segunda-feira, 14 de julho de 2014

A estréia do Trovador de Verdi no Festival de Ópera do Teatro da Paz

     A noite de 28 de agosto de 2013 marcou a estréia da integral da ópera Il Trovatore de Giuseppe Verdi no Pará. Teatro lotado e muita agitação dentro e fora dele. Na Praça da República em frente ao teatro um grupo de artistas paraenses descontentes com a política do então secretário estadual de cultura, o arquiteto paraense Paulo Chaves, fez mais uma manifestação contrária a realização do FOTP, entre outras realizações da pauta da SECULT-PA.
     Do lado de dentro, e no palco, a agitação ficou por conta da encenação da estória criada por Antonio Garcia Gutierrez e transformada em ópera por Verdi e o libretista Salvatore Cammarano, na melhor montagem de uma ópera italiana no Festival até o presente momento.
    Tudo nessa montagem foi muito bem equalizado, cantores, coro, orquestra, figurinos, cenários, iluminação. Pela primeira vez tive o prazer de presenciar uma grande ópera na voz de grandes cantores líricos. Não que as outras óperas do Festival estivessem desprovidas de grandes cantores, mas nessa montagem TODOS estavam nos seus devidos lugares. Uma ressalva pode ser Denize de Freitas, pela questão da sub-classificação vocal; mas pelo seu canto dramático e o mergulho profundo na caracterização da perturbada Azucena, os "buracos" da inadequação vocal foram superados muito a contento. Tanto que ela foi a mais aplaudida durante os agradecimentos finais, superando Eliane Coelho, uma das grandes divas operísticas brasileiras da atualidade.
     Aliás, faz-se necessário mandar uma mensagem a Lúcifer no Inferno avisando-lhe de que ele nunca terá Eliane Coelho cantando no seu coro infernal, devido a ela ter alcançado a iluminação e já ter um lugar reservado no coro celestial de vozes angelicais, onde passará a eternidade cantando para os espíritos bem-aventurados.
   Mas como ela, ainda, não desencarnou para nossa sorte, pudemos conferir sua grandiosa voz e musicalidade impar ao vivo e a cores logo ali no palco centenário do da Paz
     Walter Fraccaro, que já foi melhor intérprete verdiano no Concurso  Francisco Viñas em Barcelona, repetiu Manrico, pois essa personagem já faz parte de seu vasto repertório, sobretudo, verdiano. Tenor dramático de força tem uma voz forte, volumosa, pesada e com grande carga dramática. Sua presença no palco é muito segura e sua técnica vocal é impecável, sobretudo, o passaggio e os agudos heroicos e sem medo com uma profundidade própria de gargantas muito bem treinadas. De longe, o melhor tenor do Festival até agora. Seu retorno ao Festival é obrigatório.
     O Conde de Luna de Rodolfo Giugliani mostrou como deve ser a voz de um barítono operístico: volumosa, brilhante, bem preparada tecnicamente, com fraseado bem feito, graves poderosos e agudos sem medo. As melodias criadas por Verdi para o Conde estão entre as melhores de sua obra e o barítono que não consegue brilhar com essa personagem é no mínimo um incompetente. Coisa que Giuliani está longe de ser, pois seu Conde de Luna foi competentíssimo.




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domingo, 13 de julho de 2014

O ELIXIR DE AMOR: XII FESTIVAL DE ÓPERA DO TEATRO DA PAZ

     Nas noites de 8, 10 e 12 de agosto de 2013 o XII Festival Ópera do Teatro da Paz teve início com a encenação da Elixir de Amor de Gaetano Donizetti numa bonita encenação com direção cênica de Iacov Hillel.
     Assisti a terceira noite, quando os ânimos de todos já estavam relaxados após a tensão da primeira noite, comum a quase todos os profissionais de teatro. Mas por outro lado as ultimas noites estão envolvidas no clima de despedida; se o ambiente da encenação for bom ou "finalmente acabou" se o ar durante a encenação for tensa.
     Bom, o Elixir de Amor é uma ópera de "enredo fechado", ou seja, não há condições de fazer alterações nele e nem mudar a ordem dos números, pois assim a harmonia da obra é destruída.
     Se por um lado esta ópera não dá margens para mudanças e nem improviso de qualquer especie, e outro dá totais condições para os atores brilharem sem nenhum esforço: basta cantar lindamente o que Donizetti escreveu na partitura e os aplausos estão garantidos, Porém, já presenciei vezes que os atores não eram merecedores de aplausos, sobretudo, a sua inadequação vocal às personagens.
     Esse é um erro fatal no Elixir. Há várias gravações de áudio e vídeo, onde atores de vozes pesadas dao vida às personagens de Donizetti. Mas como essa ópera é garantia de aplauso fácil, creio ser tentador para os atores de ópera profissionais tê-la em seu repertorio, haja visto que até Placido Domingo já gravou Nemorino. Apesar da inapropriação vocal, ele cantou lindamente, o que tornou-se seu Nemorino palatavel.
     Nesta montagem paraense houveram mais acertos que erros, ou devo dizer inapropriações. Atalla Ayan, sempre crescendo na voz e na carreira, é um verdadeiro tenor, de voz bonita e canto agradavel. Já provou ter força na voz para aguentar alguns papeis para tenor lírico com alguma dramaticidade e, talvez, já esteja na hora de tentar algum Radamés ou o Erik do Holandês Voador. Mas ainda em doses homeopáticas para não estragar-lhe a voz. Por isso, sua voz também se mostra inadequada para o "levinho" Nemorino, personagem escrito para tenor lírico-ligeiro, que apesar de alguns momentos de tristeza (una furtiva lagrima) tem partes de pura alegria e felicidade ao longo da ópera e assim requer um cantor de voz leve e luminosa.
     Atalla tem voz brilhante,  porém é tenor lírico de voz volumosa e forte, mais apropriada para os Rodolfos e Alfredos do mundo operístico. Atalla "entro no clima" e nos deu um Nemorino entusiasmado e bem caracterizado, equilibrado mesmo. Com certeza um bom trabalho do diretor cênico, pois lembro de alguns anos atras quando lhe chamava a atenção para a sua movimentação cênica inexistente e o apelidei de "poste cantate". Pois espero que meu amigo tenha deixado seus dias de "poste cantante" para trás. No final da passeata Atalla chegou ileso, sem ferimentos e os olhos ardendo. Mas se ele fosse lírico-ligeiro o final teria sido triunfal.
     Já Carmen Monarcha não teve um rendimento 100% devido a sua audível mudança vocal. Soprano lírico leve, sua voz nesta noite apresentou uma maturidade natural com o passar dos anos. Em vários compassos ela não alcançou as notas hiperagudas exigidas de Adina com a característica leveza e brilho da personagem. No dueto final com Nemorino cantou um grave que eu desconhecia e os agudos não foram tao altos. Perdeu qualidade.
     Creio que para Carmen uma mudança leve no repertório também seja indicado. Os papeis para lirico de coloratura devem ser deixados para trás e os soprano líricos com poucos ornamentos e muita carga dramática devam ser acrescentados ao seu repertório. Mas sempre em doses homeopáticas. Ela já cantou no da Paz, em concerto, a Mi tradi quell'alma ingrata de Mozart e se saiu muito bem. Certamente, Mozart é um compositor que se encaixará perfeitamente à sua voz. Aliada à sua bonita figura e seu natural dom interpretativo as personagens mozartianas e haendelianas cairiam como uma luva para ela. Já dá para imaginas o que ela faria com D. Elvira e Alcina.
     Já Saulo Javan, intérprete de Dulcamara, trouxe o pior vocal da noite. Voz opaca, sem beleza, sem condições de cantar o luminoso papel de Dulcamara. Não foi ruim só vocalmente, mas também cenicamente. Sua interpretação do medico charlatão foi fraca e não empolgou. Muita das inflexões vocais de Dulcamara, sobretudo, suas jocosas interjeições foram deixadas de lado.
     O monólogo de entrada não teve nada da jocosa cantoria registrado por baixos e baixos-barítonos como Sir Gerant Evans, Fernando Corena e Bryn Terfel. Faltou desse intérprete a "brincadeira" com seu próprio canto para tornar a personagem mais engraçada e canastrona.
     "Dulcamara é uma personagem cheia de vida, engraçada e falante. Com todo o desapego às melhores características do dottore, Saulo deu-nos um Dulcamara muito sem graça.
     O cenário de José de Anchieta foi simples e funcional, adequando-se bem à encenação, mas destacado mesmo foram os coloridos figurinos desenhados por Hélio Alvarez. A explosão de cores no palco, sobretudo, quando o coro se fazia presente foi uma exuberância visual. Aliás, o coro novamente fez uma grande participação com um som muito bom e bonito. Uma pena que muitos coralistas bons de Belém não tenham ou tenham perdido sua vaga no coro do Festival devido a panelinha que se formou no coro , independente dos regentes que estejam à sua frente, pois durante o período de Ana Júlia o regente do coro no Festival foi substituído, mas a panelinha continuou.
     Muita coisa precisa mudar no Festival. Uma delas: os coralistas paraenses merecem ser tratados com respeito e profissionalismo, coisas que panelinhas como a do coro do Festival não permitem. Quando o profissionalismo imperar na música erudita paraense muita gente terá sua vez. Mas até lá...