inúmeros festivais.



Vídeos:

Mendelssohn: Sonata para violoncelo n. 1

Allegro vivace

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Andante

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Allegro assai

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Carlo Alfredo Piatti: Tarantela para violoncelo e piano Op. 23

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Carlo Alfredo Piatti: Seranata para violoncelo e piano Op. 12

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