domingo, 13 de julho de 2014

O ELIXIR DE AMOR: XII FESTIVAL DE ÓPERA DO TEATRO DA PAZ

     Nas noites de 8, 10 e 12 de agosto de 2013 o XII Festival Ópera do Teatro da Paz teve início com a encenação da Elixir de Amor de Gaetano Donizetti numa bonita encenação com direção cênica de Iacov Hillel.
     Assisti a terceira noite, quando os ânimos de todos já estavam relaxados após a tensão da primeira noite, comum a quase todos os profissionais de teatro. Mas por outro lado as ultimas noites estão envolvidas no clima de despedida; se o ambiente da encenação for bom ou "finalmente acabou" se o ar durante a encenação for tensa.
     Bom, o Elixir de Amor é uma ópera de "enredo fechado", ou seja, não há condições de fazer alterações nele e nem mudar a ordem dos números, pois assim a harmonia da obra é destruída.
     Se por um lado esta ópera não dá margens para mudanças e nem improviso de qualquer especie, e outro dá totais condições para os atores brilharem sem nenhum esforço: basta cantar lindamente o que Donizetti escreveu na partitura e os aplausos estão garantidos, Porém, já presenciei vezes que os atores não eram merecedores de aplausos, sobretudo, a sua inadequação vocal às personagens.
     Esse é um erro fatal no Elixir. Há várias gravações de áudio e vídeo, onde atores de vozes pesadas dao vida às personagens de Donizetti. Mas como essa ópera é garantia de aplauso fácil, creio ser tentador para os atores de ópera profissionais tê-la em seu repertorio, haja visto que até Placido Domingo já gravou Nemorino. Apesar da inapropriação vocal, ele cantou lindamente, o que tornou-se seu Nemorino palatavel.
     Nesta montagem paraense houveram mais acertos que erros, ou devo dizer inapropriações. Atalla Ayan, sempre crescendo na voz e na carreira, é um verdadeiro tenor, de voz bonita e canto agradavel. Já provou ter força na voz para aguentar alguns papeis para tenor lírico com alguma dramaticidade e, talvez, já esteja na hora de tentar algum Radamés ou o Erik do Holandês Voador. Mas ainda em doses homeopáticas para não estragar-lhe a voz. Por isso, sua voz também se mostra inadequada para o "levinho" Nemorino, personagem escrito para tenor lírico-ligeiro, que apesar de alguns momentos de tristeza (una furtiva lagrima) tem partes de pura alegria e felicidade ao longo da ópera e assim requer um cantor de voz leve e luminosa.
     Atalla tem voz brilhante,  porém é tenor lírico de voz volumosa e forte, mais apropriada para os Rodolfos e Alfredos do mundo operístico. Atalla "entro no clima" e nos deu um Nemorino entusiasmado e bem caracterizado, equilibrado mesmo. Com certeza um bom trabalho do diretor cênico, pois lembro de alguns anos atras quando lhe chamava a atenção para a sua movimentação cênica inexistente e o apelidei de "poste cantate". Pois espero que meu amigo tenha deixado seus dias de "poste cantante" para trás. No final da passeata Atalla chegou ileso, sem ferimentos e os olhos ardendo. Mas se ele fosse lírico-ligeiro o final teria sido triunfal.
     Já Carmen Monarcha não teve um rendimento 100% devido a sua audível mudança vocal. Soprano lírico leve, sua voz nesta noite apresentou uma maturidade natural com o passar dos anos. Em vários compassos ela não alcançou as notas hiperagudas exigidas de Adina com a característica leveza e brilho da personagem. No dueto final com Nemorino cantou um grave que eu desconhecia e os agudos não foram tao altos. Perdeu qualidade.
     Creio que para Carmen uma mudança leve no repertório também seja indicado. Os papeis para lirico de coloratura devem ser deixados para trás e os soprano líricos com poucos ornamentos e muita carga dramática devam ser acrescentados ao seu repertório. Mas sempre em doses homeopáticas. Ela já cantou no da Paz, em concerto, a Mi tradi quell'alma ingrata de Mozart e se saiu muito bem. Certamente, Mozart é um compositor que se encaixará perfeitamente à sua voz. Aliada à sua bonita figura e seu natural dom interpretativo as personagens mozartianas e haendelianas cairiam como uma luva para ela. Já dá para imaginas o que ela faria com D. Elvira e Alcina.
     Já Saulo Javan, intérprete de Dulcamara, trouxe o pior vocal da noite. Voz opaca, sem beleza, sem condições de cantar o luminoso papel de Dulcamara. Não foi ruim só vocalmente, mas também cenicamente. Sua interpretação do medico charlatão foi fraca e não empolgou. Muita das inflexões vocais de Dulcamara, sobretudo, suas jocosas interjeições foram deixadas de lado.
     O monólogo de entrada não teve nada da jocosa cantoria registrado por baixos e baixos-barítonos como Sir Gerant Evans, Fernando Corena e Bryn Terfel. Faltou desse intérprete a "brincadeira" com seu próprio canto para tornar a personagem mais engraçada e canastrona.
     "Dulcamara é uma personagem cheia de vida, engraçada e falante. Com todo o desapego às melhores características do dottore, Saulo deu-nos um Dulcamara muito sem graça.
     O cenário de José de Anchieta foi simples e funcional, adequando-se bem à encenação, mas destacado mesmo foram os coloridos figurinos desenhados por Hélio Alvarez. A explosão de cores no palco, sobretudo, quando o coro se fazia presente foi uma exuberância visual. Aliás, o coro novamente fez uma grande participação com um som muito bom e bonito. Uma pena que muitos coralistas bons de Belém não tenham ou tenham perdido sua vaga no coro do Festival devido a panelinha que se formou no coro , independente dos regentes que estejam à sua frente, pois durante o período de Ana Júlia o regente do coro no Festival foi substituído, mas a panelinha continuou.
     Muita coisa precisa mudar no Festival. Uma delas: os coralistas paraenses merecem ser tratados com respeito e profissionalismo, coisas que panelinhas como a do coro do Festival não permitem. Quando o profissionalismo imperar na música erudita paraense muita gente terá sua vez. Mas até lá...

   
   
     
     

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