A estréia do Trovador de Verdi no Festival de Ópera do Teatro da Paz

     A noite de 28 de agosto de 2013 marcou a estréia da integral da ópera Il Trovatore de Giuseppe Verdi no Pará. Teatro lotado e muita agitação dentro e fora dele. Na Praça da República em frente ao teatro um grupo de artistas paraenses descontentes com a política do então secretário estadual de cultura, o arquiteto paraense Paulo Chaves, fez mais uma manifestação contrária a realização do FOTP, entre outras realizações da pauta da SECULT-PA.
     Do lado de dentro, e no palco, a agitação ficou por conta da encenação da estória criada por Antonio Garcia Gutierrez e transformada em ópera por Verdi e o libretista Salvatore Cammarano, na melhor montagem de uma ópera italiana no Festival até o presente momento.
    Tudo nessa montagem foi muito bem equalizado, cantores, coro, orquestra, figurinos, cenários, iluminação. Pela primeira vez tive o prazer de presenciar uma grande ópera na voz de grandes cantores líricos. Não que as outras óperas do Festival estivessem desprovidas de grandes cantores, mas nessa montagem TODOS estavam nos seus devidos lugares. Uma ressalva pode ser Denize de Freitas, pela questão da sub-classificação vocal; mas pelo seu canto dramático e o mergulho profundo na caracterização da perturbada Azucena, os "buracos" da inadequação vocal foram superados muito a contento. Tanto que ela foi a mais aplaudida durante os agradecimentos finais, superando Eliane Coelho, uma das grandes divas operísticas brasileiras da atualidade.
     Aliás, faz-se necessário mandar uma mensagem a Lúcifer no Inferno avisando-lhe de que ele nunca terá Eliane Coelho cantando no seu coro infernal, devido a ela ter alcançado a iluminação e já ter um lugar reservado no coro celestial de vozes angelicais, onde passará a eternidade cantando para os espíritos bem-aventurados.
   Mas como ela, ainda, não desencarnou para nossa sorte, pudemos conferir sua grandiosa voz e musicalidade impar ao vivo e a cores logo ali no palco centenário do da Paz
     Walter Fraccaro, que já foi melhor intérprete verdiano no Concurso  Francisco Viñas em Barcelona, repetiu Manrico, pois essa personagem já faz parte de seu vasto repertório, sobretudo, verdiano. Tenor dramático de força tem uma voz forte, volumosa, pesada e com grande carga dramática. Sua presença no palco é muito segura e sua técnica vocal é impecável, sobretudo, o passaggio e os agudos heroicos e sem medo com uma profundidade própria de gargantas muito bem treinadas. De longe, o melhor tenor do Festival até agora. Seu retorno ao Festival é obrigatório.
     O Conde de Luna de Rodolfo Giugliani mostrou como deve ser a voz de um barítono operístico: volumosa, brilhante, bem preparada tecnicamente, com fraseado bem feito, graves poderosos e agudos sem medo. As melodias criadas por Verdi para o Conde estão entre as melhores de sua obra e o barítono que não consegue brilhar com essa personagem é no mínimo um incompetente. Coisa que Giuliani está longe de ser, pois seu Conde de Luna foi competentíssimo.




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