José Maurício Nunes Garcia: apontamentos

     Este ensaio biográfico é de autoria de Manuel de Araújo Porto Alegre publicado originalmente em 1856. Ele versa sobre dados biográficos do músico e padre brasileiro José Maurício, um dos gigantes da música no Brasil, profundamente estudado pela musicóloga brasileira Cleofe Person de Mattos e que, ainda, necessita obter o seu merecido reconhecimento e lugar adequado às grandes mentes brasileiras dispensados pelo povo brasileiro aos seus grandes nomes, porém mais comumente dado nas últimas décadas aos seus atletas e profissionais de televisão que esbanjam celebridade nacional mas que, na maioria, carecem de verdadeiro valor nacional. 




APONTAMENTOS SOBRE A VIDA E OBRAS 
DO PADRE JOSÉ MAURÍCIO NUNES GARCIA


                                                                    Manuel Araújo Porto Alegre



     O grande artista de que vamos ocupar foi um homem singular na arte de Gui d'Arezzo; foi uma organização especial, foi uma organização especial, que ultrapassou a época em que viveu, e dominou por largos anos o campo que invadiu com o poderio do seu engenho, com a sua fecundidade, e com a revolução que causou nos ânimos que conquistara.
   Antes da sua aparição, houve nesta cidade um outro músico não menos notável pelo seu espírito ascético, e pelas composições sagradas que escreveu, as quais ainda se cantam, e fazem a admiração de todos os artistas e amadores que apreciam a música do Santuário; mas este músico, o padre Manuel da Silva Rosa, compositor da célebre música da Paixão de Jesus Cristo, que se canta na capela imperial e no convento de S. Francisco,nada influiu na educação de José Maurício. Fâmulo do bispo Fr. Antônio do Desterro, viveu sempre retirado, e não me consta que fizesse alguém coparticipante do seu admirável talento[1].
     Nasceu José Maurício nesta ilustre cidade do Rio de Janeiro a 22 de setembro de 1767, filho legítimo de Apolinário Nunes Garcia e Victoria Maria da Cruz. Sabemos pela sentença de habilitação do genere, passada em seu favor a 27 de junho de 1791 pelo padre Manoel dos Santos e Souza, secretário da câmara episcopal, e assinada pelo Dr. Francisco Gomes Villas-Boas, deão da Sé, vigário geral e provisor do bispado, que José Maurício fora batizado na antiga catedral, hoje igreja do Rosário; e que seu pai era natural da ilha do Governador, freguesia de Nossa Senhora d’Ajuda, e sua mãe batizada na capela de S. Gonçalo do Monte, filial da matriz de Nossa Senhora do Rosário, freguesia da Cachoeira, do bispado de Mariana; pelo lado paterno descendia de uma família estabelecida em Irajá, e pelo materno de uma crioula de Guiné.
     Na idade de seis anos teve a desgraça de perder seu pai, porém achou nas virtudes e no trabalho de sua mãe e de uma tia, que o amava extremosamente, todos os recursos, amparo e direção da sua primeira educação.
     Desde a mais tenra infância manifestou uma inteira vocação pela música. Tinha uma belíssima voz, cantava admiravelmente, improvisava melodias, e tocava viola e cravo sem jamais ter aprendido. Muitas vezes assombrou os homens profissionais, não só com os seus improvisos, e reflexões, como também pela prodigiosa memória que tinha em reproduzir fielmente tudo quanto ouvia executar.
     Mandado para a escola de Salvador José, aí, se houve com tão rápida inteligência, que em poucos meses excedeu a todos os seus colegas, e foi considerado por aquele músico o primeiro e o melhor de seus discípulos, e o único de por si só poder continuar os estudos de uma arte, que requer, além dos dons naturais, uma prática não interrompida.
     Naquela alma de artista, naquela força da natureza, não existia somente a predisposição para compreender altamente os belos segredos da harmonia e melodia, havia mais que isso: havia uma poderosa dualidade como à que assinala todo o homem superior.
     De seu motu próprio foi assentar-se nos bancos da aula do padre Elias, mestre régio de latim, e aí adquirir com igual facilidade aquela chave d’ouro que abre os tesouros da antiguidade clássica, da filosofia, da história, da eloquência profana, e da sagrada com que mais tarde se adornou. Os seus progressos em latinidade foram tão extraordinários naqueles tempos, que no fim dos três anos seu próprio mestre o declarou em estado de o poder substituir. Igual triunfo obteve na aula do Dr. Goulão com quem aprendeu filosofia racional e moral, e por quem foi proposto para substituto da cadeira régia, ao que Jose Maurício se escusou, por não cortar os seus estudos artísticos, e a cultura de uma arte que já o punha a abrigo das maiores privações, e com ela ajudava a viver mais fartamente sua mãe e sua tia. Apesar desta recusa, Jose Mauricio lecionou alguns tempos depois, contando no número de seus discípulos o cônego Luiz Gonçalves dos Santos, autor de umas memórias bem conhecidas, e de alguns escritos a favor da unidade do dogma e disciplina da igreja católica romana, pelos anos de 28 a 30.
     Naquelas eras, a segurança individual, esteio das famílias pobres, e o amor materno, só achavam um asilo seguro e inviolável na igreja, e por isso, e pelo espírito religioso da época, as famílias tinham necessidade de que um filho ao menos as amparasse das violências tenebrosas do santo ofício, das vinganças e fanatismo de seus terríveis familiares, da prepotência dos maiores da terra, e das crueldades do recrutamento. O padre era a âncora de salvação da casa, o homem predileto, o filho mais querido, o laço da harmonia, o que nobilitava a família, e a tornava privilegiada e coparticipante de todos os prazeres públicos de então, que se limitavam nas festas da igreja, e nas que a família celebrava de harmonia com as do culto. Naquela época de fanatismo e poderio monacal, as vestes religiosas tinham o prestígio e o privilégio de serem respeitadas desde a sala do vice-rei até a mais podre habitação: o hábito substituía a idade, o nascimento, a riqueza e o saber.
     As vestes eclesiásticas que tão bem exornavam as qualidades do espírito e coração de Jose Mauricio, o habilitavam para dignamente entrar no seio e confiança das famílias mais gradas do país, cujo chefes lhe confiavam suas filhas, com quem passava horas inteiras no ensino e exercícios da música.
     Nesta vida de estudo e ensino, adquiriu ele essa grandiosa execução que conservou sempre; e igualmente a amizade de todos os que o chamavam, entre as quais a do abastado negociante Thomaz Gonçalves, que lhe fez patrimônio, e o pôs em estado de receber as ordens de diácono, e cantar missa solene no ano de 1792; e de obter licença para pregar no de 1798 antes mesmo de haver estudado retórica com o Dr. Manoel Ignácio da Silva Alvarenga, o que sucedeu de 1802 a 1804, como claramente se expressa o mesmo mestre, quando dele diz e atesta “que frequentou a sua aula por espaço de dois anos, e que nela fez rápidos progressos, que raras vezes se encontram.”
     Ao muito ilustre e virtuoso bispo do Rio de Janeiro, D. José Caetano da Silva Coutinho, ouvi muitas vezes elogiar o padre José Mauricio, não como artista, mas como um sacerdote dos mais ilustrados da sua diocese, e quem sobejavam talentos fora da música. Ele foi do número d’aquelas palestras literárias que esse grande bispo fazia em seu palácio, das quais eram membros efetivos o padre Caldas, o Marquez de Maricá e outros escolhidos, os quais cessaram na época da independência, por haver sido mal-intencionadamente espiado o seu palácio por ordem do governo.[2]
     Ouçamos a respeito do mérito literário de José Maurício ao nosso Januário da Cunha Barbosa, juiz competente, e seu amigo; ouçamos o que disse no Diário Fluminense de 7 de maio de 1830: “José Maurício juntava a todos estes estudos (os necessários para o presbiterato), vastos e profundos conhecimentos de geografia e de história tanto profana como sagrada, e das línguas francesa, e italiana, não sendo hóspede na inglesa e grega, que também estudava, mas não com tanto afinco”.
     Ao entrar nos trinta anos de idade, por morte do reverendo João Lopes Ferreira, mestre de capela da antiga Catedral e Sé, foi ele nomeado, como se vê do termo lavrado pelo beneficiado João Gonçalves da Silva Campos a 2 de junho de 1798, com o ordenado de seiscentos mil-réis anuais. Organista e compositor, aumentou o coro da catedral com um grande número de discípulos escolhidos, e o brilho do culto com novas e variadas composições.
     Com o ensino público gratuito, e também com o particular, donde tirava a maior parte da sua subsistência, com suas obras, espalhou o gosto da música na futura capital, e o enraizou de tal maneira, que a cidade do Rio de Janeiro se pode hoje chamar a cidade dos pianos.
     Nos dez anos que serviu este novo emprego, foi que o grande artista começou a revelar-se altamente, e a dilatar-se no horizonte de suas criações; mas tão pobre ainda era, que não podia possuir um cravo, pois que ensinava os preceitos e a prática da harmonia com uma viola de cordas metálicas na sua escola da Rua das Marrecas.
     II
     Em 1808, a chegada da família real, estava então ele na força da idade e do talento. O príncipe regente, grande conhecedor da música e de todas as práticas do culto, o admirou tanto, que sem a menor relutância nomeou-o, por decreto de 26 de novembro do mesmo ano, inspetor da música da real capela, com o mesmo ordenado de seiscentos mil-réis! E neste decreto vem mencionada a aula de música e o ensino gratuito que exercera José Maurício!!! Desta aula saíram a maior parte dos cantores e instrumentistas que fizeram a orquestra da capela real, e alguns compositores, entre os quais muito se distinguiram Francisco Manoel da Silva, Francisco da Luz e Cândido Ignácio da Silva; entre os instrumentistas, que ainda vivem, o padre Manoel Alves, Francisco da Motta, e alguns poucos valetudinários. Logo que em 1813 chegou de Lisboa o famoso Marcos Portugal, e com ele um bom número de vozes e instrumentos, as funções eclesiásticas subiram ao ponto das da patriarcal de Lisboa, que eram copiadas fielmente das de S. Pedro em Roma, no que era possível em um tempo onde não pontificava o papa rodeado do sagrado colégio.
     Nessas festas tão repetidas e prolongadas, nas contínuas vigílias, ordenadas pela exigência real, nessas horas do trabalho do engenho, horas criadoras, porem fatais à vida, se foi pouco a pouco estragando aquela constituição robusta.
     Obrigado a compor, a ensaiar e a residir, já em 1816 sofria, como ele mesmo o diz num requerimento ao bispo, em que pede licença para dizer missa em casa.
     Para se avaliar o poderio e a força do talento de José Maurício, basta dizer que el-rei o chamava o novo Marcos, antes que este célebre compositor tivesse chegado ao Brasil; e, que a despeito da sua cor mestiça, era tolerado na corte, nessa corte onde o auto de nascimento formava o maior merecimento do homem, dava direito a todas as simpatias, e onde o ser Brasileiro, e mormente mulato; bastava para alienar de si todos os favores, e mesmo muitos direitos.
     O Senhor D. João VI era o único que de coração nunca distinguiu no homem incidentes ou acidentes: pai e príncipe havia nascido acima de todos os preconceitos da inveja, ou da moral de uma nação em decadência, cujo egoísmo e incapacidade se encastelavam no privilégio do acaso de ter nascido em Portugal.
     Fora da atmosfera da presença de el-rei, José Maurício sofreu muitas invectivas bem dignas da estupidez altanada; porém sua alma nunca se dobrou a uma represália.
     Em uma dessas grandes festividades, sentiu-se el-rei tão arrebatado de entusiasmo, que, acabada a festa, mandou chamar ao paço o padre José Maurício, e em plena corte, tirando a farda do Visconde de Villa Nova da Rainha o hábito de Cristo, colocou-o com sua própria mão no peito do seu músico, dizendo-lhe ao mesmo tempo as coisas as mais lisonjeiras. Este fato memorável para a glória do artista, e para a do seu rei, aconteceu no ano de 1810 pouco antes de fevereiro; porque professou em 17 de março, tendo por padrinhos a Francisco José Rufino de Souza, o mesmo Visconde de Villa Nova da Rainha, então barão, e Fr. José Marcelino Gonçalves, seu discípulo e filho do seu antigo protetor Thomaz Gonçalves.
     Foi este ato de el-rei a Salvação de José Maurício.
     Pouco tempo depois, mandou-lhe dar uma ração de criado particular, a qual foi convertida em uma mensalidade de 32$000rs. a requerimento do músico, à vista dos embaraços que sofria na Ucharia dos empregados do paço.
     El-rei, convencido dos incômodos de José Maurício, provenientes da vida sedentária, ordenou que se lhe mandasse dar um cavalo todos os dias. A ordem executou-se, pois que todas as tardes vinha um moço com cavalo, mas este era de tal natureza que o mestre, e nem o próprio moço ousavam ensaiá-lo por um minuto. Parece que o estribeiro menor daqueles tempos julgava iguais talentos o de mestre de capela e o de mestre de equitação.
     Na fragata que nos trouxe a arquiduquesa, primeira imperatriz do Brasil, veio uma banda de música digna de acompanhar e suavizar a longa viagem daquela saudosa princesa. José Maurício até então não havia visto essa precisão mecânica, essa igualdade de execução que é um dos privilégios dos compatriotas de Mozart e Beethoven, e nem tão pouco conhecia os novos instrumentos que ela trouxe. Tão enamorado ficou de ouvir aquela banda musical, que para ela improvisou doze divertimentos, que são doze peças admiráveis de inspiração. Durante os ensaios destas obras, o povo ia ouvi-los no largo de S. Jorge, defronte da casa de José Maurício.
     Algum tempo depois, e por ordem de el-rei, escreveu para o real teatro de São João uma ópera, intitulada Le due Gemelle, cujas partituras se perderam, uma no incêndio do mesmo teatro e a outra o original, no pais de Marcos Portugal, que foram vendidos a peso aos fogueteiros e taverneiros; pois que uma nota escrita pelo próprio punho de José Maurício feita no inventário da música do real tesouro em 1821, se acha o seguinte: “Le Due Gemelle, drama em música por José Maurício: com instrumental e partes cantantes: a partitura se acha em casa do Sr. Marcos Portugal.”
     Algumas pessoas dizem que esta ópera nunca fora à cena, porém outras afirmam que o fora, mas que a mônita secreta a separava do teatro, afim de que somente Marcos Portugal ficasse em campo. Que este grande compositor era ciumento temos mais de um fato, e muitos salientes foram os que ele preparou para anular Neukomm, e o jovem Francisco Manuel da Silva, a quem o príncipe real, o senhor D. Pedro I, havia prometido mandar à Itália[3].
     Com o regresso d’el-rei, as festas da capela foram modificadas, como se vê da provisão episcopal de 17 de maio de 1822, onde o bispo declara: “já não ser possível celebrarem-se os ofícios divinos com o mesmo rigor de forma e residência, e solenidade de cantorias, que fora da sua primitiva instituição.” Os ministros da igreja se haviam retirado, e com eles alguns artistas, ficando se haviam retirado, e com eles alguns artistas, ficando entretanto os principais, porque o príncipe regente também era músico, e havia já composto alguma coisa, conquanto não fosse tão intimamente apaixonado pelo cantochão, cerimônias e outras disciplinas próprias de uma catedral altamente luxuosa.

III

     A musa de José Maurício não se revelou na independência, por que, como dizia ele, o príncipe queria fazer tudo.
     Se à nova face dos acontecimentos políticos juntarmos trinta e três anos de trabalho assíduo, e a privação de uma parte de seus vencimentos à natural melancolia de um homem cansado, e que só havia existido para a sua arte e o serviço do seu rei, não estranharemos o grande abatimento em que caiu. Nos últimos tempos da sua vida só viveu para a arte, porque a ela consagrou todas as horas que não sofria cruelmente. É dessa época a famosa missa de Santa Cecília, cuja partitura está no arquivo do Instituto Histórico, e a qual não se pode executar hoje por falta de vozes.
     Ouçamos ainda o cônego Januário: José Maurício começou a sofrer enfermidades, que muito se agravaram pelo trabalho a que se dava no desempenho das suas obrigações, perdendo muitas vezes noites inteiras em longas composições que o Sr. D. João VI queria concluídas com a maior presteza; a sua vida se foi gradualmente enfraquecendo, até que em um ataque mais forte, e quase repentino, teve seu termo”.
     El-rei acostumado aos milagres da musa do nosso artista, já não media o tempo, só marcava o termo; e todos nós podemos avaliar as horas de agonia por que passou aquela celebridade, vendo o tempo correr, e perigar a sua reputação se acaso a inspiração falhasse, ou se um desses sonos artísticos a que estão sujeitos todos os homens inspirados lhe viesse roubar o tempo preciso e entregá-lo à implacável injustiça dos seus colegas, prontos à escuta, postados à mira para aniquilá-lo. E para ele os perigos duplicavam, porque estava só, e nem ao menos tinha o privilégio do nascimento, que o escudaria com todas as prevenções favoráveis. Por toda a parte se ouvia murmurar um desfavor após um fato brilhante. Estes ecos da parcialidade precisavam de ser cobertos e abafados com novas harmonias, com amplas e severas composições, e com hinos que entoassem o triunfo do próprio artista.
     Oh! É muito ingrata a sorte do homem a quem sufocam, e que procura a vida; é por extremo dolorosa a situação do artista que tem consciência de si mesmo, que conhece o seu valor, o clarão do seu lume, e a quem rodeiam de trevas, que ele vence, mas que se não extinguem. Se não tivera el-rei por seu lado, mil vezes estalaria de dor: o que eu tenho sofrido daquela gente, dizia ele, só Deus sabe.
     Há soberanos que são seguidos nas suas jornadas por seus monteiros, pelos seus cães, e pelos seus cavalos; outros pelos seus atores e histriões; muitos pelos seus soldados, e alguns pelos seus bufos e parasitas: o senhor D. João VI era acompanhado pelos seus padres e pelos seus músicos. O espírito e práticas eclesiásticas estavam sempre com ele. Num corredor estreito de São Cristovão celebravam-se cerimoniosas festas, com músicas novas, e com as prédicas de um São Carlos, de um Sampaio, e de um Monte-Alverne. Na fazenda de Santa-Cruz, onde havia mais espaço, se executaram magníficas composições, escritas lá mesmo, quase sempre improvisadas pelos seus mestres de capela. Numa dessas jornadas, escreveu José Maurício a sua famosa missa da degolação de São João Batista, e outras obras de que ele mesmo se esqueceu. Foi esta missa a que pôs termo a todas as invectivas dos músicos da real câmara, porque esta obra, a grande instrumental, foi toda escrita no espaço de vinte dias, havendo Marcos Portugal gastado um mês em compor as matinas, a órgão e duas vozes.
     Para se avaliar a presteza e fecundidade deste mestre, basta enumerar as obras que escrevem até o ano de 1811, cuja lista extraí de um borrão do inventário das músicas existentes na capela real, feito pelo próprio punho de José Maurício: sobem acima de 200 peças mencionadas. Espero com o tempo merecer de alguém a quem ultimamente me dirigi o poder completar este catalogo, assim como o das obras de Marcos Portugal, em muito perfeito estado até certo tempo, porque possuo o autógrafo.
     Há uma modéstia d’alma que coloca o homem num mundo de torturas, ou num contínuo naufrágio quando a sua origem provém de uma estulta vaidade: esta moléstia é a inveja. Os invejosos pulam ao céu de contentes quando acham uma palavra para abater o mérito alheio para torná-lo ao menos duvidoso na consciência, dos inexperientes. Não tem gosto; era a ponta do punhal com que feriam José Maurício; não tem gosto, nunca saiu d’aqui, não viu nada, não foi à Itália, não aprendeu, não teve mestre, não frequentou os conservatórios! Tal era a ladainha estudada e uníssono de homens que nunca passaram do papel que representa o tubo de um órgão, e a quem a natureza havia negado o dom de combinar algumas notas e compor uns dês compassos. O tufão da morte os arrojou no mais perfeito esquecimento, e se algum existe hoje, só é conhecido por si mesmo.
     Depois da retirada de el-rei e consumada a independência, foi que Marcos Portugal conheceu o belo e nobre caráter de José Maurício, e tanto o admirou, que morreu seu grande defensor e amigo.
     Os acontecimentos políticos mudaram a situação dos brasileiros, e retraíram as expansões e os atos ostensivos da maior parte dos homens que até então se julgavam os senhores da terra, e como tal superiores em todas as faculdades humanas, apesar de que o médico da rainha, o Dr. Manoel Luiz, repetisse sempre: que em Portugal nasciam os músculos da nação portuguesa, e no Brasil os nervos.
     José Maurício viveu sempre na intimidade dos grandes mestres. Fazia gosto ouvi-lo analisar uma partitura como um retórico analisa uma oração. Senhor de uma prodigiosa memória, possuía a mais vasta erudição musical que é possível; nada lhe escapava: limitação, ou furto, ele indicava, e logo a obra e o lugar preciso. Por aquela gratidão artística, e espírito de justiça aos seus favoritos mestres da Alemanha e Itália, o vimos uma vez afligir-se e queixar-se da versatilidade dos seus companheiros d’arte, que escureciam os velhos mestres para darem a Joaquim Rossini o cetro da arte musical. Levado de indignação, começou a desfiar as óperas do cisne de Pésaro, a despir essas criações melódicas, essas belezas harmônicas, e a mostrar a sua origem, a fonte pura d’onde emanavam mais ou menos disfarçadas; mas ao chegar a um ponto, e era na ópera de Mathilde, parou, e sorrindo-se exclamou: não, isto é novo, isto é sublime; é um homem imenso, é um gênio que há de ir longe: já escreveu a ária da calúnia, e mais dois pedaços concertantes que admiro! E Joaquim Rossini ainda não tinha dado ao mundo o Moises, ainda não tinha mimoseado o seu século com o Guilherme Tell, e o Stabat Mater.
     Era maior a sua probidade artística do que aquela irritação; o seu entusiasmo para com Mozart, Haydn e Beethoven era justíssimo, porque nesta tríade estava toda a gloria da arte germânica, e aquela escola severa que plantou nos ásperos climas do norte uma arte cientifica, bela e proprietária de infinitos primores.
     O célebre Neukomm, discípulo de Haydn, que veio para esta corte como lente de música quando veio à colônia artística dirigida por Lebreton para fundar a Academia das Belas Artes, e que foi vítima da parcialidade que invectivava José Maurício, me disse, em Paris, a propósito do mestre brasileiro, que ele era o primeiro improvisador do mundo. Lamentou a sorte do artista no Brasil, louvou seu caráter, e apreciou as agonias do autor da famosa missa de Réquiem; e a propósito narrou-se o seguinte fato, que no meu regresso à pátria foi confirmado pelo cantor Fasciotti, que o testemunhara igualmente.
     “Em uma daquelas reuniões que se faziam em casa do marques de Santo Amaro, fizemos prova de algumas músicas que me chegaram da Europa. Todas as vezes que se tratava de cantar, cedia o piano ao padre-mestre, porque melhor do que ele nunca vi acompanhar. Entre várias fantasias, Fasciotti cantou uma barcarola que foi freneticamente aplaudida e repetida. José Maurício, que estava no piano, como que para descansar, começou a variar sobre o motivo, e com os nossos aplausos a crescer e multiplicar-se em formosas novidades. Suspensos e interrompendo a nossa admiração com ovações contínuas, ali ficamos até que o toque da alvorada nos viesse surpreender. Ah! Os brasileiros nunca souberam o valor do homem que tinham, valor tanto mais precioso pois que era todo fruto dos seus próprios recursos! E como o saberiam? Eu, o discípulo favorito de Haydn, o que completou por ordem sua as obras que deixara incompletas, escrevi no Rio de Janeiro uma missa, que foi entregue à censura de uma comissão composta daquele pobre Mazziotti e do irmão de Marcos Portugal, missa que nunca se executou, porque não era deles.
     “Alguns tempos depois, entrando eu na capela real por acaso, ouvi tocar no órgão umas harmonias que me não eram estranhas; pouco a pouco, fui reconhecendo pedaços da minha desgraçada missa; subi ao coro, e dou com José Maurício, tendo à vista a minha partitura, e a transpô-la de improviso para o seu órgão. Aproximei-me dele, e fiquei algum tempo a admirar a fidelidade e valentia da execução daquele grande mestre; nada lhe escapava do essencial... não pude resistir, abracei-o quando ia acabar, e choramos ambos sem nada dizer.”
     Neukomm foi compositor daquele concerto monstruoso, composto de três mil artistas, que se executou na inauguração da estátua de Guttenberg! Neukomm veio para o Brasil em companhia de João Batista Debret, de Nicolau Taunay e de Gradjean de Montigny, na qualidade de mestre de contraponto. Nunca ensinou: apenas deu algumas lições particulares a Francisco Manuel da Silva, e talvez que estas lições fossem a causa de ser este jovem perseguido artista e maquiavelicamente por Marcos Portugal logo que lhe apresentou o primeiro Te Deum de sua feitura.
     Havia o nosso artista improvisado tanto e sem descanso, que uma vez entrando pelo coro da então já capela imperial, parou na porta, e perguntou a um de seus discípulos, como que extasiado: De quem é esta bela música?!
     É sua, padre-mestre, pois não se lembra?
     Minha? responde José Maurício!
     - Sim, senhor, sua. – Está-me parecendo agora; mas quando escrevi-a eu, que me não lembra?
     No tempo do rei velho, lhe voltou o discípulo.
     José Maurício calou-se, abateu a cabeça, limpou as lagrimas e disse entre soluços:
     Ah! naqueles tempos, quando me assentava à mesa tinha nos meus olhos el-rei, e nos meus ouvidos uma orquestra imensa e prodigiosa. Muitas noites não pude dormir, porque essa orquestra me acompanhava, e era tal o seu efeito que passava as noites em claro; e infelizmente nunca pude escrever aquilo que claramente ouvia. Hoje, só ouço o cantar dos grilos, os meus gemidos, ou o ganir dos cães que me incomodam e me entristecem.”
     A musa, a famosa e sedutora filha do céu, é como a beleza corporal, que se transforma em asco na velhice, mormente quando a miséria a vem perseguir. O homem de engenho, que viveu no idealismo, se não tem uma pátria agradecida, é a imagem do mais terrível desengano quando a idade lhe extingue o lume do céu, e lhe quebra as forças: é a formosura admirada, a rainha dos prazeres transformada na mulher que expira no catre do hospital.
     Em 1830, o Brasil tinha ainda o seu príncipe, mas nele já não havia o seu defensor perpetuo, o astro do Ipiranga; porque a calúnia e os maus conselhos o haviam precipitado no extremo daquela grande resolução, e daqueles atos que pertencem hoje ao domínio da historia, e à admiração dos homens. A arte e os seus ministros nestas épocas de transição vivem a vida dos proscritos, sobretudo, nos povos onde o príncipe é a força motriz da máquina social.
     Na manhã do dia 18 de abril de 1830, cantando o hino de Nossa Senhora, expirou José Maurício, na casa nº. 18 da rua do Núncio. Chamado por seu filho, o Dr. José Maurício Nunes Garcia, atual lente de anatomia na escola médica desta corte, e então meu companheiro de estudos, fiz tirar-lhe uma máscara em gesso das suas feições, a qual me acompanhou à Europa, e se acha hoje depositada no Museu Nacional com as mascaras de Dante, Tasso, José Bonifácio, Antonio Carlos e Januário Arvellos.
     Quando o cônego Luiz Gonçalves veio para vestir o cadáver, já o achou pronto, porque a esse ato piedoso se prestara seu filho. Ainda me lembra, como se estivera presente, de o ver no leito da morte com as vestes de que usava no interior de sua casa, que eram umas calças e jaqueta de seda roxa; ainda estou vendo a sua mesa, onde se achava o tratado de contraponto e harmonia que havia terminado pouco dias antes de morrer; e sobre uma folha de papel em circulo movediço no qual estavam marcados todos os tons, e que movido em qualquer sentido que fosse, apresentava em roda um sistema completo de harmonia. Este tratado e este engenhoso invento desapareceram da mesa no mesmo dia.
     A irmandade de Santa Cecília, que lhe fez o enterro e funeral, desejou guardar os seus ossos, porém o seu filho cumpriu a vontade paterna, depositando-os na ordem de São Pedro. Hoje se acham na igreja do Sacramento, por uma provisão de monsenhor Narciso.
     Foi José Maurício um homem de estatura mais que ordinária; tinha uma fisionomia nobre, um olhar penetrante, e luminoso quando regia a orquestra, ou falava da arte; as dimensões e saliências ósseas do seu todo, mostravam que havia sido de uma forte constituição. Tinha nos lábios, na forma do nariz, e na saliência dos pômulos os caracteres da raça mista.
     O Dr. Dannesy, frenologista e discípulo fanático de Gall, possui uma cópia da máscara acima referida no seu gabinete em Paris, mas nas suas indagações esganou-se redondamente, o que bem prova a respeito do cérebro e suas protuberâncias externas, que as mais das vezes o miolo é quem decide e não a casca. Estes enganos do mesmo doutor se repetiram em outras vezes na legação brasileira, depois de haver apalpado um grande número de cabeças brasileiras.
     A arte do santuário, depois da morte deste grande músico, ficou sem guia. Pedro Teixeira, homem de talento mas pobre, a prostituiu ao ponto de transformar o canto sagrado em óperas italianas, e o libreto nos hinos da Igreja. Este mau gosto propagou-se até a indecência de há poucos meses aplaudir-se na igreja as árias do Provisório como na sua platéia. A Academia das Belas Artes, à vista de tanta profanação, elevou-se o seu protesto à presença do governo imperial, e dele espera providencias salutares. A época em que vivemos é uma época de reconstrução; a voz do artista já encontra um eco nas sumidades sociais; e a arte um desvelado e espontâneo protetor no príncipe filósofo que preside e protege as sessões e os trabalhos do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.


Extraído de PORTO ALEGRE, Manuel de Araújo.
Apontamentos sobre a vida e obras do Padre José Maurício Nunes Garcia. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Rio de Janeiro, tomo XIX, 3º. trim., p. 354,69, 1856.


[1] Era natural do Rio de Janeiro, e morreu a 15 de maio de 1793.
[2] Como sou devedor de grandes favores a este venerável prelado, que me hospedou no seu palácio com bondade paternal, não desejo nunca que se suponha alguma coisa, a este respeito, por ter sido ele filho de Portugal, e acontecer isto no tempo da independência.
   O general Nóbrega pediu ao Sr. D. José Caetano uma licença franca para que sua família pudesse ir ao convento da Ajuda, e lá passar dias com uma freira sua parenta. A abadessa daqueles tempos tinha pedido ao Sr. Bispo o favor de negar tais licenças, porque pertubavam-lhe a ordem da casa. O Sr. D. José, não querendo dar o motivo por que negava esta licença, para não comprometer a abadessa. Concitou as iras do general, e este foi dizer a José Bonifácio, que sabia de boa fonte, que o bispo fazia clube contra a independência. Imediatamente foi espiado o seu palácio, e o Sr. Bispo sabendo disto mandou fechar as portas às oito horas da noite, ordem que ele conservou severamente até à sua morte em 1833.
    Queixando-me eu da injustiça que houve para com aquele santo prelado, ao falecido conselheiro José Joaquim da Rocha, este contou-me a origem do fato por lhe haver narrado o próprio Nóbrega; o qual ajuntara, que o fizera por caçoada e para privá-lo de sua visitas à noite. José Bonifácio, assim como o SR. D. José, morreram inimizados, e talvez sem saberem da origem de semelhante denúncia.
    
[3] O Sr. Francisco Manoel da Silva, diretor atual do Conservatório de Música, depois de haver estudado com José Maurício, passou a receber lições de Neukomm. Moço ainda, compôs um Te Deum, e ofereceu ao príncipe real, e S. A. ficou tão contente da oferta, que prometeu mandar o jovem compositor para a Itália. O Sr. Francisco Manoel fazia parte da música da real câmara, e com tal estava sujeito a Marcos Portugal, que era o mestre; e este para desviá-lo do gosto e do tempo de compor, passou-o de violoncelo, que era, para violino, ameaçando de o por na rua se não estudasse assiduamente. Para quem tem prática das coisas da vida, e da arte, o caso está bem claro. 

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