José Maurício Nunes Garcia: Esboceto biográfico

     O texto a seguir foi extraído da publicação da Missa de réquiem do padre José Maurício e escrito pelo visconde de Taunay. A publicação foi realizada pela Bevilacqua no Rio de Janeiro e São Paulo em 1897.  O texto original teve sua escrita adaptadas aos novos padrões da escrita portuguesa atual feita por mim mesmo.

     A 22 de setembro, dia consagrado pela Igreja a S. Maurício, nasceu em 1767, nesta cidade do Rio de Janeiro, de onde nunca deveria sair, José Maurício Nunes Garcia, fruto único do legítimo consórcio de Apolinário Nunes Garcia, natural da ilha do Governador, e de Victoria Maria da Cruz, do bispado de Marianna (Minas Gerais), ambos de cor, esta filha ou neta de uma negra da Costa d'África (Guiné).
    Na idade de 6 anos, em 1773, teve o infortúnio de perder o pai; mas ficou-lhe para amparo fecundo e poderoso o amor de sua mãe  em extremo laboriosa e inteligente, auxiliada por uma irmã mais velha, cujo nome infelizmente se perdeu, e talvez não mais se possa vir saber.
   Mostrando, desde a mais tenra idade, grande vivacidade de índole, aplicação a qualquer gênero de estudo, possuindo voz muito afinada, extensa e dúctil e patenteando a mais notável inclinação pela música, depois de aprender numa escola régia as primeiras letras, pode José Maurício, graças aos esforços das suas protetoras naturais, ser matriculado na aula de solfejo e rudimentos de harmonia do pardo José, e aí tais progressos fez, que granjeou, a um tempo, a amizade do mestre e o respeito e admiração dos condiscípulos  eram as lições dadas num violão, que passava de mão em mão.
     Pode-se afirmar que, pelos resultados obtidos, estava, desde então, salva a carreira de José Maurício, ficando bem compensados os sacrifícios heroicamente feitos em seu beneficio e para glória da pátria brasileira por aquelas duas humildes criaturas: a mãe e a tia.
     Matriculado, ainda bem jovem, na escola de latim do mestre Elias, em três anos ali demonstrou também tal aproveitamento, que aquele latinista, célebre na época, o declarou em condições de poder sentar-se na cadeira de professor e ensinar aos colegas.
     Igualmente se distinguio por modo excepcional na aula pública de filosofia racional e moral, regida pelo Dr. Goulão, formado em Coimbra, tendo sido até por este proposto para substituto.
     No meio de todos esses estudos e então ajudando com seu trabalho diário a família, a tocar, dos 15 aos 20 anos, instrumentos de corda e de sopro nas bandas de música e orquestras de festas de igreja, continuava José Maurício, com ininterrompido afinco, a cultivar a arte musical, guindando-se, pelo esforço próprio e pela constante meditação dos clássicos, a esferas cada vez mais amplas e elevadas. Também ia subindo, a mais nomeada nas boas rodas do Rio de Janeiro, onde o seu nome, em 1790, já era sobremaneira benquisto e acatado.
     Pensou então em ordenar-se padre e, tendo-lhe sido feita generosa doação pelo seu amigo o negociante Thomaz Gonçalves de uma casinha à rua chamada, a princípio, das Belas Noites e depois crismada das Marrecas, pode, com a constituição desse patrimônio  ser recebido diácono  cantando missa solene no ano de 1792 e obtendo licença para pregar em 1798, embora só depois dessa data tivesse estudado retórica com o Dr. Manoel Ignacio da Silva Alvarenga, cujo atestado de 1804 nos diz: "que frequentara a sua aula por dois anos e nela fizera rápidos progressos, como raras as vezes se encontram".
     Desde aquele ano de 1792, admitido nos melhores círculos da sociedade fluminense, apesar de todos os preconceitos de cor então ferrenhos e que a meiguice e o espirito humanitário dos príncipes de Bragança, desde D. João VI, chegaram entre nós a destruir de todo, era José Maurício muito apreciado pela vastidão e profundeza dos seus conhecimentos em várias ciências e línguas e ainda mais pela maestria com que tocava órgão, cravo e depois piano e neles improvisava, tirando desses instrumentos os mais estupendos efeitos.
     Parece provado, que a sua primeira e grande produção sacra para instrumental data de 1790; e a esta se foram rapidamente sucedendo outras de subido valor, que traziam maravilhados os muitos apreciadores de tao fecundo talento.
    Empregando todas as suas economias em ajuntar a mais vasta coleção de composições musicais de todos os autores alemães  italianos e franceses então existentes, sempre e sempre aumentada  e que em 1816 produzio a maior surpresa a Sigismundo Neukomm, o discípulo querido de Haydn, filiou-se instintivamente à grandiosa e severa escola de Haendel, Haydn, os Bach, Mozart e Beethoven, este já a emergir nos largos horizontes da arte, como astro de inexcedível brilho.
     A 2 de julho de 1798, foi José Maurício nomeado mestre de capela e organista da antiga Catedral e Sé, hoje igreja do Rosário, com o ordenado anual de 600$000.
    Privada então com o ilustrado Bispo do Rio de Janeiro, D. José da Silva Coutinho, prova do seu saber, e fazia ingentes esforços para desenvolver na população o gosto pela música, já dando, por minha retribuição, lições em casas particulares de violão, cravo e espinheta (sic) a meninas e senhoras, já mantendo uma aula gratuita, em que lecionou com a maior dedicação e assiduidade por espaço de 38 anos, quase até vésperas da sua morte!
     No meio de tantas canseira, seguiam-se umas após outras as manifestações do seu gênio produtor com admirável copiosidade, todas ligadas, na máscula e indestrutível contextura, à escola alemã, o que assegura a não poucas delas a imortalidade.
     
II

    A impressão que José Maurício causou ao príncipe Regente D. João e à corte portuguesa, quando aportaram em Janeiro de 1808, à capital da grande colônia foi de verdadeiro pasmo.
      - Como? Pois havia um músico desses em uma simples dependência de Portugal?
      Rodeou-o logo o favor do Príncipe de mostras do mais formal apreço; estas, porém, mais serviram para suscitar e açular a inveja e os ódios, logo nascentes, dos músicos vindos de Portugal, do que para melhorar as condições de existência do artista brasileiro, que, acabrunhado de trabalho, lutava quase com a miséria. O hábito de Cristo em 1810, com a respectiva tença e mais a mensalidade de 32$ vieram, contudo, dar-lhe algum resfôlego e compensação.
    Aumentaram-se-lhe, entretanto, os desgostos e as lutas com a chegada, ao Rio de Janeiro, do célebre Marcos Portugal em 1811, e não 1813, como diz Porto Alegre. A insuportável enfatuação do famigerado maestro português  cujas óperas eram, naquele tempo, representadas nos teatros até da Rússia com ruidoso aplauso, óperas de todo o ponto esquecidas e irressuscitáveis, as rivalidades, sobretudo, da diferença e do antagonismo das escolas seguidas por cada um dos compositores, as inúmeras intrigas e perversos mexericos, tudo isto se tornou para José Maurício, durante não poucos anos, causa de incessantes dissabores, vexames e desfeitas, que ele soube suportar com toda a paciência, meiguice e inquebrantável dignidade.
     Apesar de todo o prestígio, que os repetidos triunfos da Europa asseguravam a Marcos Portugal e das suas regalias de português e homem de sangue limpo, como então se dizia, a intuição musical de D. João VI fazia-o inclinar-se de contínuo para José Maurício, tanto assim que morrendo a rainha mãe  D. Maria I, a 20 de março de 1816, a ele também encomendou o rei a solene missa de exéquias. Que escândalo na Corte!
     A essa prova de elevadíssima confiança, que exasperou Marcos Portugal e a sua camarilha, respondeu o padre brasileiro com uma verdadeira obra-prima, o Requiem, hoje afinal reduzido para piano, órgão e vozes pelo nosso belo e operoso maestro Sr. Alberto Nepomuceno e pronto já para ser entregue aos prelos e ter a maior publicidade.
    Será a primeira produção impressa de José Maurício!... E quanto tropeço a vencer-se para se tornar afinal conhecida uma única das suas quatrocentas e tantas composições!
    Nessa árdua campanha empenhei nada menos de 25 anos de tenaz propaganda, já na Câmara dos Deputados e no Senado, já na imprensa diária e em inúmeros artigos e reiterados apelos a quantos me pudessem ajudar!...
     Esse Requiem, Sigismundo Neukomm não duvidava colocá-lo a par do divino Mozart, tanta solenidade e angustia, tais acentos, tamanha unção e dor nele se condensam e se travam. Também fora escrito com lágrimas bem íntimas e sinceras, pois no mesmo dia da morte da rainha, 20 de março de 1816, perdera José Maurício a extremosa e estremecida mãe, a quem tudo devia.
    Não abrandou e, pelo contrário, mais se exacerbou a fúria dos partidários de Marcos Portugal com a admiração que em todos incutiu a execução do Requiem, precedido de nove longos e inspiradíssimos Responsórios. Nem de nada sérvio a verdadeira homenagem que afinal lhes prestou o mesmo José Maurício, modificando o seu estilo e modo de escrever e adotando infelizmente, como subordinação ao gosto da época, os inúmeros trinados, as volatas, cadência e fioritturas de procedência italiana, até nas peças de mais intenso caráter religioso, afrouxado o vigor da harmonia e polifonia e avassalado tudo a flácidas melodias.
     Por isto, pois, pode dividir-se a obra do grande compositor sacro em dois largos períodos: o primeiro de máxima valia e pureza, oriundo da genuína fonte germânica e que decorre de 1790 a 1816, nada menos de 26 anos; o segundo, já de adulteração e decadência  em que, se, aqui e acolá, fulgem as cintilações do estro e a madureza da ciência  aparecem, não raro, os senais de deplorável depressão, devida à influência do mal gosto e da escola italiana, de que foi o mais ilustre representante Rossini, credor, a princípio, de censuras e justos reparos por parte do maestro brasileiro.
     Vai esse período de 1817 a 1830, isto é, 13 anos; mas nele a fecundidade foi em muito menor escala, podendo-se afirmar, que no primeiro José Maurício compôs mais de trezentos importante spartitos para as solenidades da Igreja, todos por sem dúvida dignos de surgirem do inqualificável ouvido em que foram caindo, quando merecem estar em plena e fulgida luz.
     A proclamação da Independência do Brasil a 7 de setembro de 1822, trazendo obrigatório zelo das finanças da nova nação que se ia organizando, tornou ainda mais difícil a vida ja precária de José Maurício, com fundos e aniquiladores cortes feitos nas largas despesas da Capella Imperial.
     Marcos Portugal, que ficara, não se sabe bem porque, no Brasil deixando de acompanhar D. João VI no regresso a Lisboa, sofreu ainda mais; e aí, na hora do desfavor e da desgraça, foi procurar o companheiro de arte, que o acolheu com o maior carinho e amizade e, com toda a nobreza, esquecido dos antigos e cruéis agravos, o ajudou na medida das parcas forças.
     Para os dois velhos compositores arrastaram-se, desde então, melancólicos e pesados os dias.
    "Hoje, dizia em certa ocasião José Maurício, em vez das grandes orquestras que outrora me acariciavam os ouvidos, só ouço o cantar dos grilos, os meus gemidos e o ganir dos cães, que me incomodam e entristecem."
     Ambos morreram no ano de 1830; José Maurício a 18 de abril, na casa nº. 18 da rua do Nuncio, aos 62 anos de idade e 5 meses incompletos.
     Manoel Araújo Porto Alegre tirou-lhe das feições de Santa Cecília, sendo o corpo enterrado na igreja de S. Pedro, conforme deixara determinado. Depois, porém, transportaram os seus ossos para a igreja do Sacramento, por provisão de monsenhor Narciso, onde ainda se acham.
     Era José Maurício de estatura bastante elevada, fisionomia expressiva, inteligente, olhar penetrante, mas em extremo bondoso, cor amulatada para o claro, um tanto arroxeada na comissura dos lábios, maçãs do rosto salientes, testa larga, com acentuado lobinho do lado direito, nos últimos anos de vida.
     Januário da Cunha Barbosa, seu amigo particular, no artigo necrológico, que a 7 de maio de 1830 lhe consagrou no Diário Fluminense, diz o seguinte: "Juntava a todos os estudos necessários ao presbiterato vastos e profundos conhecimentos de geografia e história, tanto profana como sagrada, e das línguas francesa e italiana, não sendo hóspede da inglesa e grega, que também estudara, não com tanto afinco".
     Foi esse homem incontestavelmente um gênio musical, a quem o Brasil ainda não pagou um ceitil da dívida de admiração e reconhecimento a que tem inconcusso jus, com prejuízo e desprestígio para toda a nação, que assim mostra desconhecer os tesouros que possui  não para José Maurício Nunes Garcia, que assentou sólidas bases aos seus direitos à imortalidade e pode sempre apelar para a mais remota posteridade.


Rio de Janeiro, 22 de setembro de 1896.


Extraído de TAUNAY, visconde de. Introdução. In: GARCIA, José Maurício Nunes. Missa de Requiem 1816. Rio de Janeiro, São Paulo, Bevilacqua, 1897.



     

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

ESSA NEGRA FULÔ: ANÁLISE

FORMA E ESTRUTURA NA ÓPERA: CENA III - ESTRUTURAÇÃO DE UMA ÓPERA

Mozart: Bastião e Bastiana em português e com sotaque paraense